ideação suicida

# Insônia e #pesadelos são fatores de risco para # comportamento suicida

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Batya Swift Yasgur

Transtornos do sono são preditivos de ideação suicida aguda em adultos jovens, de forma independente da gravidade da depressão, e podem ser considerados sinais de alerta agudos, mostra uma nova pesquisa.

Um estudo em larga escala conduzido por pesquisadores da Stanford University School of Medicine,na Califórnia, mostrou que o autorrelato de insônia e pesadelos, e a variabilidade do sono avaliada por actigrafia, emergiram como sinais de alerta agudos para ideação suicida.

“O sono é um barômetro de nosso bem-estar e tem impacto direto em como nos sentimos no dia seguinte”, disse a pesquisadora principal Rebecca Bernert ao Medscape.

“Acreditamos que um sono ruim pode falhar em promover um descanso emocional durante períodos de estresse, impactando em como regulamos nosso humor e, portanto, reduzindo o limiar de comportamentos suicidas”, disse ela.

Uma equipe de pesquisadores observou quase 5000 adultos jovens com idades de 18 a 23 anos, incluindo 50 que haviam sido pré-triados com base em história de tentativa de suicídio e ideação suicida recente, em três momentos durante um período de 21 dias.

O estudo foi publicado on-line em 28 de junho no Journal of Clinical Psychiatry.

Maior sinal de alerta

A idade adulta jovem é caracterizada por “uma prevalência compartilhada de distúrbio do sono e risco de suicídio”, observam os autores. Transtornos do sono têm sido reconhecidos como “dentre os maiores sinais de alerta do suicídio”. Adicionalmente, “pesquisas preliminares sugerem que eles podem conferir risco para comportamentos suicidas”, escrevem os autores.

No entanto, estudos prévios que avaliaram essa associação foram prejudicados por “limitações metodológicas”, incluindo dependência de queixas subjetivas, como autorrelato de insônia, fadiga e qualidade do sono ruim subjetiva como fatores de risco para suicídio.

“Embora as queixas do sono anteriormente pesquisadas tenham sido avaliadas previamente como um fator de risco, ainda era preciso um estudo para investigar o sono perturbado como um indicador de risco agudo, usando um índice objetivo de sono entre adultos jovens”, comentou Rebecca.

Para este estudo os pesquisadores utilizaram um desenho longitudinal, e aplicaram medidas de sintomas validadas e um período de tempo agudo, para “avaliar se essa relação emerge com o uso de medidas de sono objetivas e subjetivas”.

Para fornecer uma avaliação contínua, eles utilizaram o exame de actigrafia do sono, cujo dispositivo foi usado pelos participantes por uma semana. A actigrafia já foi validada como uma forma precisa de distinção entre padrões de sono-despertar. Além disso, eles exploraram se uma “variação de humor intraindividual” esteve associada com ideação suicida e parâmetros do sono.

Os pesquisadores recrutaram participantes (n = 4897) de uma população de pesquisa de universitários que estavam em triagem por terem sido considerados de alto risco para suicídio.

Os participantes precisavam ter 18 anos ou mais e ter uma história de uma ou mais tentativas de suicídio no passado e ideação suicida recente (≤ 6meses), ou ausência se história passada de tentativa de suicídio, mas uma história atual (≤ 1 mês) e recente (≤ 6 meses) de ideação suicida.

Os pesquisadores avaliaram o risco de suicídio com base na Beck Scale for Suicidal Ideation (BSS) e na Pierce Suicidal Intent Scale (SIS).

A actigrafia do sono forneceu uma medida objetiva do sono. As variáveis derivadas incluíram latência do sono, tempo total adormecido, despertar após início do sono, eficiência do sono e variabilidade do sono (desvios padrão para início e término do sono diários).

Os pesquisadores incluíram variáveis adicionais, como tempo médio na cama e tempo de despertar, quantidade de tempo na cama (independentemente do tempo adormecido) e frequência de intervalos de cochilos e sono. Os dados de actigrafia do sono foram registrados por um período de sete dias para cada participante.

