Infeciologia

Programa brasileiro de profilaxia pré-exposição ao HIV deve começar em 180 dias

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Ruth Helena Bellinghini

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou em 25 de maio o uso do Truvada para prevenção de infecção por HIV, abrindo caminho para a implementação no Brasil da profilaxia Pré-Exposição (PrEp), recomendação adotada pela Organização Mundial da Saúde desde 2012. O Truvada combina dois antirretrovirais (fumarato de tenofovir desoproxila e emtricitabina) em um comprimido e integra o coquetel de drogas antiaids. “Ambos são inibidores da transcriptase reversa e impedem a reprodução do HIV e sua eficiência também na prevenção foi demonstrada por um estudo hoje clássico, o iPrex [1] [2] , realizado entre 2007 e 2012,” explicou o infectologista Dr. Ricardo de Paula Vasconcelos, coordenador do SEAP-HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e coordenador médico dos projetos PrEP Brasil.

A pesquisa com o Truvada como profilático teve início em 2007, no Peru e Equador e, no ano seguinte, foi ampliado para Brasil, Estados Unidos, África do Sul e Tailândia. De acordo com o Dr.  Vasconcelos, no Brasil, o estudo envolveu 500 pessoas de grupos considerados de alta vulnerabilidade, como casais sorodiscordantes (em que um é portador do HIV e o outro não), homens que fazem sexo com outros homens, transgêneros e travestis e profissionais do sexo. “A nossa pesquisa foi feita inicialmente em São Paulo e Rio e, mais tarde, ampliada para Porto Alegre e Manaus, que são as duas cidades com maior taxa de incidência de aids no País”, afirmou em entrevista ao Medscape. De acordo com dados do governo, Rio e São Paulo têm o maior número de casos de aids em números absolutos, mas Manaus e Porto Alegre têm o maior número de novos casos por 100 mil habitantes, ou seja, é onde a doença mais avança — Porto Alegre por causa do uso de drogas injetáveis e Manaus pela dificuldade de acesso a atendimento de saúde.

Segundo o Ministério da Saúde, o PrEP vai envolver no primeiro ano, cerca de sete mil pessoas em 12 cidades (Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Fortaleza, Recife, Manaus, Brasília, Florianópolis, Salvador e Ribeirão Preto) a um custo inicial de US$ 1,9 milhão, para compra de 2,5 milhões de comprimidos. Para ser aceito no programa, não basta o paciente se encaixar numa dessas populações mais vulneráveis. “Uma série de critérios deve ser levada em conta antes da indicação da PrEP, como o número de parceiros sexuais, os outros métodos de prevenção utilizados, o compromisso com a adesão ao medicamento, entre outros”, disse em comunicado à imprensa a diretora do Departamento de Infecções Sexualmente Transmissíveis , Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Dra. Adele Benzaken.

Para o Dr. Vasconcelos, a PrEP é uma estratégia de redução de danos. “Não vivemos num mundo ideal em que as pessoas desses grupos de alta vulnerabilidade usam camisinha em 100% das relações. É comum, algumas pessoas dizerem que esquecem de usar quando bebem um pouco por exemplo. Na nossa pesquisa, 60% das pessoas consultadas se mostraram dispostas a tomar o medicamento diariamente como forma de prevenção, sem abandonar outras estratégias, enquanto permanecem em situação de vulnerabilidade. Alguns dos participantes, por exemplo, deixaram de frequentar saunas ou se casaram, deixando o grupo de maior vulnerabilidade e saindo do programa”, explicou.

Existem preconceitos que fazem as pessoas não aderir ao programa, como, por exemplo, o receito de tomar uma medicação “sem necessidade” e receio sobre efeitos colaterais. “Os problemas mais comuns no primeiro mês de uso é refluxo e dor de estômago, que somem depois desse período. O mais grave são os casos de problemas renais, mas é preciso lembrar que essas pessoas precisam passar por exames a cada três meses, inclusive para monitorar outras infecções sexualmente transmissíveis. Os temores de desenvolvimento de resistência ao medicamento também não se justificam: há apenas quatro relatos do gênero na literatura médica mundial,” disse o Dr. Vasconcelos.

