#Vegetais folhosos são bons para os olhos e também para a função cerebral de crianças

Postado em

Batya Swift Yasgur

Altos níveis de carotenoides na retina estão associados com conquistas acadêmicas superiores e maior eficiência na realização de tarefas cognitivas, mostra uma nova pesquisa.

Uma equipe de pesquisadores liderada por Naiman Khan, professor de cinesiologia e saúde comunitária, juntamente com Anne Walk, discente do pós-doutorado, ambos da University of Illinois em Urbana-Champaign, conduziu dois estudos que utilizaram a densidade óptica de pigmentos maculares (DOPM) para medir as concentrações de luteína e zeaxantina, ambos carotenoides da retina, nos olhos.

Em um estudo, pesquisadores mediram a densidade óptica de pigmentos maculares em 56 crianças (com idades de oito a nove anos), avaliaram desempenho acadêmico, e mediram o consumo dietético de luteína e zeaxantina delas por três dias.

Eles descobriram que a luteína e zeaxantina retinianas estão positivamente relacionadas a conquistas acadêmicas, mesmo quando controlando para outros fatores, como condicionamento aeróbico, composição corporal e quociente de inteligência (QI).

Outro estudo investigou a relação entre densidade óptica de pigmentos maculares e desempenho em uma tarefa cognitiva desafiadora em 49 crianças (com idades de oito a 10 anos).

Os pesquisadores descobriram que crianças com uma maior densidade óptica de pigmentos maculares responderam a tarefas cognitivas de forma mais eficiente, especialmente naquelas que requeriam controle da atenção. Os achados fornecem um “novo suporte” para a influência neuroprotetora dos carotenoides retinianos durante a pré-adolescência.

“A luteína é conhecida por acumular na retina e em várias outras regiões do cérebro, e mostrou-se que ela protege contra doenças oculares e preserva a função cognitiva em adultos mais velhos. Esses estudos são importantes porque demonstram que a influência benéfica da luteína é evidente na infância”, disse Khan ao Medscape.

“Nós também sabemos que esses pigmentos são encontrados em grandes quantidades no cérebro de crianças pequenas. Isso sugere que são importantes de alguma forma para o desenvolvimento cerebral”, disse Anne em uma declaração à imprensa.

O primeiro estudo foi publicado on-line em 23 de maio na Nutritional Neuroscience. O segundo estudo foi publicado na edição de agosto do International Journal of Psychophysiology.

Melhora do desempenho acadêmico

Em ambos estudos os pesquisadores ressaltaram que trabalhos prévios já haviam demonstrado o papel potencial da luteína e da zeaxantina no combate ao declínio cognitivo em idosos. No entanto, sabe-se muito pouco sobre o potencial de melhoria cognitiva ou efeitos neuroprotetores desses carotenoides em crianças.

Estudos prévios mostraram que a luteína e a zeaxantina são encontradas no cérebro de crianças, com um acúmulo preferencial de luteína. De fato, “a contribuição relativa da luteína para os carotenoides totais encontrados no cérebro infantil é quase duas vezes maior do que em adultos, correspondendo a 59% versus 34%, respectivamente, sugerindo um papel seletivo da luteína no desenvolvimento neural precoce”.

Para investigar o impacto potencial de carotenoides da retina na cognição de crianças, os pesquisadores nos dois estudos recrutaram participantes do FITKids, um grande ensaio longitudinal randomizado e controlado de uma intervenção envolvendo atividade física em crianças.

As duas pesquisas mediram a densidade óptica de pigmentos maculares porque ela é um indicador da xantofilia retiniana, está correlacionada ao nível cerebral de luteína, e é uma “boa prova” da quantidade cerebral de luteína e zeaxantina. Além disso, a avaliação da densidade óptica de pigmentos maculares é não invasiva.

A equipe de Khan avaliou os participantes (n = 49) em dois dias. No primeiro dia as crianças foram solicitadas a completar o Woodcock Johnson Tests of Cognitive Abilities para fornecer uma estimativa de QI, e passaram pelo Kaufman Test of Academic and Educational Achievement II (KTEA II) para avaliar conquistas acadêmicas.