Além dessa medida objetiva, os pesquisadores utilizaram instrumentos subjetivos de sono, incluindo o Insomnia Severity Index (ISI), que descreveram como “o instrumento de insônia padrão-ouro”. Eles também usaram as escalas Disturbing Dreams and Nightmare Severity Index (DDNSI) e a Visual Analog Scale Mood Variability (VAS-MV).

As covariáveis de depressão e problemas relacionados ao álcool e dependência foram avaliadas com o Beck Depression Inventory-II (BDI-II) e o Alcohol Use Disorders Identification Test (AUDIT), respectivamente.

Variabilidade do sono, alterações de humor

Os pacientes foram avaliados no basal, e com sete e 21 dias. Os pesquisadores usaram análises de regressão múltipla hierárquica para testar as hipóteses. Eles avaliaram o risco causal e ordenamento temporal ao analisar longitudinalmente relações entre os sintomas, com ajustes para sintomas basais em cada modelo.

Os pesquisadores descobriram que problemas relacionados ao álcool e sintomas depressivos “moderados a graves” eram “comuns” entre os participantes. Pontuações médias na BSS indicaram sintomas moderados de suicídio, com as pontuações máximas no intervalo grave para ideação suicida.

Houve uma elevada aderência no registro de diários de sono e no uso de actigrafia. Trabalho em regime de plantão, assim como períodos acordados prolongados, pareceram estar associados com maior variabilidade do sono, determinada com base na métrica média da actigrafia e suas interconexões.

Dos 50 pacientes, 96% (n = 48) apresentavam uma história de tentativas de suicídio e exibiam objetivamente parâmetros de sono alterados, medidos pela actigrafia.

Medidas subjetivas mostraram que 78% (n = 39) apresentavam insônia clinicamente significativa, e 36% (n = 18) relataram pesadelos clinicamente significativos. Os pesquisadores descobriram que a variabilidade no tempo de sono, insônia e pesadelos previram aumentos na ideação suicida (P < 0,05).

Mesmo quando controlando para sintomas basais de suicídio e depressão, os pesquisadores mostraram que os parâmetros subjetivos, e da actigrafia, previram alterações residuais nas pontuações de ideação suicida nos dois momentos de seguimento (P < 0,001).

Análises post hoc revelaram que a maior variabilidade no sono e menor variabilidade no tempo total de sono foram preditores significativos de mudanças nas medidas da BSS com sete dias (P ≤ 0,02). Intercorrelações significativas foram observadas para variabilidade do sono com sete dias nas pontuações ISI (r = 0,35; P = 0,02) e DDNSI (r = 0,02; P = 0,04).

Em um teste de fatores de risco concorrentes, a variabilidade no sono foi mais preditiva de ideação suicida do que os sintomas depressivos na predição longitudinal de ideação suicida ao longo do tempo (P < 0,05).

A variabilidade no sono e a escala VAS-VM previram de forma significativa a mudança nos sintomas da BSS no seguimento de sete dias, com a variabilidade no sono e a VAS-VM correspondendo por “maior variância única na predição da mudança nos sintomas da BSS, comparado com a BDI-II”, relatam os pesquisadores.

“Insônia, pesadelos e variabilidade de sono estiveram altamente correlacionadas, e a variabilidade do humor serviu como um sinal de alerta adicional para sintomas de suicídio, ao lado dos distúrbios do sono”, disse Rebecca.

“Insônia e pesadelos produziram uma maior variabilidade no momento no qual somos capazes de pegar no sono nas noites subsequentes, o que fala um pouco sobre a forma como a insônia se desenvolve”, acrescentou.

Oportunidade para prevenção do suicídio

Comentando o estudo para o Medscape, Maria Wong, professora do Departamento de Psicologia, Idaho State University, em Pocatello, considerou esse “um estudo muito valioso, ligando a medida objetiva de parâmetros do sono a mudanças nos sintomas de suicídio”.

“Pesquisas prévias, incluindo a minha própria, mostraram que o autorrelato de problemas de sono prediziam a ideação e as tentativas de suicídio. Esse estudo mostrou que a variabilidade do sono objetivamente relatada previu os sintomas de suicídio de forma prospectiva”, disse Maria, que não esteve envolvida no estudo.