O Ministério da Saúde tem agora prazo de 180 dias para colocar o programa em prática. “Sempre vai haver gente que não vai usar camisinha. Por isso, é preciso ter à mão diferentes estratégias, porque a melhor delas é aquela que a pessoa escolhe, se sente confortável e adere a ela,” concluiu o Dr. Vasconcelos.

Identificadas manifestações oculares da síndrome congênita do vírus Zika

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Marilynn Larkin

NOVA YORK (Reuters Health) – Pesquisadores descobriram que bebês com a síndrome congênita do vírus Zika têm anormalidades oculares graves nos dois olhos.

Em novembro a Organização Mundial da Saúde (OMS) alterou o status da infecção pelo Zika de emergência para “desafio de longo prazo à saúde pública” (http://bit.ly/2pM50dQ). Esta mudança, “indica uma necessidade urgente de avaliar e documentar pacientes com manifestações oftalmológicas para o manejo oportuno da doença, e confirmar se o problema de saúde pública no Brasil se estende a outras regiões da América do Sul”, disse o Dr. J. Fernando Arevalo do Wilmer Eye Institute da Johns Hopkins University School of Medicine, em Baltimore, Maryland, por e-mail à Reuters Health.

Em 2015 e 2016, Dr. Arevalo e colegas estudaram 43 bebês com a síndrome congênita do vírus Zika (28 meninas e 15 meninos; com idade média de dois meses no momento do exame) em dois centros oftalmológicos na Colômbia e na Venezuela. Vinte eram hispânicos, 13 eram negros, oito eram brancos e dois eram indígenas.

Nenhuma das mães teve problemas oculares durante o período do estudo ou durante a gravidez.

Os bebês passaram por exames oculares, incluindo oftalmoscopia dilatada, assim como testes sorológicos para descartar toxoplasmose, rubéola, sífilis, citomegalovírus e HIV.

Conforme publicado on-line no JAMA Ophthalmology, no dia 13 de abril, todos os bebês tiveram problemas oculares bilaterais graves.  Os achados do nervo óptico incluíram hipoplasia do disco com sinal do duplo anel, palidez, e em cinco deles (11,6%), aumento da escavação papilar.

Foram encontradas anormalidades maculares, incluindo depósito pigmentar de médio a grave em 27 bebês (63%) e maculopatia lacunar em três (7%). Cicatrizes coriorretinianas também foram encontradas em três bebês estudados.

Onze bebês (26%) tinham uma combinação de lesões no polo posterior, e cinco (12%) foram diagnosticados com glaucoma congênito, incluindo características como fotofobia, aumento da pressão intraocular (PIO) e perda da transparência corneana ao nascimento.

No geral, 12% dos bebês com zika congênita e microcefalia tinham anormalidades do segmento anterior, e 88% tinham anormalidades maculares e do nervo óptico, de acordo com os autores.

Dr. Arevalo disse, “É necessário um acompanhamento de longo prazo para determinar o real significado dos nossos achados em relação às deficiências visuais específicas. Por exemplo, a dimensão das anormalidades da pressão intraocular ao longo do tempo é desconhecida. Nós não encontramos uveíte em nossos pacientes, mas ela foi relatada e precisa ser descartada em bebês com zika congênita”.

“A necessidade de reabilitação visual nessas crianças é muito importante”, acrescentou ele. “A identificação precoce por rastreio não fará diferença no tratamento, uma vez que se trata de uma infecção intrauterina, e por isso já encontramos cicatrizes retinianas ao nascimento”.

Dra. Meenakashi Gupta, professora-assistente de oftalmologia na Icahn School of Medicine do Mount Sinai, Nova York, disse à Reuters Health que o estudo “contribui para a evolução do conhecimento em relação às anormalidades oculares congênitas associadas à infecção materna pelo vírus Zika durante a gravidez”.

Os casos na Colômbia e na Venezuela “confirmam relatos anteriores do Brasil descrevendo alterações graves no desenvolvimento normal dos olhos em associação com a síndrome congênita do vírus Zika”, disse ela por e-mail.

“O trabalho destaca ainda mais a importância e a necessidade de exames oftalmológicos em bebês que têm a síndrome congênita do vírus Zika com microcefalia”.

