Testes rápidos em índios do Amazonas e de Roraima mostram taxas importantes de sífilis e HIV

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Teresa Santos e Dra. Ilana Polistchuck

Uma análise conduzida em nove Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) dos estados de Amazonas e Roraima revela que a mobilidade é um importante fator de risco para infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) e por sífilis nessas comunidades[1]. Para a autora Dra. Adele Schwartz Benzaken, do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), do HIV/Aids e das Hepatites Virais do Ministério da Saúde, e da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, em Manaus, isso ocorre porque a mobilidade leva a contatos interétnicos. Mas há ainda outras questões importantes que contribuem para aumentar o risco de ISTs entre os indígenas de todas as etnias, por exemplo, iniquidade social, questões culturais, desinformação e pouco uso de preservativo.

Em estudo publicado em junho deste ano no International Journal for Equity in Health[1], a Dra. Adele e colaboradores estimaram a prevalência de HIV e sífilis entre 45.967 índios nos DSEIs de Manaus, Ianomâmis, Leste Roraima, Alto Solimões, Parintins, Alto Rio Negro, Médio Solimões, Médio Purus e Vale do Javari. A investigação foi conduzida entre fevereiro de 2009 e junho de 2011.

Durante o trabalho, 509 profissionais de saúde foram treinados para rastrear as infecções usando testes rápidos. Eles anunciaram a testagem nas comunidades usando um megafone e também folhetos e cartazes que foram adaptados culturalmente para cada grupo indígena. Os participantes receberam aconselhamento pré-teste de HIV e foram entrevistados utilizando um questionário estruturado. A pesquisa foi registrada pelo cineasta Aldemar Matias, e resultou nos documentários Parente e Nati Parente. O primeiro pode ser acessado no link: https://vimeo.com/40111854.

A média de idade dos participantes foi de 22,5 anos e 56,5% eram do sexo feminino. De forma geral, a prevalência de HIV foi 0,13% e de sífilis 1,82%. Na população geral brasileira, segundo dados de 2011 do Ministério da Saúde, a prevalência de HIV era de 0,4%[2]. Já a sífilis atingia 0,85% da população em 2012[3].

Na população indígena investigada os homens tiveram a maior prevalência de HIV (0,16%), seguidos pelas mulheres (0,11%) e por gestantes (0,07%). No caso da sífilis, a prevalência em homens foi 2,23%, em mulheres 1,51% e em gestantes 1,52%.

Dos nove distritos sanitários especiais indígenas analisados, o Vale do Javari, localizado em uma região de fronteira com a Colômbia e o Peru, apresentou as maiores prevalências para ambas infecções (HIV: 3,38% e sífilis: 1,39%). Esse distrito foi também o que apresentou a maior mobilidade e intrusão, e a menor disponibilidade de serviços pré-natais. O nível de violência também foi classificado como alto.

Além do Vale do Javari, Leste Roraima e Alto Solimões também apresentaram níveis altos dos três fatores de vulnerabilidade (mobilidade, intrusão e violência) avaliados.

Os autores definiram como mobilidade: frequência de interações entre cidades e comunidades e de contato com viajantes, com unidades das Forças Armadas e com as fronteiras do país. Já intrusão foi considerada como a presença de indústria madeireira, agronegócios, atividades de mineração ou áreas de garimpo ou mineração informal dentro ou perto do DSEI. Violência, por sua vez, considerou a existência de casos de agressão física e sexual, assassinatos, ameaças de morte e outras ameaças e disputas de terras.

Uma análise multivariada revelou ainda que idade, sexo masculino e mobilidade estiveram associados à infecção por sífilis. No caso da idade, a probabilidade de infecção por sífilis aumentou 4% por cada ano de idade adicional.

A Dra. Adele diz que, em comunidades mais próximas de municípios, já se espera que a maior mobilidade esteja associada a risco aumentado de ISTs. Por outro lado, em populações de difícil acesso, tal como os ianomâmis, a mobilidade é menor e dificilmente ocorrem contatos interétnicos.

Outros aspectos, no entanto, contribuem para tornar as populações mais vulneráveis, entre eles, iniquidade social, questões culturais e desinformação sobre IST e HIV.

“As terminologias IST e HIV são inclusive inexistentes na linguagem indígena”, contou a pesquisadora ao Medscape. Além disso, ela destaca que o baixo uso do preservativo é um dos principais fatores de risco. A pesquisa mostrou que apenas 49,7% dos entrevistados fizeram uso de preservativo na última relação sexual. “Informações colhidas em campo mostram que essa resistência ocorre principalmente porque as comunidades devem ter muitos filhos para a continuidade/perpetuação da etnia e o preservativo não é utilizado por esta razão”, afirma a Dra. Adele.

A pesquisa mostrou que é viável trabalhar com populações indígenas localizadas em áreas remotas, e que os testes rápidos são um instrumento importante, sendo especialmente relevantes para o aumento da detecção de casos entre gestantes, principalmente de sífilis. A prevalência dessa infecção em mulheres grávidas indígenas (1,52%) foi maior do que entre gestantes da população geral (0,85%)[2], porém a Dra. Adele pondera que a prevalência nos brasileiros provavelmente aumentou significativamente nos últimos anos, devido à epidemia que se estabeleceu. De fato, a prevalência de 0,85% foi estimada para o ano de 2012, período no qual a taxa de detecção de sífilis em gestantes era de 6,0 casos/mil nascidos vivos no país. Em 2015, essa taxa passou para 11,2[4].

Embora o estudo em parturientes indígenas já tenha sido realizado há alguns anos, e ainda faltem dados sobre a prevalência anterior a essa pesquisa, a pesquisadora afirma que a prevalência de sífilis para esta população é alta.

“Esta foi a primeira vez que as populações indígenas desses estados tiveram acesso a estes diagnósticos graças à nova tecnologia dos testes rápidos, que não precisam de laboratório, de eletricidade ou geladeira, e são de fácil uso. Os profissionais de saúde da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) treinados se adaptaram muito bem a esta tecnologia e, segundo os depoimentos deles, poder diagnosticar as infecções dentro das próprias aldeias foi importante (os fez sentirem-se empoderados), assim como também poder tratar imediatamente as pessoas infectadas”, diz a Dra. Adele, lembrando que as ações realizadas durante a pesquisa foram absorvidas pela SESAI e o Ministério da Saúde manteve, então, a oferta dos testes rápidos e dos preservativos nas aldeias.

A pesquisa, que contou com a participação de cientistas da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS), da Universitat de Girona, Espanha, do CIBER of Epidemiology and Public Health (CIBERESP), Espanha, da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade Nilton Lins, de Manaus, da Facultad de Medicina Calixto García, de Cuba, e da London School of Hygiene and Tropical Medicine, do Reino Unido, foi financiada pela Bill & Melinda Gates Foundation. O Programa para HIV, ISTs e Hepatites Virais do Ministério da Saúde do Brasil doou os testes de HIV.

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