Uma fraqueza do estudo é que o tamanho da amostra foi pequeno e que, portanto, o estudo teve “baixo poder estatístico”, apontou ela. “Além disso, apenas a variabilidade do sono foi preditiva do desfecho”.

Mesmo assim, o estudo traz mensagens de rápida aplicação. “Os médicos deveriam avaliar os sintomas de insônia, variabilidade no tempo de sono, e outros parâmetros quando trabalharem com pacientes suicidas”, disse ela. “Eles deveriam discutir hábitos de sono com esses pacientes, e, se necessário, prescrever medicações para ajudá-los a dormirem melhor”.

Adicionalmente, “psiquiatras deveriam questionar pacientes com distúrbios do sono sobre possíveis pensamentos suicidas”.

Rebecca observou que “tratamentos testados para tentativas de suicídio são escassos em comparação com a necessidade, e permanecem incompatíveis com a natureza aguda da crise suicida”.

Em comparação com outros fatores de risco para suicídio, “o transtorno de sono é modificável, não estigmatizante, e altamente tratável com intervenções breves e de ação rápida”, apontou ela.

“Dessa forma, acreditamos que o estudo do sono possa representar uma oportunidade importante para intervenção e prevenção do suicídio, que é prevenível, mas permanece um assassino silencioso e uma importante doença global, destacando a necessidade de novos tratamentos e estratégias de intervenção”.

Ela recomendou a American Academy of Sleep Medicine e a National Sleep Foundation como “recursos excelentes” para o auxílio de médicos que tratam pacientes com transtornos do sono.

A pesquisa foi financiada pela John Simon Guggenheim Foundation e pelos National Institutes of Health. O Departamento de Psiquiatria e Ciências Comportamentais, Stanford University, também apoiou o trabalho. Os autores declararam não possuir conflitos de interesses relevantes.

J Clin Psychiatry. Publicado on-line em 28 de junho de 2017. Resumo

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Depressão: uma epidemia progressiva e silenciosa entre estudantes de medicina

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Megan Brooks

Uma revisão sistemática e uma meta-análise de cerca de 200 estudos com a participação de 129.000 estudantes de medicina em 43 países mostraram que os índices de depressão entre esse grupo específico nos Estados Unidos e no mundo são altos.

Mais de um quarto dos estudantes de medicina sofre de depressão ou com sintomas da doença, e mais de um em cada 10 estudantes referem ter tido ideação suicida durante a faculdade, de acordo com a revisão. No entanto, apenas a minoria dos estudantes cujos resultados dos testes indicaram depressão procurou ajuda.

O estudo, foi publicado na edição de 6 de dezembro do JAMA, cujo tema é a educação médica.

Estudo seminal

Esta análise “provê o olhar mais abrangente já publicado sobre a prevalência da depressão e da ideação suicida, e também do tratamento psiquiátrico entre estudantes de medicina. Nosso estudo é uma espécie de resposta estrutural a esse respeito, por hora”, afirmou ao Medscape o Dr. Douglas A. Mata, médico e mestre em saúde pública do Brigham and Women’s Hospital e da Harvard Medical School, em Boston, Massachusetts.

O estudo mostra que o índice de “depressão e de ideação suicida é muito alto entre os estudantes de medicina, em comparação às pessoas da mesma faixa etária na população geral – que não são estudantes. Basicamente, o que temos é uma espécie de epidemia oculta em nossas mãos, que está escondida bem embaixo dos nossos narizes. Precisamos descobrir como vamos lidar com isso”, disse o Dr. Mata.

Com base nos dados provenientes de 167 estudos transversais e 16 estudos longitudinais de 43 países, a prevalência global agrupada estimada de depressão ou de sintomas depressivos foi de 27,2% e variou de 9,3% a 55,9%, segundo os pesquisadores. A prevalência de sintomas depressivos permaneceu relativamente constante durante o período do estudo (de 1982 a 2015).