FONTE: http://bit.ly/2oS2ynx

JAMA Ophthalmol 2017.

Novas diretrizes do CDC para a realização da sorologia IgM contra o vírus Zika na gestação

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Janis C. Kelly

No início de maio os Centers for Disease Control and Prevention (CDC) norte-americanos atualizaram as recomendações emitidas em 2016 referentes ao Zika para os médicos que tratam de gestantes assintomáticas com possível exposição ao vírus. A orientação atualizada incorpora novos dados mostrando que a resposta da imunoglobulina M (IgM) contra o vírus pode perdurar por mais de 12 semanas, não sendo, portanto, um sinal confiável de infecção recente. Por outro lado, o resultado positivo do teste de ácido nucleico do vírus Zika (NAT, do inglês Nucleic Acid Test) desaparece com o passar do tempo à medida que os níveis de RNA do vírus diminuem, de modo que o resultado negativo do teste de ácido nucleico não descarta infecção recente.

“Esta mudança está sendo feita porque a orientação dos CDC de testagem do Zika para as gestantes depende, em parte, de um exame imunoenzimático ELISA (dosagem da imunoglobulina M contra o vírus causador da zika) de detecção de anticorpos ou proteínas que o corpo produz para combater a infecção por este vírus”, de acordo com um comunicado à imprensa divulgado pelos CDC. “Novos dados sugerem que a infecção pelo Zika, de modo semelhante a algumas outras infecções por outros flavivírus, pode, em alguns casos, resultar na permanência de anticorpos contra o vírus no corpo durante alguns meses após a infecção. Consequentemente, os resultados destes testes não podem determinar se as mulheres se infectaram antes ou depois de engravidar.

A determinação do momento da infecção é importante porque o risco mais alto para o feto está relacionado com a infecção durante o primeiro trimestre da gestação.

As diretrizes atualizadas alteram as recomendações de testagem das gestantes assintomáticas que possam ter sido expostas ao Zika antes da concepção. As recomendações para testar as gestantes com sintomas sugestivos de infecção por Zika permanecem inalteradas.

“No entanto”, advertem os CDC, “se uma gestante sintomática tiver resultado de IgM positivo e de NAT negativo, e tiver residido em, ou viajado para uma área considerada de risco pelos CDC (Zika Travel Notice ), os profissionais de saúde devem estar cientes de que o resultado positivo da IgM não indica necessariamente infecção recente”.

Cinco etapas para testar gestantes assintomáticas

Os CDC recomendam cinco etapas para a testagem das gestantes assintomáticas com possível exposição ao vírus Zika antes da concepção, incluindo as que viveram na, ou viajam com frequência para (todos os dias ou uma vez por semana) as regiões incluídas nos avisos de viagem dos CDC.

  1. Fazer o rastreamento de todas as gestantes em termos de risco, sintomas e exposição, realizando imediatamente o teste de ácido nucleico para aquelas com sintomas da doença durante a gestação, ou cujo parceiro sexual tenha um resultado positivo para infecção por Zika.
  2. Fazer pelo menos um teste de ácido nucleico para o vírus causador da zika a cada trimestre, a menos que um teste anterior tenha sido positivo.
  3. Se a amniocentese for feita por alguma razão diferente da infecção pelo vírus Zika, considerar também solicitar o teste de ácido nucleico para este vírus nas amostras da amniocentese.
  4. A cada trimestre, orientar as gestantes sobre as limitações dos exames de IgM e do teste de ácido nucleico para a identificação da infecção pelo vírus Zika.
  5. Considerar a realização da sorologia IgM antes da concepção a fim de determinar os níveis iniciais da IgM contra o vírus como parte do aconselhamento anterior à concepção.

A vigência de infecção pelo Zika em uma gestante está associada a aumento do risco para o feto, mas os especialistas dos CDC advertem que as respostas prolongadas da IgM contra o vírus, bem como nas infecções por outros flavivírus, complicam as tentativas de diferenciar as infecções recentes das pregressas nas regiões com transmissão endêmica. O momento da infecção pode ser ainda mais obscuro devido à reação cruzada com outros flavivírus, particularmente o vírus da dengue.

