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#Após confirmar #transmissão da #zika por pernilongos, #Fiocruz coletará mosquitos em morros e áreas verticalizadas no Recife

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Ampliação dos estudos visa entender a capacidade vetorial dos mosquitos conhecidos popularmente como muriçocas, acompanhando como a mutação do vírus ocorre dentro do organismo dos insetos.

Diante da constatação de que o pernilongo comum, popularmente conhecido como muriçoca, pode transmitir o vírus da zika, os pesquisadores da Fiocruz Pernambuco responsáveis pelo trabalho pretendem ampliar os estudos e entender a capacidade vetorial dos mosquitos, ou seja, acompanhar como a mutação do vírus ocorre dentro do organismo dos insetos.

A pesquisa em campo, feita inicialmente em áreas de circulação de pessoas com a doença, também será ampliada para detectar a incidência de pernilongos transmissores de zika em cada uma dessas regiões.

“Fizemos a pesquisa inicialmente nas residências das pessoas que tiveram zika e em áreas de grande circulação de pessoas, como as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Agora pensamos em ampliar os estudos de campo, coletando os mosquitos em regiões de morro, de planície e em áreas verticalizadas no Recife”, relata Constância Ayres, coordenadora da pesquisa.

Descrito em um artigo, o estudo, inédito no mundo e feito por uma equipe integralmente brasileira, foi publicado nesta quarta-feira (9) na revista científica Emerging microbes & infections, do grupo Nature.

“O que a gente não sabe ainda é a importância epidemiológica disso na natureza. Comparado ao Aedes aegypti, o pernilongo é um vetor primário ou secundário do vírus? Precisamos analisar outros aspectos da biologia do mosquito que vão nos responder essa questão”, explica Constância.

Coordenadora da pesquisa, Constância Ayres acredita que o resultado é um alerta para a necessidade de investimentos em saneamento básico.

Entre os meses de fevereiro e maio de 2016, os pesquisadores coletaram mosquitos dos tipos Culex e Aedes aegypti em áreas da Região Metropolitana do Recife (RMR) em que houve circulação de pessoas com zika, como residências e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Após análises laboratoriais, os estudiosos detectaram que o vírus da zika conseguia se replicar nos organismos dos pernilongos de três de 270 grupos do Culex. No caso dos mosquitos da espécie Aedes aegypti, o vírus estava presente em dois de 117 grupos coletados.

Coordenador da equipe de sequenciamento do genoma dos vírus encontrados nos pernilongos, o pesquisador Gabriel Wallau detalha que o material genético encontrado nos mosquitos Culex que circulavam no ‘campo’ é semelhante ao RNA encontrado nos mosquitos infectados em laboratório. “A partir desse sequenciamento, já podemos ter algumas ideias, mas precisamos ter mais dados para saber se o vírus se adaptou ao Culex”, relata.

Apesar de ressaltar que não são todos os pernilongos que podem transmitir o vírus da zika, Constância Ayres alerta para a necessidade de continuar os estudos para, por exemplo, desenvolver vacinas. “O zika veio para mostrar que a gente não sabe de muita coisa. Essa é uma oportunidade de investigar essa doença a fundo”, conta.

Ainda segundo Constância, o resultado da pesquisa também alerta, sobretudo, para a necessidade de investimentos em saneamento básico, já que os pernilongos, ao contrário do Aedes, preferem locais sujos, como esgotos áreas em que há acúmulo de lixo. “Se há condições propícias para o desenvolvimento do mosquito, o impacto [da transmissão da doença] vai ser maior. Evitaríamos tudo isso se tivéssemos saneamento básico adequado”, comenta a pesquisadora.

Com a comprovação de que as muriçocas são capazes de transmitir o vírus da zika, a pesquisadora acredita que a pesquisa pode ajudar a entender o motivo pelo qual os casos de microcefalia no estado foram registrados, em sua maioria, em áreas carentes. “A dengue é uma doença mais ‘democrática’, mas a incidência de microcefalia foi mais comum em áreas mais pobres. Esse resultado pode nos ajudar a entender os motivos disso”, comenta.

O resultado do estudo inspira uma segunda pesquisa da Fiocruz Pernambuco, que está sendo feita em parceria com pesquisadores de Vitória, no Espírito Santo. “Também foram coletadas algumas amostras de Culex que continham o vírus da zika lá, o que pode nos alertar para entender como a doença é transmitida no território nacional”, explica Constância.