Os nove estudos longitudinais que avaliaram os sintomas depressivos antes e durante a faculdade de medicina mostram aumento absoluto médio dos sintomas de 13,5%. As estimativas de prevalência não diferiram acentuadamente entre os estudos feitos somente com estudantes do ciclo básico e os estudos feitos apenas com acadêmicos e internos (23,7% vs. 22,4%).

Entre os estudantes de medicina cujos resultados dos testes foram positivos para depressão, apenas 15,7% procuraram tratamento psiquiátrico.

Com base nos dados de 24 estudos transversais de 15 países, a estimativa da prevalência global combinada de ideação suicida foi de 11,1% e variou de 7,4% a 24,2%.

“Muitos trabalhos sobre o assunto reagem à depressão, em vez de promover a proatividade. Quando o aluno fica deprimido, eles o vinculam aos recursos terapêuticos, mas acho necessário fomentar intervenções de bem-estar mais proativas entre esses estudantes, de modo a tentarmos evitar que as pessoas fiquem deprimidas, antes de mais nada”, disse o Dr. Mata.

Dr. Mata acredita que o sistema de formação acadêmica dos estudantes de medicina como um todo “precisa mudar. Isto pode significar a redução das horas de trabalho e da pressão sobre os estudantes, o que realmente lhes permitiria ter melhor desempenho. Isso já foi demonstrado em alguns estudos anteriores.”

“As pessoas se concentraram em ensinar sobre bem-estar e cuidados pessoais, mas ignoraram as questões relativas ao ambiente existente nas faculdades de medicina e nos hospitais, que são justamente os que provocam esses problemas, como, por exemplo, a privação crônica do sono”, acrescentou.

Esgotamento, depressão, suicídio

No editorial que acompanha o estudo, o Dr. Stuart Slavin, médico, MEd, do Office of Curricular Affairs na Saint Louis University School of Medicine, em Missouri, observa que a análise mostra que a saúde mental dos estudantes de medicina é um “problema global de proporção significativa”.

Ele acrescenta que vários aspectos da cultura da medicina e da educação médica têm, provavelmente, contribuído para a “resposta atrasada e, até recentemente, muda ao problema de longa data que é o comprometimento da saúde mental dos estudantes de medicina”.

Um dos aspectos é a crença de que a medicina é uma profissão exigente e, portanto, a faculdade deve ser extremamente rigorosa. Este sentimento tem diminuído nas últimas décadas, mas não desapareceu totalmente, de acordo com Dr. Slavin.

Outro aspecto da cultura médica é que os problemas da saúde mental não foram levados tão a sério como os da saúde física, e em geral a adoção de métodos terapêuticos tem sido maior do que a prevenção.

Dr. Slavin acredita que os desfechos da saúde mental dos estudantes “devem ser vistos como resultados críticos do programa, tão importantes como as notas e as classificações para as residências”.

Embora algumas faculdades estejam nomeando decanos ou diretores de “bem-estar”, a responsabilidade pelo bem-estar do aluno não deve ser limitada a um setor e a um administrador; “O bem-estar dos alunos deve ser motivo de preocupação para todos”, escreveu Dr. Slavin.

“As faculdades de medicina precisam se prontificar a enfrentar a crise da saúde mental dos estudantes de medicina”, concluiu.

Contatado para comentar sobre o assunto, Dr. Darrell G. Kirch, médico, presidente e CEO da Association of American Medical Colleges, afirmou que “as faculdades de medicina do país e os hospitais universitários estão extremamente preocupados com o crescente problema de esgotamento, depressão e suicídio entre médicos e estudantes de medicina”.

“Como psiquiatra por formação, este é um tema que me toca, tanto pessoal quanto profissionalmente. As descobertas desse estudo confirmam que devemos continuar a fazer tudo o que pudermos para apoiar e ajudar os membros da nossa comunidade”, declarou Dr. Kirch ao Medscape.

Ele observou que a Association of American Medical Colleges e as faculdades de medicina e de hospitais universitários participantes estão trabalhando para “melhorar o ambiente de aprendizagem e estão ajudando estudantes e formandos a desenvolverem habilidades que fortaleçam a resiliência diante dos desafios de um sistema de saúde em transformação.