Dados de estudos sobre a infecção pelo vírus causador da zika confirmada por teste de ácido nucleico em pacientes sintomáticos em Porto Rico, onde não existe dengue, encontraram a mediana do tempo até a primeira IgM negativa de 122 dias após o início dos sintomas (intervalo = oito a 210 dias). Os testes teste de ácido nucleico nesses pacientes mostraram a existência de RNA viral em 36% dos pacientes de oito a 15 dias após o início dos sintomas, mas três das cinco gestantes deste estudo tiveram RNA detectável no 46º dia, e uma no 80º dia após o início dos sintomas.

“Nossa orientação faz parte do esforço contínuo de compartilhar dados para ações de saúde pública o mais rápido possível”, disse o Dr. Henry Walke, médico e coordenador ad hoc da iniciativa de resposta ao vírus Zika dos CDC, em um comunicado à imprensa. “À medida que aprendemos mais sobre as limitações dos testes sorológicos, continuaremos atualizando nossas diretrizes para assegurar que os profissionais de saúde tenham as informações mais recentes para aconselhar as pacientes infectadas pelo Zika durante a gestação.

CDC Health Alert Network (HAN) Health Advisory, no. 402. Publicado on-line em 5 de maio de 2017. Diretrizes

MI risk increases 17-fold after respiratory infection

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The risk remains elevated for up to a month.

Findings from a new study suggest that respiratory infection can raise the short-term risk of myocardial infarction (MI) 17-fold.

In what is believed to be the first study to report an association between respiratory infection and increased MI risk in patients with angiographically confirmed MI, 578 patients were interviewed to assess recent experience of respiratory infection symptoms.

The relative risk (RR) for MI occurring within 1-7 days after symptoms of respiratory infection was 17.0 and 13.5 for those with milder symptoms. RR tended to be lower in groups taking regular cardiac medications.

“Our findings confirm what has been suggested in prior studies that a respiratory infection can act as a trigger for a heart attack,” said senior author Professor Geoffrey Tofler from the University of Sydney. “The data showed that the increased risk of a heart attack isn’t necessarily just at the beginning of respiratory symptoms, it peaks in the first seven days and gradually reduces but remains elevated for one month.”

Writing in the  Internal Medicine Journal , the authors said further study is needed to identify treatment strategies to decrease this risk, particularly in individuals who may have increased susceptibility.

HIV: vacinas contra o vírus + Romidepsin podem ser o novo tratamento?

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HIV: vacinas contra o vírus + Romidepsin podem ser o novo tratamento?

Um estudo promovido por um grupo internacional de cientistas está começando a ter resultados positivos contra o HIV. Liderado por Beatriz Mothe, do Instituto de Pesquisa sobre Aids IrisCaixa, de Barcelona, Espanha, o experimento, que aconteceu durante três anos, conseguiu eliminar o vírus do organismo de cinco pacientes infectados recentemente e impedir que ele voltasse a se replicar – pelo menos até o momento. A possível terapêutica substitui os antirretrovirais, utilizado diariamente no tratamento atual, por duas vacinas experimentais contra o HIV associadas ao Romidepsin, droga muito utilizado em tratamentos contra o câncer.

Os pesquisadores realizaram o estudo com 24 pacientes, e divulgaram os resultados na Conferência de Retrovírus e Infecções Oportunistas, no último mês, em Seattle, Estados Unidos. Apesar de ter bons resultados, em dez das 15 pessoas que receberam as vacinas e a droga, o vírus voltou rapidamente. Os motivos ainda estão sendo pesquisados.

Os testes

Os testes começaram com todos os participantes, aplicando duas vacinas experimentais, desenvolvidas por cientistas da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e utilizando as drogas antirretrovirais, que impedem a evolução do HIV. Dois anos depois, 15 dos 24 pacientes receberam mais uma dose de uma das vacinas e três doses de Romidepsin, que, segundo algumas pesquisas, pode impedir que o vírus de esconda em determinadas células e ressurja rapidamente.

Em seguida, essas pessoas tomaram mais uma dose da vacina e pararam de tomar os antirretrovirais. Os dez pacientes que tiveram o retorno do vírus recomeçaram o uso dos antirretrovirais, mas os outros cinco não precisaram. Até o momento de apresentação dos resultados, entre os participantes cujo organismo conseguiu controlar o vírus, um já estava há sete meses sem tomar as medicações, outro há seis, o terceiro há 14 semanas, o quarto há 19 e o quinto há 21 semanas.

