#Oximetria de pulso contínua está sendo usada excessivamente em #crianças com #bronquiolite

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Em uma amostra de conveniência de crianças hospitalizadas com bronquiolite que não estava recebendo oxigênio suplementar, o monitoramento com oximetria de pulso contínua foi frequente e variou amplamente entre os hospitais, sendo que essa prática pode representar uso excessivo. Essas são as conclusões do recente estudo Prevalence of Continuous Pulse Oximetry Monitoring in Hospitalized Children With Bronchiolitis Not Requiring Supplemental Oxygen, publicado na JAMA.

Os pesquisadores Bonafide e colaboradores, com o objetivo de medir o uso contínuo de oximetria de pulso em crianças com bronquiolite, conduziram um estudo transversal multicêntrico em enfermarias pediátricas em 56 hospitais norte-americanos e canadenses através da Pediatric Research in Inpatient Settings Network, no período de 1° de dezembro de 2018 a 31 de março de 2019.

 

Oximetria de pulso contínua em crianças com bronquiolite

Os participantes da pesquisa englobavam uma amostra de conveniência de pacientes com idades entre 8 semanas e 23 meses com diagnóstico de bronquiolite e que não estavam recebendo administração de oxigênio suplementar ativa. Pacientes com prematuridade extrema, cardiopatia congênita cianótica, hipertensão pulmonar, suporte respiratório domiciliar, doença neuromuscular, imunodeficiência ou câncer foram excluídos.

Para o desfecho primário, a oximetria de pulso contínua foi medida através de observação direta. As porcentagens de uso contínuo de oximetria de pulso foram padronizadas para o risco usando as seguintes variáveis: período noturno (23h às 07h), idade combinada com parto prematuro, tempo após o desmame do oxigênio ou fluxo suplementar, apneia ou cianose durante a doença atual, comprometimento neurológico e presença de sonda enteral.

 

A amostra incluiu 3612 observações de pacientes em 33 hospitais infantis independentes, 14 hospitais infantis dentro de hospitais e 9 hospitais comunitários. Os resultados encontrados foram:

  • 59% das crianças eram do sexo masculino;
  • 56% das crianças eram brancas, 21% eram hispânicas ou latinas e 15% eram negras;
  • 48% das crianças tinham entre 8 semanas e 5 meses, 28% entre 6 e 11 meses, 16% entre 12 e 17 meses e 9% entre 18 e 23 meses;
  • Aproximadamente dois terços das crianças haviam recebido oxigênio ou fluxo suplementar mais precocemente na hospitalização;
  • Entre os pacientes que não estavam recebendo oxigênio suplementar ou cânula nasal de fluxo, a porcentagem geral de uso de oximetria de pulso contínua foi de 46% [Intervalo de confiança de 95% (IC 95%), 40-53], após contabilizar agrupamentos em nível hospitalar;
  • Entre os 49 hospitais que coletaram 20 observações ou mais, o uso contínuo não-ajustado de oximetria de pulso em nível hospitalar variou de 2 a 92%. O de cânula nasal de fluxo foi de 46% (IC 95%, 40-53%);
  • O uso de oximetria de pulso contínua não ajustada em nível hospitalar variou de 2 a 92%. Após a padronização do risco, o uso variou de 6 a 82%;
  • O coeficiente de correlação intraclasse sugeriu que 27% (IC 95%, 19-36%) da variação observada era atribuível a fatores não medidos em nível hospitalar;
  • Em uma análise ajustada, os pesquisadores notaram que o monitoramento contínuo da oximetria de pulso era mais provável em crianças de 8 semanas a 5 meses que nasceram prematuras em comparação com aquelas de 18 a 23 meses que não nasceram prematuras [odds ratio (OR) = 2,58; IC95%, 1,65-4,02] e aqueles que não receberam oxigênio suplementar nas últimas 2 a 4 horas em comparação com aqueles que nunca receberam oxigênio ou fluxo suplementar (OR = 5,55; IC 95%, 3,91-7,89);
  • Histórico de apneia ou cianose durante a doença atual (OR = 1,4; IC95%, 1,01-1,93), presença de sonda enteral (OR = 1,98; IC95%, 1,46-2,67) e período noturno (OR = 2,07 ; IC95%, 1,76-2,43) também pareceram ser fatores associados ao uso do monitoramento contínuo da oximetria de pulso.

Os pesquisadores descrevem que o estudo apresenta diversas limitações.

  1. A abordagem por amostragem de conveniência resultou em uma amostra não representativa de toda a população de pacientes estáveis com bronquiolite. Essa abordagem pragmática foi necessária para incluir um conjunto diversificado de hospitais, muitos dos quais com recursos limitados para a coleta de dados;
  2. Os hospitais infantis independentes estavam super-representados na amostra.
  3. As relações de outros fatores de nível hospitalar, como vias clínicas, características do ambiente de trabalho da enfermagem associado à segurança do paciente e outros fatores de gravidade (por exemplo, trabalho respiratório, frequência respiratória, outras comorbidades) não foram analisados neste estudo, mas podem contribuir para o uso contínuo do monitoramento da saturação periférica de oxigênio;
  4. Como os observadores visitavam cada leito apenas uma vez durante as rodadas de coleta de dados, é possível que alguns pacientes tenham sido classificados como monitorados continuamente nos momentos em que estavam realmente fazendo medições intermitentes dos sinais vitais;
  5. Não havia dados disponíveis para determinar se ações foram tomadas para alterar as práticas de monitoramento durante o período do estudo em resposta à ocorrência das rodadas observacionais de coleta de dados;
  6. A análise estatística representou agrupamentos no nível hospitalar, mas não poderia considerar o agrupamento de pacientes, enfermeiros ou médicos devido às limitações dos dados coletados.

 

Conclusões

Bonafide e equipe concluíram que, em uma amostra de conveniência de crianças internadas com bronquiolite que não receberam administração ativa de oxigênio suplementar, o monitoramento contínuo da saturação de oxigênio com oximetria de pulso foi frequente e variou amplamente entre os hospitais.

Devido à aparente ausência de uma diretriz ou evidência de indicação para monitoramento contínuo nessa população, o uso contínuo de oximetria de pulso em pacientes com bronquiolite que não recebem oxigênio suplementar ou fluxo de cânula nasal pode estar sendo excessivo.

As diretrizes nacionais americanas, no entanto, desencorajam o uso do monitoramento contínuo da oximetria de pulso em crianças hospitalizadas com bronquiolite que não necessitam de oxigênio suplementar.

Autora:

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença. Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes. Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil pela Universidade Federal Fluminense (Linha de Pesquisa: Saúde da Criança e do Adolescente). Doutora em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pós-graduanda em neurointensivismo pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ. Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro. Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox. Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB. Membro do comitê de filiação da American Delirium Society (ADS). Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG). Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS).

Referências bibliográficas:

  • Bonafide CP, Xiao R, Brady PW, et al. Prevalence of Continuous Pulse Oximetry Monitoring in Hospitalized Children With Bronchiolitis Not Requiring Supplemental Oxygen. JAMA. 2020;323(15):1467–1477. doi:10.1001/jama.2020.2998

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