Rebecca Berner

# Insônia e #pesadelos são fatores de risco para # comportamento suicida

Postado em

Batya Swift Yasgur

Transtornos do sono são preditivos de ideação suicida aguda em adultos jovens, de forma independente da gravidade da depressão, e podem ser considerados sinais de alerta agudos, mostra uma nova pesquisa.

Um estudo em larga escala conduzido por pesquisadores da Stanford University School of Medicine,na Califórnia, mostrou que o autorrelato de insônia e pesadelos, e a variabilidade do sono avaliada por actigrafia, emergiram como sinais de alerta agudos para ideação suicida.

“O sono é um barômetro de nosso bem-estar e tem impacto direto em como nos sentimos no dia seguinte”, disse a pesquisadora principal Rebecca Bernert ao Medscape.

“Acreditamos que um sono ruim pode falhar em promover um descanso emocional durante períodos de estresse, impactando em como regulamos nosso humor e, portanto, reduzindo o limiar de comportamentos suicidas”, disse ela.

Uma equipe de pesquisadores observou quase 5000 adultos jovens com idades de 18 a 23 anos, incluindo 50 que haviam sido pré-triados com base em história de tentativa de suicídio e ideação suicida recente, em três momentos durante um período de 21 dias.

O estudo foi publicado on-line em 28 de junho no Journal of Clinical Psychiatry.

Maior sinal de alerta

A idade adulta jovem é caracterizada por “uma prevalência compartilhada de distúrbio do sono e risco de suicídio”, observam os autores. Transtornos do sono têm sido reconhecidos como “dentre os maiores sinais de alerta do suicídio”. Adicionalmente, “pesquisas preliminares sugerem que eles podem conferir risco para comportamentos suicidas”, escrevem os autores.

No entanto, estudos prévios que avaliaram essa associação foram prejudicados por “limitações metodológicas”, incluindo dependência de queixas subjetivas, como autorrelato de insônia, fadiga e qualidade do sono ruim subjetiva como fatores de risco para suicídio.

“Embora as queixas do sono anteriormente pesquisadas tenham sido avaliadas previamente como um fator de risco, ainda era preciso um estudo para investigar o sono perturbado como um indicador de risco agudo, usando um índice objetivo de sono entre adultos jovens”, comentou Rebecca.

Para este estudo os pesquisadores utilizaram um desenho longitudinal, e aplicaram medidas de sintomas validadas e um período de tempo agudo, para “avaliar se essa relação emerge com o uso de medidas de sono objetivas e subjetivas”.

Para fornecer uma avaliação contínua, eles utilizaram o exame de actigrafia do sono, cujo dispositivo foi usado pelos participantes por uma semana. A actigrafia já foi validada como uma forma precisa de distinção entre padrões de sono-despertar. Além disso, eles exploraram se uma “variação de humor intraindividual” esteve associada com ideação suicida e parâmetros do sono.

Os pesquisadores recrutaram participantes (n = 4897) de uma população de pesquisa de universitários que estavam em triagem por terem sido considerados de alto risco para suicídio.

Os participantes precisavam ter 18 anos ou mais e ter uma história de uma ou mais tentativas de suicídio no passado e ideação suicida recente (≤ 6meses), ou ausência se história passada de tentativa de suicídio, mas uma história atual (≤ 1 mês) e recente (≤ 6 meses) de ideação suicida.

Os pesquisadores avaliaram o risco de suicídio com base na Beck Scale for Suicidal Ideation (BSS) e na Pierce Suicidal Intent Scale (SIS).

A actigrafia do sono forneceu uma medida objetiva do sono. As variáveis derivadas incluíram latência do sono, tempo total adormecido, despertar após início do sono, eficiência do sono e variabilidade do sono (desvios padrão para início e término do sono diários).

Os pesquisadores incluíram variáveis adicionais, como tempo médio na cama e tempo de despertar, quantidade de tempo na cama (independentemente do tempo adormecido) e frequência de intervalos de cochilos e sono. Os dados de actigrafia do sono foram registrados por um período de sete dias para cada participante.

Além dessa medida objetiva, os pesquisadores utilizaram instrumentos subjetivos de sono, incluindo o Insomnia Severity Index (ISI), que descreveram como “o instrumento de insônia padrão-ouro”. Eles também usaram as escalas Disturbing Dreams and Nightmare Severity Index (DDNSI) e a Visual Analog Scale Mood Variability (VAS-MV).

As covariáveis de depressão e problemas relacionados ao álcool e dependência foram avaliadas com o Beck Depression Inventory-II (BDI-II) e o Alcohol Use Disorders Identification Test (AUDIT), respectivamente.

Variabilidade do sono, alterações de humor

Os pacientes foram avaliados no basal, e com sete e 21 dias. Os pesquisadores usaram análises de regressão múltipla hierárquica para testar as hipóteses. Eles avaliaram o risco causal e ordenamento temporal ao analisar longitudinalmente relações entre os sintomas, com ajustes para sintomas basais em cada modelo.