As vacinas utilizadas no teste são compostas por genes responsáveis pela produção de proteínas que estão presentes em todas as linhagens do HIV. Quando alguma dessas proteínas chega ao sangue, a defesa do organismo ativa as células-T citotóxicas CD8, que reconhecem, atacam e destroem as células infectadas pelo vírus. Já o Romidepsin, faz com que os vírus escondidos “acordem” para também serem atacados pelas células CD8, impedindo, teoricamente, que ele reapareça.

Referência:

Site Revista Exame. Cientistas dizem ter suprimido HIV do organismo de 5 pessoas. 24 fev, 2017.

 

Brasileiros criam nanoantibióticos contra infecções resistentes

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oliver.dodd/Flickr
Abordagem mostrou bom potencial para enfrentar formas resistentes do micróbio _Escherichia coli_
Abordagem mostrou bom potencial para enfrentar formas resistentes do micróbio Escherichia coli

REINALDO JOSÉ LOPES

Pesquisadores brasileiros criaram um método que combina minúsculas partículas de prata com um antibiótico para tentar vencer a crescente resistência das bactérias aos medicamentos convencionais.

Em testes preliminares de laboratório, a abordagem mostrou bom potencial para enfrentar formas resistentes do micróbio Escherichia coli, que às vezes causa sérios problemas no sistema digestivo humano.

“Alguns sistemas podem até funcionar melhor no que diz respeito à capacidade de matar as células bacterianas, mas o ponto-chave é que as nossas partículas combinam um efeito grande contra as bactérias com o fato de que elas são inofensivas para células de mamíferos como nós”, explica um dos responsáveis pelo desenvolvimento da estratégia, Mateus Borba Cardoso, do CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais), em Campinas (SP).

RESISTÊNCIA BACTERIANA

Cardoso e seus colegas assinam estudo recente na revista especializada “Scientific Reports”, no qual descrevem o processo de produção da arma antibacteriana e seu efeito sobre os micróbios.

Esse mesmo grupo já utilizou nanopartículas para inativar o HIV e atacar somente as células tumorais, em caso de câncer de próstata, poupando as células saudáveis.

VILÕES DA RESISTÊNCIA

O aumento da resistência das bactérias causadoras de doenças aos antibióticos tradicionais é um caso clássico de seleção natural em ação que tem preocupado os médicos do mundo todo.

Em síntese, o que ocorre é que é quase impossível eliminar todos os micróbios durante o tratamento. Uma ou outra bactéria sempre escapa, e seus descendentes paulatinamente vão dominando a população da espécie e espalhando a resistência, já que os micro-organismos suscetíveis morreram sem deixar herdeiros.

Para piorar ainda mais o cenário, tais criaturas costumam trocar material genético entre si com grande promiscuidade, numa forma primitiva de “sexo”. Assim, os genes ligados à resistência diante dos remédios se disseminam ainda mais.

Já se sabe, porém, que as nanopartículas de prata (ou seja, partículas feitas a partir desse metal com dimensão de bilionésimos de metro) têm bom potencial para vencer as barreiras bacterianas e, de quebra, parecem induzir muito pouco o surgimento de variedades resistentes.

Por outro lado, essas nanopartículas, sozinhas, podem ter efeitos indesejáveis no organismo.

A solução bolada pelos cientistas brasileiros envolveu “vestir” as partículas de prata com diferentes camadas à base de sílica, o mesmo composto que está presente em grandes quantidades no quartzo ou na areia.

Por meio de uma preparação especial, a camada mais externa de sílica foi otimizada para receber moléculas do antibiótico ampicilina, já bastante utilizado hoje.

PAPEL E CANETA

Ao criar a combinação, o mais importante foi saber onde e como ancorar o antibiótico nas nanopartículas, explica Cardoso.

