SUNSHINE: Vitamina D desacelera a progressão do câncer de cólon

Postado em

Nick Mulcahy

CHICAGO – Nos anos recentes, dados observacionais mostraram que níveis plasmáticos mais elevados de vitamina D estão associados a melhora da sobrevida nos pacientes com câncer colorretal.

Agora, pela primeira vez, um estudo randomizado mostrou que a progressão da doença desacelera com altas doses de suplementos.

Os resultados, provenientes de um ensaio clínico de fase 2 conhecido como SUNSHINE, indicam que uma alta dose de suplementação de vitamina D melhorou significativamente a sobrevida livre de progressão (SLP) por cerca de dois meses quando comparado com uma dose baixa.

O estudo foi conduzido em pacientes com câncer colorretal metastático não tratado previamente. Todos os participantes receberam o tratamento padrão com o regime de quimioterapia mFOLFOX6 (isto é, ácido folínico – leucovorin, fluoracil e oxaliplatina) mais bevacizumabe.

Esse é o primeiro estudo randomizado já completado sobre o uso de vitamina D como uma terapia para o câncer colorretal, disse a autora principal Dra. Kimmie Ng, do Dana Farber Cancer Institute,em Boston, Massachusetts, que apresentou o estudo no Encontro Anual de 2017 da American Society of Clinical Oncology (ASCO).

“Os pacientes pareceram evoluir melhor com as altas doses de vitamina D. Estou realmente animada com os dados”, disse ela ao Medscape.

“Um estudo de fase 3 está garantido”, acrescentou ela.

Outro especialista expressou entusiasmo semelhante sobre o estudo. “Os achados desse estudo são incrivelmente animadores”, disse Song Yao, epidemiologista molecular no Roswell Park Cancer Institute, em Buffalo, Nova York, que foi convidado a comentar.

Os achados desse estudo são incrivelmente animadores. Song Yao

Ele apontou que no Gastrointestinal Cancers Symposium de 2015 da ASCO a mesma equipe mostrou que, em um estudo observacional, pacientes com altos níveis de vitamina D sobreviveram mais do que aqueles com baixos níveis. “Esse novo estudo fornece as tão necessárias evidências baseadas em estudo de desenho randomizado”, comentou.

Uma outra médica já estuda os níveis de vitamina D em pacientes com câncer colorretal.

“Eu avalio os níveis de vitamina D e faço a reposição quando necessário em meus pacientes, mas precisamos de mais dados para saber se isso deve mudar nossa prática”, disse a Dra. Allyson Ocean, oncologista gastrointestinal no Weill Cornell Medicine e do New York–Presbyterian Hospital, em Nova York.

Ela também disse ao Medscape que os resultados são “bem intrigantes”, e que um estudo de fase 3 é necessário.

A Dra. Kimmie relatou que no grupo de dose alta (n=69), a SLP mediana, que foi o desfecho primário, foi de 13,1 meses, comparado com 11,2 meses para o grupo de dose baixa (n=70). Isso se traduz em uma redução de 31% no risco relativo para progressão da doença no grupo de dose alta (hazard ratio não ajustada, 0,69; P = 0,04).

Pacientes do grupo de alta dose receberam uma dose de ataque de 8000UI/dia de vitamina D3 oralmente por duas semanas, seguida de 4000UI/dia. Aqueles do grupo de baixa dose receberam uma dose padrão de vitamina D3 de 400UI/dia.
A mediana de seguimento foi de 16,9 meses no grupo de alta dose e de 17,9 no grupo de baixa dose.

Cada grupo recebeu um número semelhante de ciclos de quimioterapia, e ambos foram igualmente aderentes à suplementação de vitamina D. As localizações primárias dos tumores (cólon direito, esquerdo e transverso) também eram semelhantes para os dois grupos.

A taxa de controle da doença no grupo de alta dose foi de 96% versus 84% no grupo de baixa dose (P = 0,05).

A dose elevada não aumentou a toxicidade. Também houve uma quantidade significativamente menor de diarreia grave (grau 3 e 4) no grupo de alta dose (12% versus 1%; P = 0,02).

Os resultados foram ainda mais impressionantes porque houve um desequilíbrio entre os dois grupos de estudo que favorecia o grupo de baixa dose: 60% daqueles do grupo de baixa dose tinham o melhor performance status possível, versus apenas 42% do grupo de alta dose.

Em outras palavras, o grupo de alta dose evoluiu melhor apesar de ter uma capacidade física pior do que do grupo de comparação.

Notadamente, mais pacientes no braço com altas doses de vitamina D foram capazes de ser submetidos a cirurgia depois da quimioterapia (11 versus 6). No entanto, a diferença não foi estatisticamente significativa (P = 0,19), concordou a Dra. Kimmie. “É um achado intrigante”, disse ela.

O estudo e seus resultados não deixaram de ser notados. “Há grande interesse por parte de cuidadores e pacientes”, disse a Dra. Kimmie.

Dentre os 139 pacientes que foram recrutados e efetivamente participaram do estudo, a maioria era da Nova Inglaterra; uma minoria era de Nashville, Tennessee (na Vanderbilt University).

A geografia pode ter tido um papel nos resultados, sugeriu a Dra. Andrea Cercek, do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, em Nova York, que atuou como debatedora do estudo. Na Nova Inglaterra, disse ela, “existe um pouco menos de luz solar do que em outras partes dos Estados Unidos”.

Isso levantou a questão sobre os níveis prévios de vitamina D dos participantes do estudo (a vitamina D3 é fabricada pela pele humana quando exposta à luz do sol). “Não se sabe se os pacientes tinham deficiência de vitamina D pelos padrões americanos”, disse ela.

Não se sabe se os pacientes tinham deficiência pelos padrões americanos. Dra. Andrea Cercek

A Dra. Andrea também disse que os resultados de outros estudos de suplementação de vitamina D em pacientes com câncer são mistos. Um estudo não indicou redução no risco de adenomas, e outro teve um achado negativo – reduziu a sobrevida em pacientes com câncer de próstata que receberam suplementos de vitamina D.

Com essas ressalvas, ela gostaria de ver mais pesquisas: “Eu concordo 100% com os pesquisadores quanto à necessidade de um estudo de fase 3”.

O estudo foi financiado por National Cancer Institute, Dana-Farber, Consano, Pharmavite e Genentech. Diversos autores do estudo, incluindo a Dra. Kimmie, possuem ligações financeiras com a indústria, incluindo Genentech. Dr. Yao declarou não possuir conflitos de interesses relevantes.

Encontro Anual de 2017 da American Society of Clinical Oncology. Resumo 3506. Apresentado em 5 de junho.

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