Risco de epidemia de # febre amarela urbana é grande, segundo pesquisa

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Ruth Helena Bellinghini

Uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, Instituto Evandro Chagas e Instituto Pasteur mostrou que tanto o Aedes albopictus quanto o A. aegypti têm grande capacidade de transmitir as duas linhagens de vírus de febre amarela que circulam no Brasil, além de uma terceira, africana, identificada no Senegal em 1979 e responsável pela recente epidemia urbana em Angola, que causou 600 mortes em seis meses. O estudo [1], publicado no periódico Scientific Reports, aponta a cidade do Rio de Janeiro, onde estão presentes ambas espécies do mosquito e que recebe grande número de viajantes, como área com grande risco de transmissão urbana da febre amarela, algo que não acontece no País desde 1957. Não à toa, quatro dias antes da publicação do trabalho das duas instituições federais, o Ministério da Saúde recomendou que todas as pessoas que viajam ao Rio e que nunca foram vacinadas recebam a vacina contra febre amarela. A decisão das autoridades brasileiras da saúde vem três meses depois de a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter incluído o Rio na lista de locais no Brasil em que a vacinação é recomendada para turistas.

Tradicionalmente, os surtos de febre amarela no Brasil coincidem com as ondas de epizootias (epidemias em populações não-humanas) de macacos, que ocorrem em ciclos de seis a 12 anos. Até agora, acreditava-se que os Aedes sp das regiões com epizootias e/ou epidemias de origem silvestre fossem menos competentes que as espécies silvestres como vetores da febre amarela, ainda que reaparecimento da febre amarela urbana não possa ser de todo descartado.

Os pesquisadores coletaram espécimes do Rio, Manaus e Goiânia das espécies Haemagogus leucocelaenus, Sabethes albiprivus, Aedes aegypti e A. albopictus, que foram alimentados com sangue das três diferentes linhagens do vírus (as americanas 74018-1D e 4408-1E e a africana S-79) e verificou-se que, 14 dias após a infecção, eles são capazes de transmitir partículas virais. Dos vetores urbanos, os Aedes aegypti do Rio de Janeiro apresentaram o maior potencial para disseminar a febre amarela, com mais de 10% dos mosquitos apresentando partículas virais infectantes na saliva duas semanas após a alimentação, semelhante à registrada entre os insetos de Manaus – onde a doença é endêmica e a população, vacinada – e maior que a dos mosquitos de Goiânia. O estudo ressalta também que o Rio convive ainda com o Haemagogus leucocelaenus, espécie dominante nas florestas próximas à cidade, onde vive também o Aedes albopictus.

Segundo o trabalho, 10% pode parecer pouco, mas mesmo um vetor com pouca competência pode ter um papel importante na transmissão da doença se houver outros fatores presentes, como alta densidade e alto índice de picadas em humanos, como ocorre no Rio de Janeiro.

Normalmente, barreiras ecológicas e ambientais são capazes de conter a disseminação do vírus das áreas florestais para as urbanas, mas no Brasil as grandes cidades cresceram desordenadamente ao lado de regiões florestais e a degradação ambiental permitiu que o Haemagogus leucocelaenus e o A. albopictus colonizassem parques e áreas urbanas. De acordo com os pesquisadores, o caso do Aedes albopictus é exemplar: a espécie é oportunista, coloniza diferentes habitats, se alimenta do sangue de vários animais e vive em parques e florestas próximas a grandes centros urbanos.

De acordo com Ricardo Lourenço de Oliveira, chefe do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários do Instituto Oswaldo Cruz e um dos autores da pesquisa, o risco de uma epidemia de febre amarela é grande no Rio e outras áreas do litoral do Sudeste, já que a maior parte da população dessas áreas ainda não foi vacinada contra a doença. Para ele, é preciso que o governo invista em vacinação e o combate aos criadouros do Aedes aegypti, até porque o mosquito também é vetor de outras arboviroses, como dengue, zika e chikungunya.[2]. Um cenário possível para o início de uma epidemia urbana, segundo Oliveira[2], é um indivíduo ser picado por um mosquito silvestre durante um passeio na mata, por exemplo, e se sua casa tiver Aedes aegypti em grande quantidade, ele pode ser picado, transmitir o vírus da febre amarela para um destes Aedes, que por sua vez vai picar outras pessoas e dar início à epidemia.

Vacinação no Rio

Dias antes da publicação do estudo, o ministro da Saúde Ricardo Barros anunciou o envio de 1,5 milhão de doses de vacina contra febre amarela para o Rio, que vai receber a partir de agora 500 mil doses mensais. O objetivo é vacinar toda população até o fim do ano. A recomendação se estende a quem viaja para o Estado.

“A febre amarela no Brasil é endêmica, acontece constantemente. Se nós não controlarmos e estivermos com cobertura vacinal alta na população, teremos novos problemas. Por isso o Governo Federal decide incluir o Rio entre os estados que receberão permanentemente doses da vacina de febre amarela para garantir a cobertura vacinal elevada e evitar novos episódios de epidemia”, disse Barros em um comunicado à imprensa. De acordo com o ministério, este ano foram enviadas 6,9 milhões de vacinas para o Rio de Janeiro. Em todo País, foram distribuídas 26,9 milhões de doses extras para intensificar a vacinação e garantir a proteção da população durante o surto que atingiu principalmente Minas Gerais, Espírito Santo e Rio. De janeiro até agora, foram registrados 797 casos da doença no Brasil, com 275 mortes.

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