Os pesquisadores descobriram que problemas relacionados ao álcool e sintomas depressivos “moderados a graves” eram “comuns” entre os participantes. Pontuações médias na BSS indicaram sintomas moderados de suicídio, com as pontuações máximas no intervalo grave para ideação suicida.

Houve uma elevada aderência no registro de diários de sono e no uso de actigrafia. Trabalho em regime de plantão, assim como períodos acordados prolongados, pareceram estar associados com maior variabilidade do sono, determinada com base na métrica média da actigrafia e suas interconexões.

Dos 50 pacientes, 96% (n = 48) apresentavam uma história de tentativas de suicídio e exibiam objetivamente parâmetros de sono alterados, medidos pela actigrafia.

Medidas subjetivas mostraram que 78% (n = 39) apresentavam insônia clinicamente significativa, e 36% (n = 18) relataram pesadelos clinicamente significativos. Os pesquisadores descobriram que a variabilidade no tempo de sono, insônia e pesadelos previram aumentos na ideação suicida (P < 0,05).

Mesmo quando controlando para sintomas basais de suicídio e depressão, os pesquisadores mostraram que os parâmetros subjetivos, e da actigrafia, previram alterações residuais nas pontuações de ideação suicida nos dois momentos de seguimento (P < 0,001).

Análises post hoc revelaram que a maior variabilidade no sono e menor variabilidade no tempo total de sono foram preditores significativos de mudanças nas medidas da BSS com sete dias (P ≤ 0,02). Intercorrelações significativas foram observadas para variabilidade do sono com sete dias nas pontuações ISI (r = 0,35; P = 0,02) e DDNSI (r = 0,02; P = 0,04).

Em um teste de fatores de risco concorrentes, a variabilidade no sono foi mais preditiva de ideação suicida do que os sintomas depressivos na predição longitudinal de ideação suicida ao longo do tempo (P < 0,05).

A variabilidade no sono e a escala VAS-VM previram de forma significativa a mudança nos sintomas da BSS no seguimento de sete dias, com a variabilidade no sono e a VAS-VM correspondendo por “maior variância única na predição da mudança nos sintomas da BSS, comparado com a BDI-II”, relatam os pesquisadores.

“Insônia, pesadelos e variabilidade de sono estiveram altamente correlacionadas, e a variabilidade do humor serviu como um sinal de alerta adicional para sintomas de suicídio, ao lado dos distúrbios do sono”, disse Rebecca.

“Insônia e pesadelos produziram uma maior variabilidade no momento no qual somos capazes de pegar no sono nas noites subsequentes, o que fala um pouco sobre a forma como a insônia se desenvolve”, acrescentou.

Oportunidade para prevenção do suicídio

Comentando o estudo para o Medscape, Maria Wong, professora do Departamento de Psicologia, Idaho State University, em Pocatello, considerou esse “um estudo muito valioso, ligando a medida objetiva de parâmetros do sono a mudanças nos sintomas de suicídio”.

“Pesquisas prévias, incluindo a minha própria, mostraram que o autorrelato de problemas de sono prediziam a ideação e as tentativas de suicídio. Esse estudo mostrou que a variabilidade do sono objetivamente relatada previu os sintomas de suicídio de forma prospectiva”, disse Maria, que não esteve envolvida no estudo.

Uma fraqueza do estudo é que o tamanho da amostra foi pequeno e que, portanto, o estudo teve “baixo poder estatístico”, apontou ela. “Além disso, apenas a variabilidade do sono foi preditiva do desfecho”.

Mesmo assim, o estudo traz mensagens de rápida aplicação. “Os médicos deveriam avaliar os sintomas de insônia, variabilidade no tempo de sono, e outros parâmetros quando trabalharem com pacientes suicidas”, disse ela. “Eles deveriam discutir hábitos de sono com esses pacientes, e, se necessário, prescrever medicações para ajudá-los a dormirem melhor”.

Adicionalmente, “psiquiatras deveriam questionar pacientes com distúrbios do sono sobre possíveis pensamentos suicidas”.

Rebecca observou que “tratamentos testados para tentativas de suicídio são escassos em comparação com a necessidade, e permanecem incompatíveis com a natureza aguda da crise suicida”.

Em comparação com outros fatores de risco para suicídio, “o transtorno de sono é modificável, não estigmatizante, e altamente tratável com intervenções breves e de ação rápida”, apontou ela.

“Dessa forma, acreditamos que o estudo do sono possa representar uma oportunidade importante para intervenção e prevenção do suicídio, que é prevenível, mas permanece um assassino silencioso e uma importante doença global, destacando a necessidade de novos tratamentos e estratégias de intervenção”.

Ela recomendou a American Academy of Sleep Medicine e a National Sleep Foundation como “recursos excelentes” para o auxílio de médicos que tratam pacientes com transtornos do sono.

A pesquisa foi financiada pela John Simon Guggenheim Foundation e pelos National Institutes of Health. O Departamento de Psiquiatria e Ciências Comportamentais, Stanford University, também apoiou o trabalho. Os autores declararam não possuir conflitos de interesses relevantes.

J Clin Psychiatry. Publicado on-line em 28 de junho de 2017. Resumo

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