Fonte: http://g1.globo.com/pernambuco/noticia/virus-da-zika-pode-ser-transmitido-por-pernilongo-comum-revela-pesquisa-da-fiocruz-pe.ghtml

Brasil pede a OMS vacinas para conter surto de febre amarela silvestre

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Ruth Helena Bellinghini

 

O Ministério da Saúde confirmou na noite desta sexta-feira (17) a aquisição de 3,5 milhões de doses de vacinas de febre amarela através do Grupo de Coordenação Internacional (GCI), formado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), Federação Internacional da Cruz Vermelha e Sociedades do Crescente Vermelho (IFRC), Médicos Sem Fronteiras (MSF) e Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), com secretariado da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS). Pela manhã, a OMS havia informado ao Medscape o pedido de acesso aos seis milhões de vacinas contra febre amarela que a instituição mantém para atender situações de emergência. O governo também anunciou a compra de outras 8,46 milhões de doses do laboratório Bio-Manguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

O governo federal tem afirmado reiteradas vezes dispor de vacinas suficientes para atender as populações em áreas de risco, mas há filas nos postos de saúde e o número de doses disponíveis nos postos de saúde é limitado. Além das áreas de Minas Gerais e Espírito Santo, que vêm registrando aumento de casos de febre amarela silvestre desde janeiro, o governo anunciou esta semana que pretende vacinar toda população do estado do Rio de Janeiro até o final do ano, depois da notícia da morte de um homem da cidade de Casimiro de Abreu e da confirmação de outro caso na mesma localidade.  Ambos os doentes contraíram febre amarela silvestre ao se embrenhar na mata a 12 km da cidade.

O Ministério da Saúde não revela qual o estoque disponível de vacinas no Brasil e os dados enviados por sua assessoria não são os mesmos anunciados por Bio-Manguinhos, que fabrica as vacinas contra febre amarela usadas no Brasil. “Atualmente, a quantidade de vacinas produzidas pela Fiocruz, por meio de Bio-Manguinhos, é de 4,5 milhões de doses por mês. Vale destacar que o laboratório tem capacidade de produzir nove milhões de doses mensais, quantitativo suficiente para a vacinação de rotina, atendimento à estratégia de contenção do surto da doença no país e ampliação do público-alvo a ser vacinado”, afirmou o ministério ao Medscape em um email enviado à reportagem na quinta-feira (16) . Na nota desta sexta confirmando o pedido à entidades internacionais, os números do Ministério mudaram novamente: nele, a produção aparece como sendo de seis milhões de doses mensais, que passarão a nove milhões.

No entanto, em entrevista à revista Pesquisa Fapesp[1], o vice-diretor de produção de Bio-Manguinhos Antônio de Padua Barbosa disse que a produção foi triplicada nos primeiros meses de 2017 e que passou de dois a três milhões mensais de doses para entre sete e nove milhões. Bio-Manguinhos é um importante produtor mundial da vacina de febre amarela, um imunizante que leva quatro meses para ser produzido e que não interessa às grandes farmacêuticas por seu baixo custo: US$ 1 a unidade.

A produção normal da Bio-Manguinhos (de 2 a 3 milhões de doses segundo Barbosa ou 4,5 milhões, segundo o Ministério da Saúde), se destina à vacinação regular e rotineira em 19 estados brasileiros (AC, AM, AP, PA, RO, RR, TO, DF, GO, MS, MT, BA, MA, PI, MG, SP, PR, RS e SC) com recomendação para imunização, sendo que em seus deles (BA, PI, SP, PR, RS e SC) a vacinação não ocorre em todos os municípios. A população do Rio, Espírito Santo e o sul da Bahia está sendo vacinada de forma escalonada. Ainda segundo o Ministério da Saúde, desde o início do ano, “16,15 milhões de doses extras foram enviadas para cinco estados: Minas Gerais (7,5 milhões), Espírito Santo (3,45 milhões), São Paulo (3,25 milhões), Rio de Janeiro (1,05 milhão) e Bahia (900 mil). O quantitativo é um adicional às doses de rotina do Calendário Nacional de Vacinação, enviadas mensalmente aos estados. ”

A despeito dos números oficiais, há relatos de dificuldades para se vacinar até para viajar para fora do país. A veterinária Juliana Assumpção tenta há dias se vacinar no posto do Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, porque tem viagem marcada com a família para os Estados Unidos com escala no Panamá. “Hoje, eu cheguei no posto às 6h30 para pegar senha, mas já tinha gente ali desde as cinco horas da manhã. São 100 senhas diárias e na fila tem de tudo, desde pessoas que vão viajar a pessoas que estão assustadas com o crescimento dos casos de febre amarela,” descreveu ao Medscape. O posto alternativo mais próximo é o de Vargem Grande, onde não se faz a vacinação.

