Abiraterona: agora na linha de frente do tratamento para câncer de próstata avançado?

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Kate Johnson

CHICAGO – Novos resultados com uso da abiraterona em primeira linha estão prontos para transformar o tratamento inicial do câncer de próstata avançado “praticamente da noite para o dia”, baseados nos achados dos estudos STAMPEDE e LATITUDE apresentados no congresso anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO) de 2017, de acordo com o Dr. Richard Schinlsky, chief medical officer da ASCO.

“Estes dados impulsionarão a abiraterona para o uso em primeira linha”, previu o Dr. Schilsky. Atualmente, o medicamento é aprovado para uso após a falha da terapia de privação de androgênica (ADT), mas os novos dados mostram benefícios substanciais quando ele é usado precocemente, em combinação com a ADT.

Os achados “devem mudar o paradigma do tratamento” na doença recém-diagnosticada, com a abiraterona substituindo amplamente a quimioterapia no paradigma atual, estimou o Dr. Sumanta Kumar Pal, do City of Hope Comprehensive Cancer Center, em Duarte, Califórnia, outro especialista da ASCO, durante a coletiva de imprensa.

Adicionar abiraterona à ADT atinge a produção de testosterona, que alimenta o câncer de próstata, com um “golpe duplo”. A ADT funciona prevenindo a produção de testosterona nos testículos, mas as glândulas adrenais e as células do câncer de próstata continuam fazendo pequenas quantidades de andrógenos. A abiraterona, um inibidor esteroidal de CYP17A1, interrompe a produção de testosterona em todo o corpo, reduzindo ainda mais os níveis hormonais.

Os dados apresentados no dia 3 de junho do estudo britânico STAMPEDE (resumo LBA5003) em quase 2.000 pacientes mostram que, quando a abiraterona (com prednisolona) foi adicionada à ADT, a taxa de sobrevida em três anos aumentou para 83%, em comparação aos 76% da terapia apenas com ADT.

“Nós acreditamos que este é um dos maiores benefícios de sobrevida já relatados em um estudo de um tumor sólido em adultos”, disse o pesquisador principal Dr. Nicholas James, do Queen Elizabeth Hospital, em Birmingham (Reino Unido).

Os resultados do estudo LATITUDE (resumo LBA3)  em quase 1.200 homens mostram que a abiraterona (mais prednisona) adicionada à ADT mais que dobra a mediana da sobrevida livre de progressão para 33 meses, quando comparada à ADT sozinha, com 14,8 meses. Os resultados completos foram apresentados em 4 de junho durante a sessão plenária, mas foram divulgados no dia anterior à imprensa juntamente com os achados do STAMPEDE, uma vez que os resultados do LATITUDE são confirmatórios.

“O benefício do uso precoce da abiraterona que vimos neste estudo é pelo menos comparável ao benefício da quimioterapia com docetaxel, que foi observado em estudos clínicos anteriores, mas a abiraterona é muito mais fácil de tolerar, com muitos pacientes relatando nenhum efeito colateral”, comentou o principal autor do estudo, Dr. Karim Fizazi, chefe do departamento de medicina contra o câncer no Gustave Roussy, Universidade Paris-Sud, Villejuif (França).

“Estes achados indicam que adicionar a abiraterona (com prednisona) à ADT pode ser potencialmente considerado um novo padrão de cuidado para pacientes recém-diagnosticados com câncer de próstata metastático de alto risco”, acrescentou o Dr. Fizazi.

Os resultados dos dois estudos de fase três foram publicados on-line simultaneamente no New England Journal of Medicine ( STAMPEDE  e LATITUDE. )

Benefício geral na sobrevida

O estudo STAMPEDE foi conduzido em 1.917 homens com câncer de próstata avançado virgens de tratamento hormonal, randomizados para tratamento com abiraterona mais prednisolona juntamente com a ADT, ou a ADT sozinha.

Os resultados mostram uma taxa de sobrevida global (TSG) em três anos “altamente positiva” de 83% vs 76%, correspondendo a uma melhora relativa na sobrevida de 37% (hazard ratio, HR, de 0,63; P = 0,0000012) com a adição da abiraterona, relatou o Dr. James.

Cerca de metade (52%) dos participantes apresentava doença metastática. O benefício na sobrevida foi semelhante na doença metastática e na não metastática, acrescentou.

Além disso, houve uma taxa “muito impressionante” de sobrevida livre de falha em três anos de 75% no grupo de tratamento vs 45% no braço com a terapia padrão, correspondendo a uma melhora relativa de 71% no tempo para falha do tratamento (HR, 0,29).

Os eventos adversos foram “semelhantes aos observados na configuração de recidiva”, observou ele, chamando a atenção para os eventos relacionados aos ossos, para os quais houve redução de 55% no grupo experimental. “Nós acreditamos que isso é extremamente importante para os pacientes, e são ótimas notícias”, disse o Dr. James.

Resultados igualmente impressionantes também foram relatados pelo estudo LATITUDE, que foi apresentado posteriormente no congresso.

Nesse estudo, entre 1.199 pacientes similares – todos com câncer de próstata metastático de alto risco recém-diagnosticado – a adição de abiraterona à ADT resultou em uma taxa de mortalidade 38% menor em comparação à ADT sozinha, após um acompanhamento mediano de 30,4 meses, observou Dr. Fizazi.