“Para combater esta crise crescente na nossa comunidade, os estudantes e os médicos devem ser treinados em todas as fases de sua formação a tratar o estresse e o esgotamento e a saber quando pedir ajuda”, disse o Dr. Kirch.

No início deste ano, a Association of American Medical Colleges organizou um fórum de liderança para convocar decanos de faculdades de medicina, CEO de hospitais universitários, e professores universitários, entre outros, para discutir estratégias para aumentar a resiliência e a promover o bem-estar, comentou.

“Também nos envolvemos com a National Academy of Medicine, em um esforço colaborativo para promover a resiliência e o bem-estar dos médicos ao longo de suas carreiras.

“Para apoiar ainda mais os estudantes de medicina, residentes e outros, por meio da formação médica acadêmica, a Association of American Medical Colleges criou uma plataforma on-line (aamc.org/wellbeing), que oferece uma coleção de artigos, livros, oportunidades de aprendizagem, um índice dos programas de bem-estar disponíveis nas faculdades de medicina e nos hospitais universitários e conteúdo relacionado”, acrescentou Dr. Kirch.

O estudo foi financiado pelo National Institutes of Health e pelo US Department of State. Os autores declaram não possuir conflitos de interesses relevantes ao tema.

JAMA. 2016;316:2195-2196, 2214-2236. Resumo, Editorial

Prevenção ao Suicídio – Precisamos falar sobre isso!

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Por: Ane Caroline Janiro

Muita gente evita falar sobre o tema, mas é preciso sim quebrar o tabu, discutir e refletir sobre o suicídio, problema ainda responsável por muitas mortes no mundo todo.

O primeiro passo é refletir acerca do preconceito em torno do assunto, que existe por conta de inúmeros fatores: falta de informação; a mídia que evita tratar sobre o tema e quando o faz, nem sempre aborda o assunto da forma correta, tornando episódios pontuais em matérias sensacionalistas; a escassez de campanhas que se proponham a discutir e refletir sobre o tema… Enfim, muito ainda precisa ser feito.

Um conceito que precisa ser esclarecido é que o suicídio não é resultado de um acontecimento ou uma causa isolada, como perder o emprego, ou como se divorciar, ou como um episódio de bullying. Nem mesmo a depressão é um fator que deve ser considerado como única causa de suicídio. A maioria das pessoas com depressão ou que passa por um destes acontecimentos difíceis, não se suicida. O suicídio é resultado de vários fatores juntos, acumulados e não resolvidos e é o último estágio que chega alguém que não consegue lidar sozinho com diversas influências e que não tem mais esperanças, que não vê saída para sua situação. Isso pode envolver um transtorno mental + um acontecimento problemático (ou vários) + falta de auxílio e suporte + uso de álcool e outras drogas + sentimento de desesperança que leva à ideação suicida… E para cada indivíduo, muitos outros fatores podem estar associados.

Outro ponto é que uma pessoa que apresenta ideação suicida, ou seja, que está pensando na possibilidade de cometer suicídio, não está querendo apenas chamar a atenção da forma como muitos pensam. Já ouvi mesmo algumas falas como: “se alguém realmente quer se matar, se mata, não fica avisando, isso é só para chamar a atenção.” Isso está muito errado! Alguém que avisa, ou mesmo dá sinais de que pretende cometer suicídio pede socorro, ela realmente pode se suicidar. São sinais para “chamar a atenção”, sim, mas no sentido de obter ajuda.

Nem sempre estes sinais são muito claros, pode ser que por medo, vergonha, por acreditar que não será acreditada, a pessoa tenha dificuldades em dizer para alguém: “estou pensando em me matar”. Por isso o diálogo é tão importante. É necessário conversar com a pessoa que está passando por dificuldades, depressão e outros fatores que já foram citados. Não ter receio de questionar a pessoa sobre o assunto, oferecer apoio (que muitas vezes é justamente o que ela necessita). É necessário também ter atenção aos sinais não verbais, pois como já dito, algumas pessoas não dirão claramente que pensam em cometer suicídio. Estes sinais podem ser mudanças de comportamento significativas, aumento do uso de álcool e outras drogas, pessimismo exagerado, demonstrações de desesperança, apatia intensa.