O plano do governo é vacinar 13 milhões de pessoas no estado do Rio até dezembro, com prioridade aos municípios próximos a Casimiro de Abreu e aos que fazem fronteira com Minas Gerais. Para especialistas, não estão claras nem as prioridades nem a estratégia do governo brasileiro para combater o atual surto da doença: entre dezembro do ano passado e fevereiro deste ano, o País registrou 326 casos confirmados e 109 mortes por febre amarela, sendo 92 em Minas, 14 no Espírito Santo e três em São Paulo. Além destes, 916 casos e 105 mortes suspeitas estão sendo investigados. Cerca de 80% dos casos estão concentrados em Minas.

São crônicas de mortes anunciadas. Dr. Mauricio Lacerda Nogueira, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia

“São crônicas de mortes anunciadas. Estamos em março vendo gente morrer de febre amarela, sendo que há 15 anos estamos vendo a expansão da doença por novas áreas do país e há oito anos o governo federal incluiu a margem direita do rio São Francisco como área de vacinação obrigatória. Alguém cometeu um erro. As crianças foram vacinadas, mas a população adulta não recebeu a cobertura adequada, tanto que vemos adultos acometidos pela doença, mas raramente vemos crianças”, afirmou ao Medscape o Dr. Mauricio Lacerda Nogueira, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, especialista em febre amarela e professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto. O Dr. Nogueira foi o responsável pelo programa de vacinação que garantiu a imunização de 95% da população do município. “Tivemos duas mortes na cidade, ambas de pessoas que migraram para cá depois de adultas e não foram vacinadas,” contou.

De acordo com ele, o Brasil precisa vacinar sua população o quanto antes. “É incrível, mas sequer sabemos quantas vacinas temos em estoque no País, porque aparentemente o governo classifica essa informação como ‘questão de segurança nacional’. Por mim, vacinava-se todo mundo, porque, em saúde pública, é sempre melhor pecar pelo excesso. Mas precisamos saber quantas vacinas temos, porque, se não são suficientes para todos, deveríamos estabelecer prioridades. No caso da febre amarela silvestre, as prioridades são determinadas pelo risco – ou seja áreas onde temos mortes de macacos por febre amarela – e pelo bioma, e não apenas pela densidade populacional”, explica. Segundo o médico, outro motivo de preocupação é que as sociedades científicas não estão sendo ouvidas pelo governo na elaboração de uma estratégia para conter o surto e prevenção da doença.

Os especialistas vêm acompanhando a expansão da febre amarela silvestre há anos. Há cerca de 15 anos, o vírus deixou as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste para avançar até a margem esquerda do São Francisco (região que inclui Alagoas, Pernambuco e oeste da Bahia e Minas), Brasília e noroeste do Estado de São Paulo. O monitoramento é sempre feito pelo acompanhamento dos casos de epizootias, ou seja, a morte de macacos infectados, que funcionam como sentinelas para a chegada do vírus numa nova região. Em 2008, o vírus chegou ao Rio Grande do Sul e o governo recomendou a vacinação das populações da margem direita do São Francisco (leste e sul da Bahia e leste de Minas Gerais). “Quando se observa a expansão do surto atual, percebe-se claramente que por essa região que se espalhou, sinal de que houve falha na vacinação não apenas agora, mas oito anos atrás”, observou.

Oito anos é um “número mágico” quando se fala em febre amarela, porque ele corresponde ao ciclo em que populações de macacos se infectam são quase dizimadas e se recompõem. A coincidência entre a tragédia ambiental de Mariana (MG) e a explosão dos casos de febre amarela fez muita gente associar os dois episódios, mas o Dr. Nogueira alerta para o fato de o mosquito transmissor da doença silvestre ter como habitat troncos ocos de árvores e nesse sentido, a população deveria ter diminuído. “O que acontece é outra coisa. Quando se acompanha a expansão da doença na região de São José do Rio Preto, você percebe claramente que ela coincide com o reflorestamento das margens dos rios, que se transformam em corredores entre fragmentos de florestas por onde os macacos viajam. Ou seja, esses projetos deveriam ser sempre acompanhados de uma estratégia de imunização das populações ribeirinhas e das cidades próximas”, defendeu.

