Ensino da medicina no Brasil deve diversificar atividades e incorporar tecnologias da informação

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Ruth Helena Bellinghini

Dentro de 10 anos o Brasil terá cerca de 800 mil médicos, muitos deles formados em faculdades de qualidade duvidosa, sem hospitais-escola, que terão de competir por espaço num mercado de trabalho que vem mudando. De acordo com o Dr. Marun Cury, pediatra e diretor-adjunto de Defesa Profissional da Associação Paulista de Medicina (APM), está cada vez mais difícil para o médico manter o modelo tradicional de ter um consultório particular.

“O custo de um paciente hoje é de R$ 65, mas na saúde complementar, nossa remuneração é de apenas R$ 85”, afirmou o pediatra, que coordenou o debate A Formação e a Prática Profissional do Jovem Cardiologista, dentro da programação do 38º Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp).

Para o Dr. João Fernando Monteiro Ferreira, professor de cardiologia da Faculdade de Medicina do ABC e médico do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), o modelo de ensino em que ele próprio se formou, baseado apenas em aulas teóricas, não funciona mais.

“É necessário estimular o aluno, diversificando as atividades de ensino”, propõe. Ele mesmo adota um sistema em que combina aulas teóricas (30%), solução de problemas (20%), oficinas (10%), atividades práticas (30%) e simulações (10%). De acordo com o Dr. Ferreira, as inovações em saúde surgem rapidamente e a tecnologia da informação pode e deve ser instrumento de atualização dos médicos, inclusive por meio de cursos à distância.

“O problema aqui é separar o joio do trigo, ou seja, buscar cursos com método pedagógico, material didático, que promovam a interação entre professor e aluno, tenham avaliação e metodologia ativa”, explica.

Segundo o especialista, entre as grandes vantagens dos cursos à distância estão a acessibilidade sem restrições de horários e local, e a possibilidade de usar esse sistema para uma série de atividades, entre elas a discussão de casos clínicos e dissecações em 3D. Para o Dr. Ferreira, o futuro do ensino da medicina está em uma mescla de atividades que faça do aluno o agente principal e o responsável pela própria aprendizagem.

Quando se formou, nos anos 70, o Dr. Florisval Meinão, otorrinolaringologista e presidente da APM, encontrou um mercado aberto, no qual era fácil conseguir emprego em um grande hospital.

“Hoje, existem 280 faculdades de medicina no país e, em breve, teremos mais 34. E a maioria oferece uma formação deficiente, com falta de docentes, falta de hospitais de ensino. Isso sinaliza para um futuro em que teremos muitos médicos com formação e residência deficientes. É o que já estamos vendo anualmente com os resultados dos exames do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) aplicados em recém-formados, ” afirmou.

Para ele, nesse futuro, será fundamental o título de especialista, ou obtido por residência reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC) ou por meio de prova realizada pelas diferentes sociedades médicas.

“Esta já é uma exigência dos grandes hospitais, e a tendência deve se consolidar cada vez mais, já que esse título é valorizado tanto pela Associação Médica brasileira (AMB) quanto pelas sociedades,” disse, lembrando que, em 2016, houve uma tentativa do Ministério da Saúde de assumir essa responsabilidade, que enfrentou a oposição das entidades médicas. Segundo ele, porém, as sociedades precisam uniformizar as provas, mas sempre com controle rígido de qualidade.

Na segunda parte da sessão, o Dr. Antonio Carlos Endrigo, cirurgião e diretor de Tecnologia da Informação (TI) da APM, e o Dr. Renato Azevedo Jr. apresentaram as novas formas de remuneração dos médicos, o primeiro mostrando a perspectiva das empresas e o segundo, a do profissional médico. Dr. Endrigo iniciou sua fala mencionando os pagamentos por serviço e por pacote. O primeiro privilegia a complexidade da doença e o maior número de atendimentos, e é o utilizado por 50% dos serviços de saúde; enquanto o segundo se refere ao valor acordado com a fonte pagadora por todo o tratamento, e é o mais utilizado por hospitais.

Segundo o Dr. Azevedo, porém, empresas visam lucro, o que sempre significa redução de custos. “No nosso caso, isso não significa necessariamente honorários menores, mas é o que levou ao fim das contratações pela CLT, o que transformou os médicos em prestadores de serviços, seja como pessoa física ou pessoa jurídica, nas chamadas ‘pejotizações'” afirmou, acrescentando que até 2014 não havia norma obrigando os planos de saúde a reajustarem o pagamento dos médicos.

Já o  pagamento por procedimento, segundo ele,  é justo para quem age corretamente, mas se torna um problema com a questão dos pedidos de exames desnecessários, e pode ter custo elevado para as operadoras. Segundo Azevedo Jr., essa forma de pagamento ainda precisa ser regulamentada.

O caption é um sistema de remuneração pelo qual os prestadores de serviços cuidam de uma determinada população por um valor fixo per capita. “É bastante usado por empresas donas de hospitais e clínicas”, explicou. Segundo o Dr. Azevedo, porém, esse sistema transfere ao médico a gestão dos recursos e o peso de todos os riscos do negócio.

“O outro problema nesse sistema é que o foco está nos custos, e não a qualidade da assistência”, observou.

Na opinião do Dr. Endrigo, o sistema de pagamento por performance inevitavelmente vai chegar ao Brasil. “Ele se baseia na eficiência de processos e custos, na efetividade de resultados, e tem uma centralidade no paciente e na relação entre médico e paciente, que avalia o cuidado recebido, e onde há sempre incentivo para melhoria da assistência”, explicou.

Para o Dr. Azevedo, essa forma de remuneração ainda precisa de uma definição melhor em relação aos critérios de qualidade da assistência, e esbarra na questão de dificultar o acesso à saúde dos pacientes mais complexos.

O sistema Diagnosis Related Group (DRG), usado por hospitais, classifica os pacientes internados pelo que eles têm em comum em termos de consumo de recursos, embora individualmente eles não sejam homogêneos quanto à causa da hospitalização. Isso resulta em preços diferenciados, menores para pacientes mais simples, e mais altos para os casos mais complexos.

“E há também o Value Based Health Care, no qual o objetivo é reduzir os custos do sistema e, ao mesmo tempo, melhorar a qualidade da assistência. O valor da remuneração depende de resultados, não da quantidade de serviços prestados”, disse o Dr. Endrigo. Na crítica do Dr. Azevedo, esse sistema também carece de regulamentação e o médico arca com prejuízo se houver complicações.

“Além disso, há sempre o risco dele pedir menos exames do que o necessário para manter os custos dentro da meta”, alertou. De acordo com o especialista, do ponto de vista do médico, o melhor sistema ainda é o da remuneração por serviço prestado, que pode e deve ser regulamentado.

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