“Vamos imaginar que o antibiótico é uma caneta e a membrana da bactéria é uma folha de papel”, compara o pesquisador. “Se você colocar uma caneta deitada em cima da folha, é lógico que ela não vai ser perfurada pela ponta da caneta. Nosso colaborador da UFRGS [Hubert Stassen, do Instituto de Química da universidade] mostrou como o antibiótico interage com a membrana e nos ajudou a orientar o medicamento na superfície da nanopartícula. Por isso ele é tão efetivo.”

Testes feitos pela equipe mostraram que o conjunto afeta de forma específica as células da bactéria E. coli, tanto as de uma cepa de ação mais amena quanto a de uma variedade resistente a antibióticos, sem ter o mesmo efeito sobre células humanas –provavelmente porque a ampicilina se conecta apenas à parede celular das bactérias.

É claro que ainda é preciso muito trabalho antes que a abordagem dê origem a medicamentos comerciais.

Segundo Cardoso, o primeiro passo seria o uso de sistemas semelhantes em casos muitos graves, nos quais pacientes com infecções hospitalares já não respondem a nenhum antibiótico.

Para um emprego mais generalizado, provavelmente será necessário substituir o “recheio” de nanopartículas de prata por outras moléculas, mais compatíveis com o organismo.

O trabalho teve financiamento da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

Sepse associada a risco de convulsões em longo prazo

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Deborah Brauser

BOSTON — Pacientes que sobrevivem à sepse estão sob risco significativamente aumentado de convulsões em longo prazo, sugere uma nova pesquisa.

O estudo de coorte retrospectivo mostrou uma taxa cumulativa de convulsões de 6,67% entre mais de 842.000 pacientes que foram hospitalizados por sepse oito anos antes, em relação a 1,27% para uma amostra da população geral correspondente.

A análise confirmatória usando os dados do Medicare (seguro de saúde pago pelo governo americano a pacientes idosos) mostrou uma razão de taxa de incidência (RTI) de 2,18 para convulsões entre pacientes com sepse após a exclusão daqueles com acidente vascular encefálico (AVE), lesão cerebral traumática ou infecção/neoplasia do sistema nervoso central.

Além disso, a sepse foi significativamente associada a status epilepticus, resultando em hospitalização.

“Nossos resultados fornecem evidência para a hipótese de que a sepse poderia estar associada a vias que levam a lesões cerebrais duradouras, independentemente de outras lesões estruturais”, disse o Dr. Michael Reznik, do Departamento de Neurologia, Weill Cornell Medicine/Columbia University Medical Center, em Nova York, aos participantes do Encontro Anual de 2017 da American Academy of Neurology (AAN).

Posteriormente, o comoderador da sessão, Dr. Walter Morgan, do Florida Hospital, Celebration, disse ao Medscape que o estudo foi intrigante, mas que ele está “agora interessado em saber se há alguma maneira de começar a prever quem são esses pacientes”.

“Se pudermos descobrir como analisar esses casos mais detalhadamente, e talvez prever quais deles terão maior probabilidade de desenvolver convulsões, seria ótimo”, disse o Dr. Morgan.

Quem está sob maior risco?

O Dr. Reznik observou que as complicações neurológicas comuns da sepse incluem acidente vascular cerebral, doença neuromuscular e encefalopatia associada à sepse, “o que levou ao reconhecimento de disfunção cognitiva em longo prazo após a sepse”.

A resposta inflamatória e potencialmente fatal à infecção também foi anteriormente associada a risco de convulsões em curto prazo .

Para o estudo atual, “queríamos avaliar esses pacientes e descobrir se há um risco em longo prazo de desenvolver convulsões após a alta hospitalar e, em caso afirmativo, quais grupos estão sob maior risco?” disse o Dr. Reznik.

Os pesquisadores avaliaram os dados de alta hospitalar entre 2005 e 2013 de 842.735 pacientes adultos com sepse (51% homens, 65% brancos, média de idade, 69,2 anos) de pronto-socorros e hospitais de tratamento de doenças agudas em Nova York, Flórida e Califórnia.

Como parte do Healthcare Cost and Utilization Project, é atribuído ao paciente um número pessoal de associação, que permite que as hospitalizações subsequentes sejam registadas anonimamente. Nenhum dos pacientes apresentou convulsões antes ou durante a internação inicial para sepse.