Ao menor sinal de um destes fatores, é necessário buscar ajuda (o que também, em muitos casos, pode ser extremamente difícil para a pessoa fazer sozinha). É necessário avisar aos familiares e outras pessoas próximas, buscar apoio médico (psiquiátrico) e psicológico. E mesmo conversar e incentivar a pessoa a buscar ajuda e a não desistir, pode fazer com que ela se sinta acolhida, apoiada e isso pode ajudar bastante no processo de recuperação.

Fique atento! Livre-se dos preconceitos sobre o tema, busque informação em fontes seguras e não sensacionalistas!

Quem pode ajudar?

Profissionais da saúde mental: Psicólogos, Psiquiatras, Psicanalistas…

Instituições especializadas em lidar com o Suicídio, oferecendo acolhimento e orientando sobre como buscar auxílio: uma delas é o CVV (Centro de Valorização da Vida) – Site: http://www.cvv.org.br/ ou Disque: 141

Dica: Cartilha “Falando abertamente sobre suicídio”, desenvolvida pelo CVV, traz informações sobre o tema e sobre como ajudar alguém com ideação suicida, disponível em: http://www.cvv.org.br/images/stories/saibamais/falando_abertamente_sobre_suicidio.pdf

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Sobre a autora:

Ane Caroline Janiro – Psicóloga clínica, idealizadora e editora deste blog.
CRP: 06/119556

 

Depressão – E quando a pessoa não aceita o tratamento?

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Por: Ane Caroline Janiro

Quando a pessoa depressiva não aceita o tratamento. O que fazer? Como a família pode ajudar e interferir?.

Após conhecer bem a depressão e saber que ela se trata de uma doença que ocorre por alterações químicas no cérebro, outros processos que ocorrem no interior das células nervosas e, possivelmente, influências genéticas, é preciso saber também que nem sempre a aceitação ao tratamento por parte do indivíduo será algo simples.

Esta aceitação ao tratamento envolve aspectos como:

  • A capacidade do indivíduo de se perceber doente, ou seja, saber que seu estado e as características que ele apresenta são sinais de que ele realmente necessita de ajuda especializada – é comum haver a negação da existência de uma doença, pode ser que o paciente responsabilize o seu estado atual a um acontecimento específico, a um relacionamento não-satisfatório ou outros eventos pontuais, como pode ser que ele se culpe e responsabilize a si mesmo;
  • Compreensão pelo paciente de que a depressão é realmente uma doença e o entendimento de como ela ocorre e quais os tratamentos adequados;
  • Confiança no trabalho dos profissionais (psiquiatra, psicólogo…) – muitas vezes existe o preconceito em relação a buscar auxílio de profissionais da saúde mental, por acreditar que não é comum obter este tipo de atendimento, que é algo destinado apenas a “loucos” – É necessário desfazer este conceito e orientar a pessoa de que buscar auxílio de um psiquiatra ou psicólogo é tão comum quanto buscar a qualquer outro atendimento médico;
  • Apoio de familiares e amigos – o indivíduo precisa sentir que tem a aprovação social para buscar tratamento. Ainda existe certo estigma em relação à depressão e aos pacientes que fazem acompanhamento psicológico e uso de medicamentos específicos.

E o que fazer então quando uma pessoa não aceita o tratamento?

É importante deixar claro que um tratamento bem-sucedido deve considerar a colaboração de todas as partes envolvidas: psicoterapeuta, psiquiatra, o próprio paciente e a família/amigos. Ou seja, apenas o tratamento medicamentoso, por exemplo, não é suficiente para um tratamento efetivo. Porém, realmente há casos em que a pessoa que apresenta sinais de depressão sequer aceita ajuda, não quer o tratamento ou mesmo ouvir um profissional. O que fazer nestes casos?

Não existe uma fórmula mágica para lidar com esta situação, muitas vezes este processo de “convencimento” do indivíduo pode ser longo e trabalhoso.

