Imobilidade involuntária durante o estupro é comum e está associada a desfechos negativos

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Tara Haelle

A paralisia temporária, ou “congelamento”, durante uma agressão sexual é muito comum, e aumenta os riscos de síndrome de estresse pós-traumático e depressão grave, relatou um estudo publicado on-line em 7 de junho na Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica.

Os resultados potencialmente complicam uma norma judicial em processos: “O sistema legal busca sinais visíveis de resistência porque, quando isso está ausente, é mais difícil provar uma agressão sexual”, escrevem a Dra. Anna Möller, do Karolinksa Institutet e do Stockholm South General Hospital,na Suécia, e colaboradores.

Embora as respostas às ameaças sejam frequentemente divididas em categorias de “luta ou fuga”, a experiência da imobilidade tônica (IT), já bem estabelecida como possível resposta à ameaça extrema entre animais não humanos, ocorreu entre a maioria das vítimas de estupro na nova pesquisa.

“Nos seres humanos, a imobilidade tônica foi descrita como um estado de inibição motora involuntária e temporária em resposta a situações que envolvem medo intenso”, descrevem os autores.

“Ela foi descrita ainda como um estado semelhante ao estado catatônico com hiper ou hipotonicidade muscular, tremor, falta de vocalização, analgesia e falta de resposta relativa aos estímulos externos”.

O estudo envolveu 298 mulheres que foram a uma clínica de emergência para mulheres estupradas em Estocolmo entre fevereiro de 2009 e dezembro de 2011, no prazo de um mês após a agressão sexual. Os pesquisadores usaram a Escala de Imobilidade Tônica de 12 itens para avaliar a presença do fenômeno no momento da agressão a cada mulher. A média de dias entre o ataque e a avaliação foi de 19,1.

Um total de 69,8% das mulheres relatou ter apresentado imobilidade tônica significativa durante o ataque, e quase metade (47,7%) relatou imobilidade tônica extrema. Oito (81,1%) em 10 mulheres relataram ter sentido medo significativo durante a agressão.

“Legalmente, os tribunais podem estar inclinados a descartar a noção de estupro, já que a vítima parece não ter resistido”, escrevem os autores. “Na verdade, o que pode ser interpretado como um consentimento passivo provavelmente representa reações biológicas normais e esperadas a uma ameaça extrema”.

Os pesquisadores também avaliaram a prevalência de síndrome de estresse pós-traumático e depressão em 189 das mulheres após seis meses. As mulheres tinham probabilidades 2,75 maiores de desenvolver transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) e chances 3,42 maiores de desenvolver depressão grave se tiveram imobilidade tônica (odds ratio), OR, de 2,75, P = 0,001 e OR, 3,42, P = 0,003, respectivamente). Um pouco mais da metade (51%) das mulheres que tiveram imobilidade tônica desenvolveu TEPT em comparação com 28% das mulheres que não tiveram, mesmo depois de ajustar para um diagnóstico prévio de TEPT e para fatores de risco relacionados.

No entanto, “A imobilidade tônica foi associada a trauma anterior e TEPT pré-existente, o que nos ajuda a entender melhor como o trauma cumulativo pode funcionar”, escrevem os autores. As chances de uma mulher ter imobilidade tônica durante a agressão mais que dobravam se elas tivessem uma história de trauma (OR de 2,36; P < 0,001). As mulheres também tiveram o dobro de chances de apresentar imobilidade tônica se tivessem um histórico de tratamento psiquiátrico (OR, 2,00; P = 0,003).

“Isso faz com que seja importante na psicoterapia das vítimas de estupro questionar sobre e explicar tais reações, porque de outra forma elas podem causar culpa ou vergonha, o que pode agravar o trauma”, observam os autores. “O aumento do risco de TEPT e depressão grave mostra que essas mulheres precisam de acompanhamento psiquiátrico”.

Os autores reconhecem várias limitações relacionadas ao potencial de viés, incluindo fatores que podem ter contribuído para a perda substancial de acompanhamento após seis meses. Pesquisas anteriores relataram uma menor incidência de imobilidade tônica, mas esses estudos tiveram amostras de pequenos tamanhos e maior risco de viés de memória.

A pesquisa foi financiada pelo Conselho de Pesquisa Sueco e pelo Conselho do Condado de Estocolmo. Os autores declararam não possuir conflitos de interesses relevantes.

Acta Obstet Gynecol Scand. Publicado on-line em 7 de junho de 2017. Resumo

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