Variabilidade da pressão arterial sistólica em pessoas sem diagnóstico de hipertensão está associada à espessura de íntima-média de carótidas

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Teresa Santos e Dra. Ilana Polistchuck

O Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil) é uma pesquisa de coorte com mais de 15 mil participantes entre 35 e 74 anos de idade de São Paulo (SP), Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA) e Vitória (ES). Dados coletados nessa investigação mostram que há uma associação pequena, mas significativa, entre a variabilidade da pressão arterial sistólica e a espessura de íntima-média de carótidas (EIMC). Esses achados foram publicados em maio deste ano no American Journal of Hypertension[1].

A análise, desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), e por colaboradores da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP-Fiocruz) e da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), avaliou 7.215 indivíduos recrutados no ELSA-Brasil. Os participantes não tinham doença cardiovascular evidente e não faziam uso de anti-hipertensivo.

As medidas de pressão arterial foram obtidas na linha de base da investigação (entre 2008 e 2010). Durante aproximadamente seis horas foram feitas 10 medidas diferentes de pressão arterial em cada participante. Essas aferições foram realizadas com os indivíduos em diferentes posições (deitados, sentados e em pé). Variabilidade da pressão arterial foi definida como o desvio-padrão dessas medidas. A EIMC também foi aferida.

Os resultados mostraram que participantes com maior variabilidade na pressão arterial sistólica tenderam a apresentar maior EIMC. Isso se mostrou verdadeiro mesmo após o emprego de análise para diminuir a influência de outros fatores de risco cardiovasculares tradicionais, como idade, sexo, história familiar, índice de massa corporal (IMC), diabetes e dislipidemia.

Autor do estudo, o Dr. Itamar de Souza Santos, professor-associado do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP, explica que a EIMC é um marcador de aterosclerose subclínica. Segundo ele, existe uma associação, documentada em vários estudos, entre valores médios da pressão arterial e a EIMC[2,3]. Porém, a associação entre EIMC e a variabilidade da pressão arterial é menos estudada.

“A perspectiva para a prática clínica é de que, para indivíduos com um mesmo valor médio de pressão arterial, a variabilidade dessa medida pode estar associada a uma maior progressão da doença aterosclerótica. Para tal, além de observar a média de várias medidas, é necessário verificar se, individualmente, essas medidas estão próximas (baixa variabilidade) ou distantes (alta variabilidade) da média observada”, afirma.

Quando se fala em variabilidade da pressão sanguínea, geralmente se utiliza a estratégia baseada em medições em um período de 24 horas[4,5,6,7,8]. Na pesquisa em questão os autores usaram um período inferior a 24 horas, o que permitiu, por exemplo, excluir variações devido ao período noturno.

Embora o estudo traga um resultado importante, o fato de ser observacional faz com que os resultados não possam ser extrapolados para intervenção na prática clínica. “Os estudos observacionais são um passo importante para a indução de ensaios clínicos que foquem em propostas de intervenção, medindo o custo-efetividade delas. Porém, atualmente, ainda não há evidências fortes para recomendar a identificação de indivíduos com maior variabilidade da pressão arterial na prática clínica ou estratégias para diminuir essa variabilidade visando à redução do risco cardiovascular”, diz o Dr. Souza Santos.

Perspectivas

O ELSA-Brasil é um estudo de coorte com seguimento em longo prazo. O principal objetivo da pesquisa é estudar a incidência e fatores de risco para as doenças cardiovasculares e diabetes. De acordo com o Dr. Souza Santos, isso vai permitir avaliar se a variabilidade da pressão arterial é preditora de desfechos clínicos, como o infarto do miocárdio e o acidente vascular encefálico.

Atualmente está em andamento a terceira avaliação dos participantes do estudo. “Nesta avaliação, a EIMC está sendo aferida novamente. Isso possibilitará também quantificar a influência da variabilidade da pressão arterial na progressão dessa medida”, afirma o Dr. Souza Santos.

O ELSA-Brasil tem apoio do Ministério da Saúde (Departamento de Ciência e Tecnologia) e do Ministério de Ciência e Tecnologia (Financiadora de Estudos e Projetos e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq).

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