#Zika: investigue lesão ocular em todos os bebês potencialmente expostos ao vírus

Postado em

Marcia Frellick

Todos os bebês com possível exposição materna ao vírus Zika devem ser submetidos a exame oftalmológico, independentemente do momento da exposição, da confirmação laboratorial ou de apresentarem anomalias de sistema nervoso central, sugere uma nova pesquisa.

As alterações oculares podem ser o único sinal inicial da infecção congênita pelo vírus Zika, o que é importante porque algumas diretrizes recomendam exames oftalmológicos somente se os bebês tiverem microcefalia ou confirmação laboratorial do vírus.

A Dr. Andrea A. Zin, Ph.D., médica do Departamento de Pesquisa Clínica do Instituto Nacional de Saúde da Mulher no Rio de Janeiro, e colaboradores, informaram suas descobertas em um artigo publicado on-line em 17 de julho no periódico JAMA Pediatrics.

Os pesquisadores avaliaram crianças cujas mães tiveram infecção pelo vírus Zika, confirmada por reação em cadeia da polimerase por transcrição reversa, de janeiro a outubro de 2016. Uma equipe contando com a participação de um oftalmologista pediátrico examinou os bebês até um ano de idade.

Dos 112 bebês, 24 (21,4%) apresentaram alterações oculares que ameaçavam a visão (a mediana da idade no primeiro exame ocular foi de 31 dias; o intervalo foi de 0 a 305 dias). As mais comuns foram as anomalias do nervo óptico e da retina. Dez crianças com alterações oculares (41,7%) não tinham microcefalia e oito (33,3%) não apresentaram anomalias de sistema nervoso central (SNC).

As alterações oculares foram mais comuns quando as mães se infectaram durante o primeiro trimestre, mas também ocorreram nos casos de infecção a qualquer momento da gestação. Quatorze bebês com alterações oculares (58,3%) nasceram de mulheres infectadas durante o primeiro trimestre, oito (33,3%) de mães infectadas durante o segundo trimestre e duas (8,3%) de infectadas durante o terceiro trimestre.

As alterações oculares foram muito mais prováveis ​​nos bebês com microcefalia (odds ratio, OR = 19,1; intervalo de confiança, IC, de 95%, de 6,0 a 61,0), outras anomalias de sistema nervoso central (OR = 4,3; IC de 95%, de 1,6 a 11,2) e artrogripose (OR = 29,0; IC de 95%, de 3,3 a 2 55,8).

O estudo foi realizado no Instituto Fernandes Figueira da Fundação Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro, um centro de referência para mulheres com gravidez de alto risco e crianças com doenças infecciosas.

Esta pesquisa, bem como trabalhos anteriores, constatou que as alterações oftalmológicas ocorreram não apenas nos lactentes com microcefalia, o que é importante porque as diretrizes do Ministério da Saúde do Brasil só recomendam rastreamento com exames oftalmológicos para bebês nascidos nas áreas de endemia do vírus Zika em caso de microcefalia.

Quando as alterações oculares foram descritas pela primeira vez nos casos dos bebês com microcefalia e infecção presumida por Zika, não estava claro se estas alterações foram secundárias à microcefalia ou se estavam diretamente ligadas ao vírus Zika, observam os autores.

Este estudo relata que “10 de 24 alterações oculares (41,7%) ocorreram na ausência de microcefalia em casos confirmados de infecção pelo vírus Zika por reação em cadeia de polimerase por transcriptase reversa. Assim, parece que o vírus Zika pode ser considerado diretamente relacionado com os achados patológicos oculares”.

Os pesquisadores também observaram que achados oftalmológicos foram observados em bebês sem anomalias de sistema nervoso central.

“Se a presença de anomalias do sistema nervoso central fosse utilizada como critério de rastreamento para a realização do exame oftalmológico em nossa população, três bebês com anomalias ao exame ocular não teriam sido identificados”, escrevem os autores.

As diretrizes de prevenção dos Centers for Disease Control and Prevention norte-americanos recomendam o rastreamento oftalmológico somente se houver algum resultado de exame laboratorial confirmando infecção congênita pelo vírus Zika. Como esses testes nem sempre estão disponíveis, as alterações oculares podem não ser identificadas, explicam os autores.

As limitações do estudo compreendem um viés para microcefalia e outras características da infecção pelo vírus Zika, visto que o centro estudado era um centro de referência. O estudo também não incluiu nenhum grupo de controle.

Os autores reconhecem que “não podemos afirmar com absoluta certeza” que todos os achados oftalmológicos eram relacionados com a infecção pelo vírus Zika”.

Este estudo foi subsidiado pelo Conselho Nacional Brasileiro de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, pelo National Institute of Allergy and Infectious Diseases e pelo National Eye Institute. Um coautor foi financiado, em parte, por uma bolsa irrestrita de Research to Prevent Blindness concedida pelo Stein Eye Institute. Outro coautor foi financiado em parte pelo Thrasher Research Fund. Os autores informaram não possuir nenhum conflito de interesses relativo ao tema.

JAMA Pediatr. Publicado on-line em 17 de julho de 2017. Artigo

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