A cidade do Rio de Janeiro é a grande preocupação dos pesquisadores, principalmente porque ali está a Tijuca, maior floresta urbana do planeta e habitat de macacos. “Temos laudos conflitantes sobre a causa da morte de dois macacos, mas veja, um foi encontrado no Jardim Botânico e outro em Copacabana,” alertou o epidemiologista Dr. André Ricardo Ribas Freitas, da Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses. De acordo com ele, a confirmação dos casos em seres humanos é simples e pode se valer de três técnicas: reação em cadeia de polimerase (PCR), IgM ou teste imunohistoquímico. “As mesmas técnicas são usadas para detectar a doença nos macacos. O problema é que nos casos de epizootias a qualidade do material de coleta é comprometida porque os corpos muitas vezes já estão em decomposição quando são encontrados,” explicou ao Medscape.

O Dr. Freitas apontou alguns problemas nas ações governamentais para conter a expansão da febre amarela. De acordo com ele, já bastante tempo a OMS recomenda a vacinação no sul da Bahia, nas áreas de Itacaré, Ilhéus, Itabuna, Porto Seguro, Trancoso e Arraial da Ajuda, todas muito frequentadas por turistas. “São áreas com epizootias, próximas a Minas, onde a vacinação já deveria ser obrigatória, mas só começou agora”, observa. Outro local que preocupa o pesquisador é Alagoinhas, também na Bahia, onde foi encontrado um macaco morto por febre amarela. “A cidade é próxima de Feira de Santana e de Salvador, o que já seria um bom motivo para vacinar a população da área.”

De acordo com ele, o brasileiro se preocupa muito em se vacinar quando viaja para fora do país, mas nem se lembra de fazer o mesmo quando vai a Brasília, passa o Carnaval nas praias da Bahia ou resolve pôr a mochila nas costas e fazer trilha em Minas Gerais. “Isso é uma das coisas que precisam mudar,” alerta.

Ambos os especialistas destacam a necessidade de se rediscutir as estratégias de prevenção à febre amarela no Brasil. O Dr. Freitas lembra que a cidade de São Roque, no interior paulista, recebeu vacinas do governo estadual quando se detectou a morte de um macaco por febre amarela em fevereiro. “Seria importante que cidades próximas de São Roque, como Votorantim e Sorocaba, que têm regiões de mata, também recebessem melhor cobertura vacinal e que, futuramente, pensássemos melhor em regiões como o litoral paulista, próximo à Serra do Mar, as cidades próximas à Serra da Mantiqueira,” recomendou. De acordo com ele, ao contrário do Rio, a capital paulista não reúne condições ambientais favoráveis à disseminação da doença. “O Rio é outra história, ” diz o Dr. Nogueira. “Os cariocas já passaram pelas pancadas da Olimpíada, do Cabral, da Petrobrás. Acho que não aguentariam um pancada como um surto de febre amarela silvestre.”

Estamos brincando de combater o Aedes aegypti’, diz infectologista da Fiocruz

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Por Guilherme Cavalcante e Kemila Pellin

No Brasil, todas as atenções estão voltadas para o mosquito Aedes aegypti. Ao mosquito, é atribuído o contágio de uma tríplice epidemia dos vírus que causam dengue, febre chikungunya e, mais recentemente, o zika vírus. Este, a propósito, tem causado temores, sobretudo a mulheres gestantes, por estar relacionado a caso de microcefalia em fetos – uma má-formação congênita que reduz o tamanho do crânio do bebê e que pode trazer sequelas motoras e de linguagem. A situação, no entanto, tem sido agravada em função de mal-entendidos e de informações falsas sobre prevenção e consequências da doença. Para dirimir estas dúvidas e acalmar os ânimos (ou não), o jornal Midiamax procurou o médico infectologita e diretor da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) em MS, Dr. Rivaldo Venâncio Cunha, para dissipar a nuvem de desinformação sobre a doença. Na entrevita, Rivaldo também comentou sobre o sistema de combate ao mosquito e foi tácito ao afirmar: “estamos brincando de combater o Aedes aegypti”. Confira.

A mídia tem tratado esta nova epidemia como uma ‘tríplice epidemia’, que envolve a dengue, o zika vírus e a febre chikugunya. O que isso significa para a população?