O peso e estatura das crianças foram medidos, e um teste de consumo máximo de oxigênio (VO2max) foi utilizado para avaliar o condicionamento aeróbico. Os guardiões legais forneceram informações a respeito da demografia, histórico de saúde e desenvolvimento puberal das crianças.

Depois da primeira consulta, as crianças receberam formulários para registrar em casa os alimentos que consumiram por um período de três dias.

Na segunda consulta, as crianças completaram uma avaliação da composição corporal por absortometria radiológica de dupla energia. Nas duas visitas a densidade óptica de pigmentos maculares foi avaliada. Os pesquisadores realizaram uma média dos dois valores de densidade óptica de pigmentos maculares e utilizaram modelos de regressão hierárquica para determinar a relação entre a densidade óptica de pigmentos maculares média e os testes de conquista acadêmica, após ajustes para covariáveis-chave (por exemplo, sexo, condicionamento aeróbico, composição corporal e QI).

Os pesquisadores encontraram uma correlação positiva entre o consumo dietético de luteína e zeaxantina e densidade óptica de pigmentos maculares (r = 0,39; P = 0,02).

Na análise de correlação bivariada, QI, VO2max, e a massa livre de gordura se correlacionaram positivamente com a pontuação composta de conquistas (r = 0,62, P < 0,01; r = 0,33, P = 0,01; e r = 0,26, P = 0,05, respectivamente).

O índice de massa corporal (IMC) e o percentual de gordura corporal estiveram negativamente correlacionados com a pontuação composta de conquistas (r = -0,37, P < 0,01; r = -0,30, P = 0,03, respectivamente).

As análises de regressão mostraram que a densidade óptica de pigmentos maculares melhorou o modelo para conquistas acadêmicas em geral (ΔR2 = 0,10, P < 0,01), matemática (ΔR2 = 0,07, P = 0,02), e pontuações padrão compostas para linguagem escrita (ΔR2 = 0,15, P < 0,01), mesmo considerando as covariáveis.

“O maior achado foi de que crianças com valores maiores de densidade óptica de pigmentos maculares tiveram desempenho superior em medidas acadêmicas, particularmente em matemática e linguagem escrita”, escrevem os pesquisadores.

Os achados destacam “a importância do consumo habitual” de luteína e zeaxantina para melhora do desempenho acadêmico, acrescentam.

“Os resultados não foram surpreendentes para nós”, disse Khan. “Havíamos levantado a hipótese de um efeito positivo entre a luteína ocular e a função cognitiva e habilidades acadêmicas das crianças”.

Efeito antioxidante?

A equipe de Anne avaliou o desempenho cognitivo das crianças (precisão de resposta e tempo de reação) usando uma versão modificada da Eriksen Flanker Task, uma atividade cognitivamente desafiadora na qual os participantes respondem a direção de uma imagem de localização central de um peixe, apresentado entre várias imagens distratoras de peixes irrelevantes para a tarefa, que podem ser congruentes (na mesma direção) ou incongruentes (na direção oposta).

Os pesquisadores registraram a atividade eletroencefalográfica (EEG) das crianças durante a tarefa – em particular, o componente P3 da onda de potencial relacionado a eventos (PRE).

Os participantes foram submetidos a duas sessões de testes. Na primeira, os guardiões legais completaram um questionário sobre informações demográficas e de saúde. Na segunda, os participantes completaram as tarefas cognitivas registradas pelo EEG. A densidade óptica de pigmentos maculares foi registrada em ambas sessões, e foi feita uma média dos valores.

Quando foram feitas as análises de correlação bivariadas, os pesquisadores descobriram que a acurácia de resposta esteve significativamente relacionada a valores de densidade óptica de pigmentos maculares para desafios incongruentes, mas apenas moderadamente relacionada para desafios congruentes (r = 0,341, P = 0,017, intervalo de confiança, IC = 0,124 – 0,542; e r = 0,243, P = 0,093, IC = 0,024 – 0,454, respectivamente).

