Gestantes assintomáticas devem ser incluídas em ações preventivas de transmissão perinatal do #Zika

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Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

A carga viral de Zika e a gravidade dos sintomas associados a essa infecção durante a gestação parecem não ter impacto nos desfechos infantis. Na verdade, uma grávida assintomática pode estar infectada e transmitir verticalmente o vírus Zika para o bebê. Foi o que mostraram pesquisadores da David Geffen UCLA School of Medicine, nos Estados Unidos, em um artigo publicado no Clinical Infectious Diseases[1] . O estudo, desenvolvido com mulheres atendidas na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro (Brasil), também não encontrou associação entre presença de anticorpos de dengue prévios e anormalidades durante a gestação ou o nascimento. Em entrevista ao Medscape, a Dra. Umme-Aiman Halai, da David Geffen UCLA School of Medicine, falou sobre o trabalho.

Foram avaliadas 131 gestantes com infecção pelo vírus da zika confirmada por reação em cadeia da polimerase (PCR). Essas pacientes faziam parte de uma coorte de gestantes acompanhadas na Fiocruz entre 2015 e 2016. Pesquisadores da Fiocruz também participaram da elaboração do artigo, bem como especialistas de outras instituições americanas (Biomedical Research Institute of Southern CA e University of CA San Francisco School of Medicine).

Os autores desenvolveram uma ferramenta para determinar a gravidade clínica da infecção por zika. O instrumento levou em consideração tempo de febre, gravidade da erupção cutânea (rash), envolvimento multissistêmico, e duração dos sintomas durante a infecção.

Uma minoria de participantes (4,6%) apresentou quadro leve de zika, enquanto 74,8% foram classificadas com infecção moderada. Já quadros graves foram observados em 20,6% das mulheres. O pequeno percentual de quadros leves se justifica pelo fato de um dos critérios de inclusão ter sido a presença de erupções cutâneas. Pela mesma razão, não houve pacientes assintomáticas na amostra estudada.

Das mulheres analisadas, 121 foram testadas no início da pesquisa para infecção prévia por dengue (sorologia para anticorpos IgG), sendo que a maioria (88,4%) foi positiva.

Considerando os resultados gestacionais, os pesquisadores identificaram 58 (46,4%) desfechos anormais, incluindo nove perdas fetais. Entre os bebês que sobreviveram, anormalidades estruturais ou em exames de imagem ocorreram em 37 bebês, e outros 12 tiveram avaliação neurológica clínica anormal no primeiro mês de vida.

A pesquisa não revelou associações entre gravidade da infecção por zika na gestante e desfechos anormais, gravidade da infecção e carga viral ou entre carga viral e resultados adversos. A existência de anticorpos prévios para dengue também não esteve correlacionada com gravidade da infecção por zika e carga viral, tampouco com desfechos anormais.

A Dra. Umme-Aiman explica que estudos laboratoriais sugerem a existência de um fenômeno chamado de intensificação da infecção viral dependente de anticorpo (antibody dependent enhancement)[2,3], no qual anticorpos de dengue pré-existentes aumentariam a virulência do Zika, elevando o risco para o feto. Estudos clínicos, no entanto, não encontraram evidências disso.

“Embora o tamanho da amostra de mulheres que não tinham anticorpos prévios da dengue tenha sido pequeno, não encontramos associação positiva ou negativa entre imunidade prévia à dengue e gravidade clínica de zika, carga de RNA de Zika ou o desfecho de nascimento. Mais estudos com uma amostra maior de mulheres sem infecção por dengue prévia são necessários para confirmar esta descoberta”, diz.

Quanto aos resultados sobre a gravidade dos sintomas, a pesquisadora lembra que existem certas infecções virais, por exemplo, por citomegalovírus (CMV) e pelo vírus da rubéola, que podem ser assintomáticas ou causar doença leve durante a gravidez, mas resultar em desfechos devastadores para as crianças.

“O vírus da zika parece se comportar de forma semelhante. Uma grávida pode ter pouco ou nenhum sintoma que sugira infecção por Zika durante a gestação, mas o bebê pode nascer com síndrome congênita de zika”, explica ela, acrescentando que já houve relato na Colômbia[4] de infecção assintomática por zika resultando em desfechos anormais nos bebês e que, mais recentemente, o mesmo se repetiu no United States Zika Registry.

Para a Dra. Umme-Aiman, a infecção por Zika é diferente de outras infecções, como a do vírus da imunodeficiência humana (HIV), na qual uma carga viral maior geralmente indica risco aumentado de transmissão perinatal.

“Não encontramos associação aparente entre os resultados infantis e a carga materna do vírus Zika no soro e/ou na urina”, diz.

Ainda não foi totalmente esclarecido, afirma a médica, “se os resultados adversos da gravidez são devido à infecção direta da placenta e/ou do feto, ou devido às alterações do sistema imunológico que ocorrem em resposta à infecção por Zika na gestação”.

A Dra. Umme-Aiman afirma que atualmente está acompanhando os bebês nascidos de mães infectadas com Zika para determinar a gama de anormalidades estruturais e de desenvolvimento que podem resultar da infecção na gravidez.

“Nossa equipe também está interessada em estudar técnicas para apoiar e melhorar o desenvolvimento neurológico de bebês com síndrome congênita de zika”, finaliza

O estudo foi financiado por Departamento de Ciência e Tecnologia (DECIT) do Ministério da Saúde do Brasil, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID) of the National Institutes of Health e pelo Thrasher Research Fund.

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