Bahareh Keith

Uso de mídias sociais pelos pais pode trazer danos às crianças, alertam pesquisadores

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San Francisco — Os pais podem causar danos à reputação dos filhos ao compartilharem muito sobre eles nas mídias sociais, dizem pesquisadores.

A professora de pediatria Bahareh Keith, e a professora de direito Stacey Steinberg, ambas da University of Florida, em Gainesville, se uniram na busca por diretrizes para o uso de mídias sociais por cuidadores.

“Queremos mudar o discurso social de forma a equilibrar o direito dos pais de compartilharem com o direito dos filhos à privacidade”, disse Stacey ao Medscape.

Dra. Bahareh e Stacey apresentaram seu trabalho na Conferência e Mostra Nacional de 2016 da American Academy of Pediatrics (AAP).

Os pais podem se beneficiar do suporte emocional e de conselhos práticos obtidos ao discutir experiências com outros pais em fóruns on-line, concordam as professoras. “A mídia social pode ser uma ferramenta maravilhosa”, disse Stacey.

Mas os pais frequentemente postam informações privadas sem considerar que isso resulta em um registro indelével, por vezes público. “A informação que os pais colocam no universo digital pode alcançar o passado e o futuro distantes da criança”, acrescentou Stacey.

Por exemplo, um comentário sobre a dificuldade dos pais no treinamento de toalete da criança pode aparecer em uma busca na internet quando ela estiver enfrentando bullying cibernético no ensino médio ou mesmo se candidatando a um emprego.

Fotografias podem ser copiadas e compartilhadas de forma repetida, chegando a uma audiência muito maior que o intencionado pelos pais.

Um estudo na Austrália mostrou que metade das fotografias em sites de pedofilia foram pirateadas de mídias sociais. “Essa informação me deu calafrios”, disse a Dra. Bahareh ao Medscape. “Isso quantifica um risco muito maior que eu imaginava. Não eram fotos de nudez parcial, eram apenas fotos de pessoas fazendo coisas normais. Isso é extremamente perturbador”.

Alguns países europeus reconheceram o direito legal a privacidade que permite que um indivíduo force as companhias de internet a deletar informações ou links para websites. Mas os Estados Unidos ainda não estabeleceram essa questão legal, disse Stacey, que é ex-promotora.

Os direitos da criança à privacidade estão consagrados na Convenção de Direitos da Criança das Nações Unidas. Mas o senado dos Estados Unidos nunca ratificou esse tratado.

O governo dos Estados Unidos coloca a liberdade de expressão à frente da privacidade, disse ela. A lei dá aos guardiões o papel de zelar pelas decisões sobre a privacidade da criança, mas nesse caso os pais têm um conflito de interesse.

E os problemas podem ir além do constrangimento, alertou a Dr. Bahareh. Sequestradores ou ladrões de identidade também podem fazer uso dessas informações postadas sobre as crianças. Algumas vezes a informação sobre o momento e o local de uma fotografia está nos metadados anexados à imagem.

“É onde entra o modelo da saúde pública”, disse Dra. Bahareh. “É extremamente efetivo”. Os pediatras podem oferecer guias para os pais, antecipando informações sobre o uso de mídias sociais, assim como oferecem instruções sobre o uso de assentos no carro ou síndrome da morte súbita do lactente”, acrescentou.

As duas pesquisadoras recomendam as seguintes precauções para os pais:

  • Conheça as políticas de privacidade de suas mídias sociais.
  • Ajuste notificações de alerta para quando o nome de seu filho estiver on-line e disponível por uma busca no Google.
  • Se decidir compartilhar informações sobre questões comportamentais de seu filho considere fazê-lo de forma anônima.
  • Tenha cuidado ao compartilhar a localização de seu filho.
  • Considere dar a crianças mais velhas “poder de veto” sobre publicações on-line.
  • Considere os riscos antes de postar imagens de crianças com qualquer forma de nudez.
  • Considere o efeito que um compartilhamento pode ter no bem-estar futuro de seu filho.

É difícil determinar o quanto de dano já foi causado, pois existe muito pouca pesquisa sobre essa questão, ressaltou a Dra. Bahareh.

“Isso é novo”, concordou o Dr. Dimitri Christakis, professor de pediatria e diretor do Center for Child Health, Behavior and Development,em Seattle, Washington. “É importante. É algo para se pensar a respeito.

Quando os filhos dele se tornaram adolescentes, eles o repreenderam por postar fotos deles no Facebook sem permissão, contou o Dr. Christakis.

Os pediatras tipicamente aconselham os adolescentes a terem cuidado com o que postam, pois isso leva a uma impressão digital, disse ele ao Medscape.

“Mas nós não aconselhamos os pais. A maioria dos pais provavelmente tem menos noção que os nossos pacientes”, disse ele.

Stacey Steinberg, Dra. Bahareh, e o Dr. Christakis declararam não possuir conflitos de interesses relevantes.

Conferência Nacional de 2016 da American Academy of Pediatrics (AAP): Resumo 319978. Apresentado em 22 de outubro de 2016.