Inflamação periférica está mais associada a abuso sexual na infância, idade e IMC do que a transtorno bipolar por si só

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Teresa Santos e Dra. Ilana Polistchuck

Níveis elevados de proteína C-reativa (PCR) têm sido associados ao transtorno bipolar, mas os estudos que compararam indivíduos saudáveis com pacientes portadores do transtorno apresentam heterogeneidade importante[1]. Uma pesquisa que ainda será publicada na CNS & Neurological Disorders – Drug Targets traz informações que ajudam a explicar essa variação: PCR elevada está mais associada a trauma na infância, especialmente abuso sexual, idade e índice de massa corporal (IMC), do que com o diagnóstico de transtorno bipolar por si só[2].

O estudo de caso-controle, que foi desenvolvido durante o mestrado da Dra. Juliana Brum Moraes, psiquiatra, na Universidade Estadual de Londrina (UEL), investigou 142 controles saudáveis e 92 pacientes com transtorno bipolar. Um subconjunto da amostra, composto por 30 pacientes do sexo feminino com transtorno bipolar e 31 mulheres do grupo controle foi entrevistado a fim de investigar a presença de estresse precoce.

Um instrumento de autorrelato – o Childhood Trauma Questionnaire (CTQ) – foi utilizado para avaliar a presença de estresse precoce na amostra. A ferramenta compreende cinco subtipos de trauma na infância: abusos emocional, físico e sexual, além de negligência emocional e física.

Além disso, os pesquisadores coletaram informações sociodemográficas acerca de doenças somáticas e psiquiátricas, e histórico familiar de transtornos mentais por meio de entrevistas clínicas estruturadas. Sintomas depressivos, consumo de álcool e tabaco e tentativas de suicídio foram outros aspectos investigados. Amostras de sangue periférico foram coletadas às oito horas após jejum de 12 horas e níveis de PCR de alta sensibilidade foram mensurados. Também foi calculado o IMC.

O grupo com transtorno bipolar apresentou valores maiores de IMC, mais sujeitos com dependência de nicotina, maior incidência de história de álcool na família, de depressão, e de tentativas de suicídio do que os sujeitos do grupo controle. A prevalência de trauma na infância também foi maior nos pacientes com transtorno bipolar.

Os resultados mostraram que os níveis de PCR foram significativamente maiores no grupo com transtorno bipolar do que nos controles. Mas, após controlar os resultados com IMC, a variação deixou de ser significativa. Cerca de 55% da variância de PCR foi explicada por efeitos cumulativos e independentes de idade, IMC e trauma na infância, especialmente abuso sexual. Abuso sexual isoladamente explicou 16,5% da variância nos níveis de PCR. A associação entre níveis elevados de PCR e trauma na infância, idade e IMC ocorreu tanto em mulheres do grupo controle quanto naquelas com transtorno bipolar.

Sobre o IMC, a Dra. Juliana explica que houve associação positiva entre essa variável e níveis de PCR, ou seja, IMC maior contribuiria para níveis maiores de PCR.

“Obesidade e síndrome metabólica parecem fazer parte de uma progressão do transtorno bipolar, segundo teorias que tentam explicar as implicações sistêmicas de alterações imunes e endócrinas apresentadas por esses pacientes”, diz a psiquiatra. Por outro lado, a relação identificada entre idade e níveis de PCR foi inversa, o que significa que quanto mais jovem, maior o nível de PCR. Este é um achado que, de acordo com a médica, não pode ser fisiopatologicamente explicado, e parece estar mais relacionado com as características da amostra investigada.

A relação positiva entre inflamação periférica e trauma na infância não surpreendeu a equipe. Segundo a pesquisadora, o grupo esperava encontrar um efeito cumulativo nos níveis de PCR nos bipolares com histórico positivo para trauma na infância, uma vez que há estudos que apontam PCR elevada em indivíduos com tal histórico[3,4,5,6,7], bem como em indivíduos bipolares.

“Mas, é interessante notar que apenas abuso sexual apresentou correlação com níveis de PCR; os outros quatro subtipos de trauma na infância investigados não revelaram associação”, afirma.

A Dra. Juliana acredita que os achados observados no estudo mostram a importância de experiências precoces como mecanismo epigenético de gatilho para a manifestação de transtorno bipolar em indivíduos geneticamente predispostos.

“O cuidado com as crianças; protegê-las de situações de maus-tratos é mandatório para garantirmos maiores chances de saúde mental na idade adulta. Pacientes bipolares com histórico de maus-tratos na infância precisam de cuidado ainda maior no tratamento, pois eles também foram associados a comorbidades psiquiátricas, uso de substâncias e risco de suicídio.”

Embora a pesquisa trate de inflamação periférica, a psiquiatra lembra que o uso de anti-inflamatórios no tratamento do paciente com transtorno bipolar não é recomendado: “alguns estudos já tentaram constatar alguma melhora sem resultados”, diz, ressaltando que o mecanismo subjacente dessa alteração fisiopatológica ainda não foi totalmente desvendado.

Médica e equipe estão dando continuidade aos estudos e, em breve, serão publicados dados de pesquisa com uma amostra maior, que investigou marcadores de estresse oxidativo e trauma na infância em pacientes bipolares e controles. “Também procuramos descrever achados de outros subtipos de trauma na infância no transtorno bipolar, uma vez que eles se correlacionam com piora clínica”, completa.

A pesquisa desenvolvida pela Dra. Juliana foi orientada pela psiquiatra Sandra Odebrecht Vargas Nunes e co-orientada pelo farmacêutico-bioquímico Décio Sabbatini Barbosa, ambos da UEL. Contou ainda com colaboração de Thais Ferrari e Marcela Uehara, também da UEL, André Carvalho, da Universidade Federal do Ceará, e Michael Maes, da Deakin University (Austrália). O projeto foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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