Embora haja algumas estratégias que podem ser adotada pelos familiares e amigos para auxiliar a pessoa a aceitar o tratamento, nem sempre essas medidas podem ser eficazes para todas as pessoas em situações semelhantes, pois cada pessoa apresenta conflitos muito particulares que merecem atenção individualizada.

Algumas dicas são:

  • Ao falar com o paciente, é necessário manter a paciência e a empatia e demonstrar acolhimento, além de deixar claro que ele é compreendido – é interessante mostrar que você entende que os problemas enfrentados por ele não são fáceis, demonstrar que, assim como ele, você enfrenta ou já enfrentou momentos difíceis – Ele precisa sentir que não está sozinho;
  • Evitar dramatizar demais a situação, provocando desgastes emocionais maiores ainda – Pesquise sobre a depressão e tente identificar os sintomas apresentados pelo paciente (como irritabilidade, insônia, alterações de apetite, apatia), mostrando a ele de forma clara que estas são características da doença. Tente conversar sobre como essa doença ocorre e por que é necessário o tratamento adequado;
  • Deixar claro ao paciente que você/família entende que ele apresenta uma doença e apoia o tratamento, que oferecerá o suporte necessário a ele;
  • Tentar fortalecer a autoestima do paciente, reconhecendo mesmo os menores progressos, suas características positivas e habilidades;
  • Entender que a capacidade de julgamento e entendimento do indivíduo sobre a sua própria situação pode estar alterada, por isso é preciso persistir, sem demonstrar raiva, irritação e sem perder a paciência, dizendo coisas como: “você nem está tentando”, “você não quer realmente ser ajudado”;
  • É interessante diminuir o excesso de estímulos, como televisão, rádio, computador… (não eliminar, apenas reduzir);
  • É preciso também respeitar o tempo da pessoa – Caso não haja uma situação de risco à integridade física dela ou das pessoas que com ela convivem, não force o tratamento de forma agressiva, impositiva. Apenas oriente, demonstre apoio, acolhimento, mostre-se disponível e deixe sempre claras as vantagens e a importância de buscar tratamento, mas respeite o tempo dela, às vezes é necessário que ela vivencie esta situação por um período antes de aceitar e estar aberta para aderir ao tratamento.

Situações de risco:

Há casos em que o indivíduo, que não aceita tratamento, oferece riscos à sua própria integridade física ou à das pessoas com quem convive. Um exemplo, são momentos de agressividade, e nesses casos é importante obter ajuda de outras pessoas e não lidar sozinho com o paciente.

Ao perceber que o paciente apresenta sinais de ideação suicida, é preciso avisar a todas as pessoas próximas, pois é necessário prestar atenção e zelar por sua integridade, deixando inclusive, o ambiente o mais seguro possível. Avisar a um especialista também é extremamente importante, pois ele poderá orientar às medidas que deverão ser adotadas e os locais em sua região/cidade que podem auxiliar a lidar com o paciente.

Considerar uma internação também pode se fazer necessário em alguns casos, pois pode se tratar de uma medida emergencial e uma forma de evitar que algo mais grave ocorra, especialmente quando há uma situação de risco para o paciente ou pessoas próximas. É preciso entender que nestes momentos, a internação não deve ser vista como castigo ou sofrimento, e sim como forma de cuidado, de zelo. Essa internação normalmente ocorre por um curto período, até que o paciente esteja adaptado ao tratamento. Após, é essencial prosseguir com o acompanhamento psicológico, psiquiátrico e, claro, o apoio da família/amigos.

Importante: busque auxílio e orientações próximas de profissionais da saúde mental, mesmo que o paciente ainda não tenha aceitado receber esta ajuda. E mantenha sempre a paciência, pois como já foi citado, este processo nem sempre é rápido e simples, pode envolver muitos episódios difíceis antes que a pessoa finalmente aceite o tratamento.

Referências: Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (ABRATA) – Dra Rosilda Antonio.



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Sobre a autora:

Ane Caroline Janiro – Psicóloga clínica
CRP: 06/119556