Este termo é referente a três epidemias que estão ocorrendo ao mesmo tempo e que são todas causadas pelo menos agente. Elas não se tornam mais ou menos perigosa por isso. É uma casualidade que estamos vivendo, uma triste coincidência, que é ter os três tipos de vírus transmitidos pelo mesmo mosquito, circulando ao mesmo tempo no país. O que complica é que assim fica mais difícil o atendimento aos doentes, porque os sintomas podem ser confundidos, como no caso da dengue com o zika vírus. E em relação à chikungunya, aqueles casos mais brandos, mais leves, que também podem ser confundidos com a dengue. Mas, as medidas preventivas contra o vetor, que é o Aedes aegypti, são as mesmas.

Já existe consenso sobre como o zika vírus chegou ao Brasil?

Não tem como saber com certeza, mas uma das hipóteses é que a doença tenha chegado ao país durante a Copa do Mundo, ano passado.

Estamos ouvindo muitos boatos em relação ao zika vírus e à microcefalia, por exemplo, de que crianças de sete anos, se contrairem zika, podem ter microcefalia. O que é mito e o que é real em relação a esta combinação?

Neste caso que você citou, não existe nenhum relato científico aqui no Brasil de pessoas dessa idade que tenham desenvolvido microcefalia. Isso é tão absurdo que para se desenvolver microcefalia o cérebro teria que murchar. As pessoas também deliram, acreditam em coisas sem fundamento. É uma lamentável que estas informações circulem, pois quem publica esse tipo de notícia ou corrente está fazendo um desserviço. E a população precisa ter um pouquinho de bom senso para discernir as coisas e procurar sempre fontes oficiais

Outra dúvida comum são mulheres grávidas que tiveram zika e que tem medo de amamentar o bebê. Isso tem fundamento?

Veja bem. Já ouve a identificação do material genético do vírus em pouquíssimos casos no leite materno. Mas não eram ‘partícula viável’, como nós chamamos tecnicamente, porque os pesquisadores tentaram replicar o vírus no laboratório e não conseguiram. Isso acontece muito na virologia.  Às vezes, você faz identificação de algum material genético, mas aquilo não é viável, não se reproduz e não contamina. O que nós sabemos cientificamente até agora é apenas que foram encontrados ‘restos’ do zika em dois ou três casos, ou seja, é algo muito raro. E ainda assim, elas não contaminavam. Ou seja, não há evidência para que se recomende suspender a amamentação.

O que se sabe de concreto sobre a relação da zika com a microcefalia?

Primeiro, o conhecimento histórico de que o vírus gosta do sistema nervoso central. Há publicações científicas que reproduzem resultados de experimentos em camundongos no final da década de 1940 e essas pesquisas mostraram que o vírus gostava do sistema nervoso central do camundongo. Então, tem essa evidência lá de trás. Aqui no Brasil, foi identificado em líquido amniótico de duas mulheres que estavam grávidas e que tinha o diagnóstico de  microcefalia por meio de ultrassonografia de seus fetos. Foi feita a punção, aspirado o líquido e constatado que ali tinha RNA, ou seja, material genético do vírus. E, posteriormente, algumas semanas depois, houve uma criança que nasceu com microcefalia no Ceará e que infelizmente foi a óbito. Na autópsia, viu-se que nos tecidos desta criança também estava presente o zika. Depois que o Brasil noticiou para o mundo essa manifestação clínica nova da doença, ou seja, alterações congênitas decorrentes do contato com o vírus, as autoridades sanitárias da Polinésia francesa foram rever seu banco de dados, porque tinha tido uma epidemia de zika no local e viram que lá também tinha tido aumento no número de microcefalia e que até então não tinha percebido.

 

Segundo Rivaldo, o tratamento da microcefalia precisa ser feito por equipe multidisciplinar (Divulgação)
Segundo Rivaldo, o tratamento da microcefalia precisa ser feito por equipe multidisciplinar .

 

Já se sabe até quanto tempo de gestação o feto está vulnerável à má formação?

É provável que haja um momento em que as sequelas diminuem, mas, ainda não se sabe até que momento pode ser. Nós trabalhamos seguindo analogia ao vírus da rubéola, que normalmente, quando a infecção do feto ocorre no primeiro bimestre, há mal-formações graves. Quando acontece no primeiro trimestre, são alterações brandas, leves. Então, estamos trabalhando com essa perspectiva. De qualquer forma, é necessário que se observe atentamente todas essas situações: todas essas grávidas que foram expostas ao vírus zika, e que acompanhemos as crianças que vão nascer para observar a intensidade das alterações.