A densidade óptica de pigmentos maculares não esteve relacionada a tempo médio de reação (r ≤ 106, P ≥ 0,235). Os intervalos de confiança para correlações significativas e moderadas não passaram pelo 0, “sugerindo correlações moderadas confiáveis”, escrevem os pesquisadores.

“Esses resultados indicam que as crianças com maiores valores de densidade óptica de pigmentos maculares têm maior probabilidade de exibir um melhor desempenho na tarefa de flanqueamento e que isso foi particularmente evidente quando foram necessários níveis mais altos de controle de atenção”, escrevem. No entanto, maiores valores de densidade óptica de pigmentos maculares não aumentaram a velocidade de realização da tarefa.

“A hipótese de que valores de densidade óptica de pigmentos maculares estariam positivamente relacionados ao desempenho da tarefa de flanqueamento teve suporte. Assim, os efeitos benéficos dos carotenoides da retina parecem ser globais no processamento de controle cognitivo, embora o maior benefício seja observado quando as demandas de controle cognitivo são maiores”, escrevem os autores.

Os pesquisadores acrescentam que esses dados não mostraram uma relação significativa entre densidade óptica de pigmentos maculares e o tempo de reação, “indicando que os benefícios da luteína no controle cognitivo em crianças têm efeito preferencial na precisão em vez de na velocidade de processamento”.

Discutindo esses achados, Khan sugeriu que “um mecanismo potencial para os benefícios neurocognitivos da luteína e da zeaxantina poderia ser pelos efeitos antioxidantes da luteína, que podem se estender além do olho e proteger também o tecido cerebral”.

“É também possível que a luteína facilite os efeitos neuroprotetores de outros nutrientes que seriam benéficos para a função cognitiva e saúde cerebral, como o ácido docosa-hexanoico”. No entanto, ele alertou, “pesquisas adicionais são necessárias para determinar o mecanismo exato pelo qual a luteína tem impacto no cérebro e na função cognitiva”.

Estímulo à alimentação saudável

Comentando os estudos para o Medscape, Elizabeth Johnson, do Jean Mayer USDA Human Nutrition Center on Aging, Tufts University, Boston, Massachusetts, disse que os estudos “são consistentes com o que sabemos sobre a luteína e a zeaxantina de estudos intervencionais em adultos, nos quais ao aumentar esses componentes na dieta, há melhora da função cognitiva”.

Ela alertou que “os achados podem demonstrar apenas associação, mais do que causa e efeito”.

Ainda assim, esses estudos são valiosos e “de particular interesse porque a luteína e a zeaxantina não são consideradas nutrientes ‘essenciais'”, então “não existem políticas solicitando que programas de alimentação escolar devam conter uma certa quantidade deles”.

No entanto, “embora não sejam ‘essenciais’, são benéficos, então é importante avaliar os fitonutrientes de plantas, frutas, vegetais e nozes e recomendar às pessoas quais devem ser os alvos para que obtenham uma boa saúde”.

Ela recomendou que psiquiatras indaguem sobre a nutrição de seus pacientes. “Se uma pessoa está comendo para melhorar a função cerebral, isso também ajuda a saúde em geral porque a mesma dieta – frutas, vegetais, pouca gordura, boas gorduras, número apropriado de calorias e exercícios – que é boa para o cérebro é boa também para tudo o que está abaixo dele”.

Khan acrescentou que “encorajar crianças a comerem mais alimentos ricos em luteína, como vegetais folhosos e frutas, podem melhorar a condição cognitiva delas, e certamente não fará mal”.

Essa pesquisa faz parte de um ensaio controlado randomizado maior, com apoio dos National Institutes of Health e Abbott Nutrition por meio de um Centro de Nutrição, Aprendizado e Memória financiado pela University of Illinois. Khan e Anne declararam não possuir conflitos de interesses relevantes.

Nutr Neurosci. Publicado on-line em 23 de maior de 2017. Resumo

Int J Psychophysiol. 2017;118:1-8. Resumo

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