O uso de antidepressivos na gestação aumenta o risco de transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade nas crianças?

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Lisa Rapaport

(Reuters Health) – Mulheres com quadro de depressão podem ser mais propensas do que outras mães a terem filhos com transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade (TDAH), mesmo que não tomem antidepressivos durante a gestação, sugere um estudo recente.

Os resultados indicam que pelo menos parte da ligação relatada entre a exposição intrauterina aos antidepressivos e o risco de TDAH nas crianças pode ser explicada por fatores familiares, como a depressão materna, e não pelos medicamentos em si, escreveram os autores do estudo no periódico on-line The BMJ em 31 de maio.

Quando os pesquisadores compararam os filhos de mulheres com transtornos psiquiátricos que tomaram antidepressivos durante a gestação aos das que só tomaram antidepressivos antes da gestação, descobriram que o risco de TDAH entre essas crianças era semelhante. Isso também foi verdade para os irmãos de mesma mãe, mas que tiveram diferentes exposições aos antidepressivos durante a gestação.

“As gestantes não devem parar o tratamento devido à preocupação que seus filhos tenham transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade no futuro”, disse por e-mail o primeiro autor do estudo, Ian CK Wong, PhD, farmacêutico e professor do University College London.

No estudo feito com 190.618 crianças nascidas em Hong Kong de 2001 a 2009, apenas 3% delas foram diagnosticadas TDAH ou foram tratadas por este transtorno após um acompanhamento médio de mais de nove anos.

O tipo de antidepressivo pode ser importante. Os pesquisadores não encontraram associação significativa entre o transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade das crianças e a exposição intrauterina ao inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS).

No entanto, as mulheres que tomaram outros tipos de antidepressivos durante a gestação foram 59% mais propensas a terem filhos com TDAH do que as mulheres que não usaram antidepressivos. Isso pode ser porque as mulheres com depressão mais leve geralmente recebem os inibidores seletivos da recaptação da serotonina primeiro, e tentam outros medicamentos somente quando têm problemas psiquiátricos mais graves, que não são auxiliados pelos inibidores seletivos da recaptação da serotonina, observam os autores.

Mesmo quando as mulheres nunca haviam usado antidepressivos, as mães com transtornos psiquiátricos tiveram 84% mais chances de terem filhos com o transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade do que as mães sem problemas de saúde mental, também constatou o estudo.

Uma limitação da pesquisa é ela só ter incluído crianças que nasceram em hospitais públicos, comentam os autores, mas é onde a maioria dos tratamentos especializados para crianças com problemas de desenvolvimento cerebral é oferecido em Hong Kong. Os pesquisadores também usaram registros de receituários para avaliar se as mulheres tomavam antidepressivos, o que nem sempre reflete os medicamentos que as pessoas realmente tomam.

Quatro dos autores do estudo informam ter recebido honorários no passado ou prestado consultoria para empresas que fabricam antidepressivos, e um dos coautores é funcionário da Janssen Research and Development, LLC, divisão da Johnson and Johnson que está testando um antidepressivo experimental.

Sem tratamento, a depressão durante a gestação está associada a bebês de baixo peso, que são mais propensos a precisar de atendimento em unidades intensivas neonatais, já apontaram pesquisas anteriores. As gestantes com depressão descompensada podem não comer bem ou não fazer o acompanhamento pré-natal e, nos casos mais graves, podem ter maior risco de suicídio.

Como ocorre com muitos medicamentos, o uso de antidepressivos durante a gestação se encontra em uma espécie de limbo, com evidências insuficientes para comprovar definitivamente os seus benefícios ou prejuízos. Muitas vezes, os médicos só prescrevem estes medicamentos para as mulheres com formas mais graves de depressão.

“Como subsistem algumas incertezas sobre o uso de antidepressivos na gestação, ainda faz sentido reservá-los para as mulheres com sintomas psiquiátricos sérios”, disse Wong.

“As gestantes com depressão leve podem se beneficiar de terapias não farmacológicas, como a psicoterapia”, acrescentou ele.

Entretanto, as conclusões do estudo não trouxeram surpresas e devem tranquilizar as mulheres que realmente precisam tomar antidepressivos durante a gestação, disse o Dr. Roy Perlis, médico e pesquisador em psiquiatria da Harvard Medical School, em Boston, que não participou do estudo.

“Ninguém quer tomar medicamentos desnecessários”, acrescentou o Dr. Perlis. “Mas as pessoas às vezes esquecem de que a própria depressão traz riscos.”

FONTE: http://bit.ly/2qXAL3v

BMJ 2017.

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