Já Ouviu Falar da Dieta Mediterrânica?

Postado em

JULHO 4, 2017
http://www.scimed.pt/wp-content/uploads/2017/07/

 

Hoje em dia é comum ouvirmos falar das mais variadíssimas dietas, seja em meios de comunicação social, nas redes sociais ou porque um guru da nutrição inventou uma dieta nova e decidiu escrever um livro.

Estas dietas são orientadas para a perda de peso, para melhorar a saúde no global ou (segundo os mais aventureiros/charlatões) tratar doenças – spoiler alert: fora casos muito específicos, não tratam…

Com a abundância de dietas que têm surgido, as pessoas esqueceram-se da dieta mediterrânica. Deixou de ser uma dieta da moda. Deixou de estar in. É mais giro seguir a dieta alcalina (repita comigo: é impossível alcalinizar o corpo com alimentos); ou então seguir a dieta paleo, apesar de poucos dos alimentos que comemos hoje serem idênticos aos que existiam à época. Temos vindo a fazer selecção das características que nos interessam, tanto nos vegetais e frutas como nos animais. Já nem entramos na parte de comer raízes e insetos.

Estas duas dietas são más dietas? Não! E iremos falar sobre a evidência existente de cada uma delas.

Mas antes gostava de vos apresentar, novamente, a dieta mediterrânica com base na evidência científica acumulada.

Vamos relembrar porque é que os médicos (na generalidade) e as organizações internacionais aconselham este regime alimentar.

Contexto Histórico
A dieta mediterrânica tem nas suas bases de origem os padrões nutricionais praticados na Grécia, Sul de Itália, França e Espanha nos anos de 1940-50. A 4 de Dezembro de 2013 a UNESCO reconheceu este padrão de dieta como Património Cultural Imaterial da Humanidade de Itália, Portugal, Espanha, Marrocos, Grécia, Chipre e Croácia.

Ancel Keys foi o investigador americano responsável pela divulgação da Dieta Mediterrânica, após realização de um estudo em diversos países do Mediterrâneo nos anos 50,  onde verificou que o aumento do aparecimento de doença coronária estava relacionado com um aumento do consumo de gorduras, sobretudo de gorduras saturadas . A excepção verificou-se na bacia do Mediterrâneo onde, apesar do consumo elevado de gordura, o surgimento de enfartes do miocárdio era menor.

Esta relação despertou o interesse do investigador, tendo concluído que se deveria ao facto de o tipo de alimentação e, entre outros aspectos, a gordura consumida nestes países ser o azeite.

Ancel Keys morreu com 100 anos. Se fosse uma pessoa “desonesta” diria que foi graças à dieta mediterrânica que viveu tanto tempo (ótima estratégia de marketing). Mas como já falamos, testemunhos ou casos individuais não validam tratamentos.

Em que se baseia a Dieta Mediterrânica?
No global, a dieta baseia-se:

Consumo elevado de alimentos de origem vegetal (cereais integrais ou pouco refinados, produtos hortícolas, fruta, leguminosas secas e frescas e frutos secos e oleoginosos);
Consumo de produtos frescos , pouco processados e locais, respeitando a sua sazonalidade;
Utilização do azeite como principal gordura para cozinhar ou temperar alimentos;
Consumo baixo a moderado de lacticínios;
Consumo frequente de peixe e baixo consumo de carnes vermelhas e processadas;
Consumo de água (1.5L a 2L por dia) como a bebida de eleição e baixo e moderado consumo de vinho a
acompanhar as refeições principais (1-2 copos vinho tinto/dia);
Realização de confecções culinárias simples e com os ingredientes nas proporções certas.
A Direção Geral de Saúde tem uma roda dos alimentos interactiva, com base na dieta mediterrânica, com a qual podem “brincar” 🙂

Não sendo possível colocá-lo neste artigo, deixo a pirâmide dos alimentos baseada na dieta mediterrânica:

http://www.scimed.pt/wp-content/uploads/2017/07/

O que diz a evidência científica sobre a dieta mediterrânica?
Primeiro, é importante assumir as limitações dos estudos realizados sobre a dieta mediterrânica, assim como qualquer outra dieta. São estudos na maioria observacionais, de qualidade modesta, o que pode colocar em causa algumas das conclusões.

Vamos basear-nos num estudo recente de Maio de 2017 que fez um trabalho notável. Reviu as meta-análises existentes dos estudos observacionais e as meta-análises existentes dos estudos randomizados, sumariando os resultados.