Os pesquisadores também avaliaram uma coorte de pacientes internados por diagnósticos diferentes de sepse, que foram pareados ao grupo com sepse por idade, sexo, raça, seguro, tempo de internação e ano de internação, local de alta e presença de disfunção orgânica.

No grupo de sepse, 30.503 tiveram crises convulsivas no acompanhamento; 22,8% desses pacientes em relação a 16,2% daqueles sem convulsões apresentaram “sepse com disfunção neurológica” no momento da internação inicial.

Vias significativas

Para os pacientes com sepse, a taxa bruta de convulsões após alta hospitalar inicial foi de 3,62% (intervalo de confiança, IC, de 95%, 3,58% – 3,66%).

A incidência anual de convulsões foi de 1,29% (IC de 95%, 1,27% – 1,30%) para o grupo de sepse em relação a 0,16% (IC de 95%, 0,16% – 0,16%) na população geral dos três estados. Além disso, a taxa de incidência para cada um desses grupos foi de 1287,9 em relação a 158,9, respectivamente, por 100.000 pessoas-anos.

Enquanto a razão de taxa de incidência global (RTI) foi de 4,98 (IC de 95%, 4,92 – 5,04) para os sobreviventes de sepse em relação à população em geral, a razão caiu para 4,53 para pacientes com sepse e sem disfunção neurológica concomitante, mas subiu para 7,52 para aqueles no grupo de sepse que tinham esse tipo de disfunção.

As RTIs de oito anos para convulsões foram de 7,52 e 4,53, respectivamente, para pacientes do grupo de sepse com em relação aos pacientes sem disfunção neurológica.

A sepse também foi associada ao status epilepticus, de acordo com a análise de sensibilidade pré-especificada (RTI, 5,42).

Em seguida, os pesquisadores realizaram uma análise de coorte confirmatória, avaliando pacientes internados e ambulatoriais de uma amostra de 5% de beneficiários do Medicare. Ela mostrou que “internação por sepse foi novamente associada a convulsões subsequentes” (RTI não ajustada, 2,72), relatou o Dr. Reznik.

Em uma última análise post hoc de subgrupos, que foi estratificada por idade, as RTIs foram de 2,83 para os pacientes no grupo de sepse com pelo menos 65 anos de idade ou mais (IC de 95%, 2,78 – 2,88) e de 10,33 para paciente com menos de 65 anos (IC de 95 %, 10,17 – 10,49).

No entanto, o Dr. Reznik observou que “isto não quer dizer que estes pacientes mais jovens têm maior probabilidade de ter convulsões do que qualquer outra pessoa. A incidência real é maior em pacientes mais idosos”.

Os pesquisadores escrevem que os resultados gerais sugerem que “a sepse está associada a vias que levam a sequelas neurológicas permanentes”. O Dr. Reznik observou que as perguntas que persistem incluem a determinação de fatores de risco e se “haverá estratégias de proteção do cérebro no horizonte”.

“Ficar atentos”

Após a apresentação, quando o Dr. Reznik foi perguntado se alguma informação familiar estava disponível sobre os pacientes, ele respondeu: “Não, infelizmente. Isso seria algo ótimo de se ter em um estudo prospectivo”.

O Dr. Morgan comentou posteriormente que estaria interessado em saber se houve alguma exposição particular a medicamentos, especialmente antibióticos, nesses pacientes.

“Seria intrigante saber se poderíamos começar a avaliar os fatores preditivos, porque parece que obviamente há um risco aumentado com esses pacientes desenvolvendo convulsões no futuro”, disse ele. “Isso é algo que deveríamos estar pesquisando e algo que estamos perdendo no cenário clínico”.

Ele acrescentou que a questão é importante para neurologistas e clínicos de outras áreas, como a atenção primária. “Precisamos ficar atentos para isso e começar a fazer perguntas”.

O estudo foi financiado por uma doação do National Institute of Neurological Disorders and Stroke e pelo Michael Goldberg Research Fund. Dr. Reznik e Dr. Morgan declararam não possuir relações financeiras relevantes.

Encontro Anual de 2017 da American Academy of Neurology (AAN). Resumo de ciência emergente S5.003. Apresentado em 23 de abril de 2017.