No entanto, vários efeitos adversos graves foram observados no grupo com abiraterona, incluindo hipertensão (20% vs 10%), hipocalemia (10,4% vs 1,3%) e anormalidades das enzimas hepáticas (5,5% vs 1,3%).

“É extraordinário ver a semelhança do benefício na sobrevida entre os dois estudos nesta população”, comentou o Dr. Pal.

“A terapia hormonal que usa agentes que suprimem a testosterona e/ou a atividade dela, tem sido o pilar do tratamento do câncer de próstata metastático há décadas”, ele comentou durante a coletiva de imprensa.

“Alguns anos atrás, o paradigma do tratamento para o câncer de próstata foi abalado pelo estudo CHAARTED, que mostrou um benefício na sobrevida associado à adição de quimioterapia à terapia hormonal neste cenário”, ele continuou. Estes novos dados fornecem uma alternativa importante à quimioterapia, mais especificamente o uso da abiraterona.

“Embora seja difícil colocar os dados existentes de quimioterapia e abiraterona lado a lado, à primeira vista, parece que o benefício na sobrevida espelha ou excede o benefício que temos visto com a quimioterapia”, comentou Dr. Pal. “Mas a quimioterapia traz consigo toxicidades significativas, como danos neurais, fadiga e diminuição das contagens sanguíneas com as quais frequentemente é muito difícil lidar. A abiraterona traz níveis iguais ou maiores de eficácia contra o câncer de próstata, com muito menos efeitos colaterais”.

“Esses dados devem remodelar imediatamente nossos algoritmos de tratamento para o câncer de próstata, e a abiraterona com terapia hormonal convencional deve se tornar um novo padrão de tratamento para homens com doença metastática de alto risco”, disse ele.

Outros especialistas também receberam bem os novos dados.

“Os resultados do LATITUDE e do STAMPEDE fornecem informações importantes e que provavelmente mudarão a prática”, comentou o Dr. Thomas Flaig, da University of Colorado School of Medicine, quando contatado pelo Medscape.

“Esses dados são certamente impressionantes e inequívocos e, sem dúvida, contribuirão para a evolução do padrão de tratamento para pacientes com doença metastática”, concordou o Dr. Charles Ryan, de Helen Diller Family Comprehensive Cancer Center, da University of California, emSan Francisco.

“Ao ampliar a duração e a proporção daqueles que se beneficiam da terapia hormonal, o estudo também destaca a necessidade da comunidade científica continuar a abordar os mecanismos de resistência hormonal, que ainda surgiu na maioria dos pacientes”.

Dr. Matthew R. Zibelman, professor-assistente no Departamento de Hematologia e Oncologia do Fox Chase Cancer Center, Filadélfia, Pensilvânia, comentou: “O padrão de cuidado para este grupo de pacientes é atualmente a quimioterapia. O benefício real aqui é que, além da quimioterapia, nos pacientes de maior risco, agora temos uma opção de tratamento oral que pode ter menos toxicidade com benefício similar no longo prazo, em pacientes recém-diagnosticados com câncer de próstata metastático sensível à castração”.

No entanto, Dr. Otis Brawley, chief medical and scientific officer da American Cancer Society, advertiu sobre pular muito rapidamente para as conclusões.

“A terapia hormonal para o câncer de próstata causa doença cardíaca, e há alguns de nós que por muito tempo têm se preocupado que um pouco do declínio na mortalidade do câncer de próstata é, na verdade, uma transferência da causa de morte para a doença cardíaca. Na verdade, isto é mostrado em toda terapia hormonal que vemos em câncer de próstata “, disse ele.

“Para mim, o desafio é perceber que se trata de uma faca de dois gumes. Usarei esses medicamentos para tratar meus pacientes com câncer de próstata, mas serei seletivo. Para pacientes com história de diabetes ou doença arterial coronariana, talvez não. Haverá uma demanda dos pacientes devido às informações maravilhosas que estão sendo ditas – e tenha em mente que estou reconhecendo que algumas dessas informações maravilhosas são realmente maravilhosas, mas nós, como médicos, precisamos ter muito cuidado”.

Congresso anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO) de 2017. Resumo LBA5003 (STAMPEDE) foi apresentado em 3 de junho de 2017. Resumo LBA3 (LATITUDE), apresentado em 4 de junho de 2017.

O estudo STAMPEDE foi financiado por Cancer Research UK, Medical Research Council, e Janssen, com contribuições adicionais de Astellas, Clovis Oncology, Janssen, Novartis, Pfizer e Sanofi-Aventis. Dr. James declarou trabalhar ou ter trabalhado como colaborador ou conselheiro de Sanofi, Bayer, Merck, Astellas, Janssen; trabalha ou trabalhou como porta-voz ou membro de um grupo de porta-vozes para Pierre Fabre, Ferring, Sanofi, Astellas; recebeu honorários de Sanofi, Bayer, OncoGeneX, Janssen, Astellas, Pierre Fabre; e recebeu verba para pesquisa de Janssen, Astellas, Pfizer, Sanofi e Novartis. Dr. Flaig não estave diretamente envolvido em ambos estudos, mas declarou ter trabalhado como pesquisador principal local e recebido verba para pesquisa de Cougar/Janssen para despesas de outros ensaios clínicos com abiraterona.  Dr. Ryan declarou trabalhar ou ter trabalhado como colaborador ou conselheiro e receber ou ter recebido honorários de Janssen.

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