Foram avaliados 37 resultados finais, incluindo mortalidade geral, cancro, doenças cardiovasculares, problemas cognitivos, problemas metabólicos, parâmetros inflamatórios, etc.

A análise envolveu 13 meta-análises de estudos observacionais e 16 meta-análises de estudos randomizados controlados, com um total de 12.800.000 pessoas envolvidas.

Então, quais são os resultados?
Vamos começar com o primeiro gráfico e explicar como se lê os resultados:

http://www.scimed.pt/wp-content/uploads/2017/07/

Na primeira coluna, temos a patologia estudada. Na segunda o número de estudos incluídos. Na terceira, o tipo de estudo, sendo que os estudos de coorte são os estudos de melhor qualidade na imagem apresentada. Na quarta coluna, o número de eventos (ataques cardíacos, AVCs, cancro diagnosticados, etc.) que foram “apanhados” no estudo. Na quinta coluna, a comparação feita no estudo (na maioria, a comparação é entre a adesão alta ou baixa à dieta mediterrânica).

Depois temos o gráfico, que é a parte que interessa. Se a linha horizontal não toca na linha vertical, significa que os resultados são estatisticamente significativos. Se linha horizontal toca na linha vertical, os resultados não são estatisticamente significativos. No entanto, mesmo nestes casos podemos observar uma tendência. Se o ponto mais preto de cada linha estiver à esquerda, significa que a dieta mediterrânica parece ter um perfil favorável. Se tiver à direita, a tendência será desfavorável.

Este primeiro gráfico demonstra que uma adesão à dieta mediterrânica leva a:

Diminuição da incidência e mortalidade por cancro (principalmente colorectal, fígado e pâncreas);
Diminuição do aparecimento de doenças neurodegenerativas como a doença de Alzheimer;
Diminuição do risco de síndrome metabólico (fraca relação) e aparecimento de diabetes tipo 2;
Diminuição do número de eventos cardiovasculares, como AVCs e enfartes do miocárdio.
No final, isso traduz-se na diminuição da mortalidade geral.

Portanto, uma ótima dieta já que diminui o risco das principais doenças que afetam a civilização ocidental/ocidentalizada.

Este segundo gráfico é ainda mais interessante:

http://www.scimed.pt/wp-content/uploads/2017/07/

Neste gráfico é perceptível que a dieta mediterrânica é extremamente eficaz na redução de peso, do índice de massa corporal, do perímetro abdominal, na redução do colesterol e melhoria dos níveis do HDL, quando comparada com dietas controlo.

Para além dos resultados avaliados, a dieta mediterrânica também parece ser eficaz na redução do risco de fratura (artigo e artigo) e aumento do tamanho dos telómeros, que é um resultado secundário que avalia a longevidade (sugere que a dieta mediterrânica permite aumentar a longevidade).

Estes resultados são validados por estudos semelhantes .

Finalizando, deixo um reparo. O estatuto socioeconómico é extremamente importante no que concerne à adesão à dieta mediterrânica e é uma das causas do excesso de peso/obesidade infantil:

“Most children living in the analyzed countries showed low adherence to a Mediterranean-like diet, which in turn was associated with being overweight/obese. Unhealthier diets were associated with lower maternal educational level and parental unemployment.”

Isto reforça a importância da educação para a adesão a um estilo de vida saudável e, como é óbvio, ter dinheiro faz toda a diferença para conseguir obter alimentos de qualidade. Por essa e outras razões é extremamente importante na área da saúde o debate por condições económicas dignas para toda a população – a não ser que gastem o dinheiro no homeopata/naturopata e outros patas 😀

Concluindo
A dieta mediterrânica será possivelmente a dieta mais bem estudada. É uma ótima dieta, com provas dadas, tanto em termos de saúde global como para a perda de peso. Os gurus que escrevem livros orientados para a vida saudável e perda de peso têm apenas a pretensão – na grande maioria dos casos – de sobressaírem, obterem exposição mediática e desta forma obter ganhos económicos.

Não vou dizer que as outras dietas são más dietas. Na grande maioria dos casos baseiam-se em bons princípios e conseguem obter bons resultados em termos de saúde global e perda de peso.

No entanto, parece-me relevante voltarmos a colocar a dieta mediterrânica no seu devido lugar. Espero ter conseguido fazer isso com este artigo.

“Não é possível convencer um crente de coisa alguma. As suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar.”
Carl Sagan

 

SCIMED

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