#Depressão no início da vida aumenta risco de #Alzheimer

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Pauline Anderson

LONDRES – Depressão que se inicia precocemente na vida aumenta o risco para doença de Alzheimer (DA), de acordo com novos resultados de um grande estudo longitudinal, que é o primeiro a relatar esta associação.

Lena Johansson

A relação não havia sido observada em estudos prévios, disse ao Medscape Lena Johansson, do Instituto de Neurociências e Fisiologia, Centro Acadêmico Sahlgrenska para Envelhecimento e Saúde, da University of Gothenburg (Suécia).

“Estudos prévios tiveram períodos de acompanhamentos mais curtos, e foram realizados principalmente em populações idosas. As associações entre depressão e demência poderiam nesses casos ser devidas a perda cognitiva e declínio cognitivo leve”, ela disse.

O presente estudo sugere que a “depressão é não apenas um resultado de demência incipiente”, disse Lena.

Os resultados foram apresentados na Conferência Internacional da Alzheimer’s Association (AAIC) de 2017.

Hipótese potencial

Vários estudos anteriores, revisões sistemáticas e meta-análises analisaram a relação entre demência e depressão, e quase todas essas pesquisas mostraram que o risco para demência aumenta após depressão.

No entanto, uma vez que esses estudos foram limitados por seguimentos curtos, a associação entre depressão e demência observada neles pode ser uma correlação inversa, disse Lena aos presentes na conferência.

Várias hipóteses podem explicar a associação entre depressão e demência, disse Lena. Por exemplo, a depressão pode ser um sintoma inicial de demência, ou as duas condições podem compartilhar uma fisiopatologia subjacente.

É possível que a depressão seja uma reação psicológica ao declínio cognitivo. Se a depressão afeta os níveis de hormônios de estresse e vários neurotransmissores, incluindo serotonina, dopamina e glutamato, isso pode prejudicar o cérebro e aumentar o risco de demência.

O novo estudo usou dados do Estudo Populacional Prospectivo de Mulheres em Gotemburgo, Suécia, iniciado há quase 50 anos. Em 1968, a amostra do estudo incluiu 800 mulheres (média de idade de 46 anos), nascidas entre 1914 e 1930.

Na entrevista inicial as participantes foram questionadas quanto a depressão atual e prévia. A amostra foi acompanhada em 1974, 1980, 1992, 2000, 2009 e 2012. Durante estas consultas de acompanhamento as participantes foram novamente questionadas sobre depressão.

Além de exames neuropsiquiátricos, informações sobre depressão vieram de entrevistas com informantes, prontuários médicos e do Registro de Altas Hospitalares da Suécia.

Os pesquisadores usaram critérios do DSM-III para estabelecer um diagnóstico de depressão, e para determinar se os casos foram de depressão leve ou maior. Eles também determinaram a idade da paciente no primeiro episódio depressivo.

Cerca de 67% das participantes do estudo preencheram critérios para depressão leve ou maior uma ou mais vezes. Dessas pacientes, 44% tiveram depressão maior.

A média de idade das pacientes no momento do primeiro episódio depressivo foi 42 anos.

Pesquisadores usaram o DSM-III-R para determinar diagnósticos de demência. Usando critérios do National Institute of Neurological and Communicative Disorders, e da Stroke –Alzheimer’s Disease and Related Disorders Association, os pesquisadores identificaram 133 pacientes que haviam desenvolvido Alzheimer.

Usando critérios do workshop do National Institute of Neurological Disorders and Stroke-Association Internationale pour la Recherche et l’Enseignement en Neurosciences, os pesquisadores concluíram que 70 pacientes haviam desenvolvido demência vascular ou de outros tipos.

Uma condição grave

Os pesquisadores observaram que, em comparação com mulheres que não tinham história de depressão, aquelas que haviam apresentado qualquer depressão durante a vida estavam sob maior risco de Alzheimer (hazard ratio, HR, de 1,75; intervalo de confiança, IC, de 95%, 1,15 – 2,66) após ajustar por idade, educação, presença de hipertensão e status do gene APOE4.

A associação foi mais forte para depressão maior que para depressão leve.

Os pesquisadores observaram que em comparação com mulheres que não tinham depressão, aquelas que apresentaram o início da depressão antes de 20 anos tiveram chances três vezes maiores de desenvolver doença de Alzheimer (HR ajustada de 3,41; IC de 95%, 1,78 – 6,24).

O risco também foi aumentado para pacientes que apresentaram o início da depressão entre as idades de 20 e 49 anos (HR de 1,65), mas não para aquelas que apresentaram início da depressão entre 50 e 69 anos (HR de 1,02). O risco aumentou após 70 anos (HR de 2,11).

Não houve associações entre depressão e demência vascular ou de outros tipos.

Uma limitação do estudo foi que ele não incluiu informações a respeito do tratamento para depressão.

“Assim, não podemos saber se a medicação antidepressiva ou a psicoterapia tiveram algum papel”, disse Lena.

Entretanto, uma vez que o estudo mostrou que a depressão maior esteve associada com maior risco de demência, “provavelmente é importante evitar episódios graves de depressão”, disse ela.

Outra limitação do estudo é que os pesquisadores não têm informações sobre o número de episódios depressivos.

“Pesquisas futuras deveriam avaliar isso, e fatores como situação socioeconômica, atividade física e uso de drogas, para tornar mais claras as associações”, disse Lena.

A principal mensagem desta nova pesquisa é que os médicos devem considerar a depressão como uma condição grave e prescrever terapia, incluindo terapia com conversação ou antidepressivos, quando necessários, acrescentou ela.

Não há razão para achar que a associação entre depressão em longo prazo e demência deveria ser diferente para os homens, observou Lena.

Após a apresentação, um congressista pediu a Lena que explicasse a alta prevalência de depressão na amostra de estudo – quase 70%.

Ela destacou que isso representa uma prevalência de depressão ao longo da vida, e que os dados são comparáveis com aqueles de outras pesquisas epidemiológicas.

Outro congressista ficou surpreso que o estudo não tenha encontrado associação entre demência vascular e depressão.

Lena respondeu que isso pode ter ocorrido por problemas metodológicos. O fato de que poucos pacientes tenham desenvolvido demência vascular poderia ter reduzido o poder estatístico.

“A depressão pode não afetar fatores vasculares na mesma extensão que afeta o cérebro”, disse Lena. “Mais estudos são necessários para analisar esta associação”.

Lena Johansson declarou não possuir conflitos de interesses relevantes.

Conferência Internacional da Alzheimer’s Association (AAIC) de 2017. Resumo 17671, apresentado em 5 de julho de 2017.

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