Spinners: a visão de um pediatra

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Dr. Alok Patel

Nota do editor norte-americano: Os fidget spinners (conhecidos no Brasil como spinners), um tipo de brinquedo giratório, são a mania da vez. Crianças de todas as idades estão brincando com eles. Eles supostamente ajudam a lidar com tudo, do tédio ao transtorno de déficit de atenção e/ou hiperatividade (TDAH). Pedimos ao Dr. Alok Patel, médico e professo-assistente de pediatria clínica no Columbia University College of Physicians and Surgeons e intensivista pediátrico no Morgan Stanley Children’s Hospital do New York-Presbyterian em Nova York, para testar o brinquedo.

Como médicos, todos sabemos que é importante entender em quais pesquisas médicas ou inovações nossos pacientes estão interessados. Agora, eu sou pediatra e a minha população de pacientes é um pouco diferente, porém a descoberta médica recente que todos estão comentando é o fidget spinner, um tipo de brinquedo giratório. A menos que você viva em uma ilha deserta, provavelmente já ouviu falar deles. Vocês podem acreditar, também tentei ignorar essas coisas, mas elas estão em toda parte. Os spinners são promovidos como uma inovação para as crianças com transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade, autismo, ansiedade ou estresse, e os fabricantes afirmam que eles melhoram o foco e a concentração.

Eu não sabia como avaliar essas alegações, então fui falar com especialistas. Aqui na cidade de Nova York sou pediatra de pacientes internados, e quando numa noite andei perguntando sobre esses brinquedos fiquei surpreso. Todas as crianças tinham um. A maioria delas os tinha ali mesmo no hospital, simplesmente girando. Quero dizer, eu admito que eles são bastante viciantes. Eles são um dos brinquedos mais vendidos na Amazon, você pode comprar versões de colecionador e há até mesmo uma versão no formato do logotipo do Batman. Eu comprei o meu por oito dólares em uma loja de conveniência 7-Eleven, no caminho do trabalho para casa.

Mas estes brinquedos realmente funcionam? Mais importante, existem questões de segurança? A Consumer Product Safety Commission está investigando o dispositivo por questões relacionadas com incidentes de asfixia[1]. As escolas estão proibindo-os. Os especialistas nacionais não endossam o uso deles. Na Irlanda, 200 mil dispositivos foram recolhidos para uma revisão de segurança[2]. Não me parece ser algo muito seguro.

No Texas houve um caso do qual você provavelmente já ouviu falar, o de uma garota de 10 anos que estava sentada no banco de trás do carro, debruçada sobre o próprio spinner, quando acidentalmente desalojou um dos rolamentos, que acabou preso no esôfago dela[3].

Médicos, se vocês quiserem dar aos seus residentes uma pequena aula sobre radiografias durante as visitas, pesquisem no Google “fidget spinner x-ray“. Vejam o que aparece. Ocorreu um incidente semelhante no Oregon com um menino de cinco anos[4]. Eu já vi crianças pequenas brincando com eles, e qualquer coisa que caia nas mãos de uma criança pequena, vai direto para a boca. Os rolamentos não são tão seguros. Isso também é um risco especial para as crianças com atrasos no desenvolvimento, que parecem ser justamente o público-alvo da publicidade deste produto.

Eu sondei meus amigos da pediatria para saber se eles tinham histórias para contar. Um amigo pediatra que trabalha em uma clínica de urgência viu uma criança com uma lesão por estresse porque girou o brinquedo continuamente durante oito horas. Outro pediatra amigo meu viu uma criança com uma laceração no queixo porque ela caiu de uma calçada enquanto girava o brinquedo. Isso não me parece aumento do foco.

O que a Amazon diz? Se você olhar as revisões na Amazon, lerá afirmações como: “Aumento do foco para quem sofre de transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade, ansiedade e autismo”; “o discreto girar ajuda a se livrar dos maus hábitos”; e “impulsione sua criatividade!” Nenhuma pesquisa ou evidência corrobora quaisquer dessas afirmações. O que é demonstrado, contudo, é que algumas crianças com transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade podem se beneficiar de uma certa atividade de fundo. Dois estudos, um publicado no periódico Journal of Abnormal Child Psychology[5] e o outro no Child Neuropsychology[6], mostraram que algumas crianças com TDAH podem ter melhora da memória de trabalho ou do desempenho cognitivo ao praticarem uma atividade leve de coordenação motora geral.

A forma como eu traduzo esta informação para os pais dos meus pacientes é simples: coisas como andar e falar ao mesmo tempo, apertar uma bola de estresse, ou até mesmo sentar sobre uma dessas bolas infláveis ​​de exercícios enquanto faz a lição de casa podem ser benéficas para crianças com o transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade. Não levar uma dessas engenhocas para a sala de aula!

Elas são tão fascinantes e bonitas, mas provavelmente apenas mais uma distração. Eu não diria a nenhum pai com dificuldades por causa de uma criança hiperativa que deixe um fidget spinner impedi-lo de consultar um especialista.

Eu abordo as crianças com autismo de forma diferente. Quando eu falo com os pais de crianças autistas sobre esses pequenos dispositivos coloridos, no cenário hospitalar, todos relatam usos muito interessantes para eles. Eles têm consciência do risco de segurança e usam o brinquedo principalmente como uma maneira de se conectar com os filhos. Um pai usou o brinquedo como forma de recompensar a filha por tomar os medicamentos na hora certa ou completar determinadas tarefas. Outra mãe estava rindo e disse que ela e a filha os giram sobre uma mesa e competem. Elas veem qual dos dois brinquedos gira por mais tempo. Contanto que eles saibam exatamente com o que estão se metendo, eu apoio.

No final, o que digo aos pais é que o brinquedo não substitui a terapia ocupacional ou comportamental baseada em evidências. Mesmo que os brinquedos sejam superlegais e atraentes, existem riscos ocultos de segurança. Os rolamentos não são pequenos biscoitos gostosos; podem se alojar na garganta de uma criança. Os pais precisam estar atentos a esses brinquedos giratórios, assim como a qualquer outro brinquedo.

E médicos, se vocês estão irritados com isso, relaxem. Eles são como os Pogs, os braceletes de tapa ou o grupo Jonas Brothers – um modismo, e logo irão embora.

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