Já existe algum indício de que uma mulher ou menina, sem estar gestante e que contrai a doença, vai poder engravidar?

Em tese, o vírus não ficaria no corpo da pessoa, mas não há certeza disso ainda. Isso porque o vírus é de uma família de vírus, de um gênero, que tem dengue, zika, febre amarela, Febre do Nilo Ocidental e hepatite C. Nele, tem vírus que não ficam no organismo humano, como a dengue, e tem que permanece por longo tempo, como no caso da hepatite. E a gente não sabe ao certo se ele vai tender mais para o lado do dengue ou da hepatite. Acreditamos que seja mais para o dengue, pelo fato dos dois serem transmitidos pelo mesmo mosquito, mas ainda não há comprovação.

Além da prevenção ao mosquito, quais as recomendações durante o tratamento?

Nós, profissionais da saúde, temos primeiro que acolher as famílias. Não é só a criança, mas toda a família. Isso porque toda má formação é algo que mobiliza a família inteira. Então temos que estar preparados cada vez mais para promover os cuidados, o acompanhamento, o carinho e a solidariedade que esta família necessita. Há todo um protocolo do Ministério da Saúde, que está sendo publicado, que fala quais os exames que tem que ser feitos para dimensionar a má-formação etc. Mas vamos precisar que uma equipe multiprofissional muito ajustada entre as diversas categorias da saúde esteja envolvida. Vai precisar do médico e também da enfermeira. Vai precisar do fisioterapeuta e do fonoaudiólogo. E da mesma forma, não poderemos prescindir, por exemplo, da presença do psicólogo, para dar suporte à família. Vamos ter que exercer um princípio que é do SUS (Sistema Único de Saúde), que é a integração destes profissionais, e ver que ali não é apenas uma criança com microcefalia, mas um ser humano cuja família também precisará de suporte.

Como podemos destacar o papel do poder público no combate ao mosquito, já que essa epidemia não é uma coisa nova? Onde está o erro?

O erro está no modelo de desenvolvimento econômico que o brasil adotou a 500 anos. Não é um erro do gestor atual, mas deste processo de desenvolvimento econômico, que privilegia o crescimento urbano acelerado e desorganizado sem o devido suporte dos instrumentos necessários para a tender a população, como, por exemplo, coleta regular de resíduos sólidos, fornecimento de água de modo regular para consumo doméstico e a própria distribuição geográfica de vários espaços.

O senhor pode citar um exemplo?

Um exemplo é que algumas favelas brasileiras, que estão ali há décadas, não receberam absolutamente qualquer projeto de urbanização. Não tem como o poder público, depois de tantos anos de apartheid social que foi feito nessas favelas, manter um controle de vetor. Se você abrir o Google e procurar uma fotografia de Paraisópolis, em São Paulo, ou da Rocinha, no Rio de Janeiro, você vai ter a clara noção de que é impossível ter um controle de vetor numa comunidade dessas. Por outro lado, nós temos que ter consciência de que estamos diante de um evento de extrema gravidade do ponto de vista de saúde pública, que poderá marcar uma geração de brasileiros, da mesma forma como marcou a poliomielite. E talvez não seja exagero dizer, mas também como marcou o HIV, só que em crianças.

No combate ao Aedes aegypti, a educação da população também é um fator a ser explorado?

Sim, mas não a educação de ensino regular. Veja só, se você andar pela rua, vai cansar de ver gente jogando latinha fora do lixo. Enquanto persistir isso, não tem solução. A gente tem que se conscientizar. O brasileiro tem isso de se apegar a ilusões, só que a realidade nos confronta. Sabe o jogo do Brasil com a seleção alemã, o 7 a 1? Então. Nós estamos brincando de controlar o Aedes aegypti nesses trinta anos que tem dengue no Brasil. Tem todo esse tempo e nós estamos perdendo de 7 a 1 na luta contra esse mosquito. Nós estamos usando uma estratégia que não está dando certo. É claro que uma coisa ou outra, prefeito A ou prefeito B, uma greve na coleta do lixo, enfim, podem contribuir para a situação. Mas, para além disso temos que refletir o que está no cerne da questão, se é que queremos resolver o problema.