DIARREIAS DE ETIOLOGIA INFECCIOSA

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Dr EGAS MOURA PEDIATRIA – PORTUGAL

DIARREIAS DE ETIOLOGIA INFECCIOSA

A gastroenterite aguda (GEA) permanece uma das causas mais comuns de mortalidade em idade pediátrica, em países em desenvolvimento. A maioria das mortes acontece em zonas onde o acesso a água potável e cuidados de saúde são limitados. Neste contexto episódios frequentes de infecção intestinal contribuem para a má-nutrição ao interferirem com a absorção de nutrientes, ao catabolismo aumentado provocado pela infecção e à redução da ingestão pelos vómitos. Na Europa, a maioria dos casos apresenta um curso leve a moderadamente severo e a evolução fatal é rara.

Em Portugal a GEA é causa comum de hospitalização e importante problema de saúde pública.

A GEA resulta da infecção do tracto gastrointestinal por variados agentes patogénicos que alteram a função intestinal.

A doença diarreica aguda é uma das principais causas de morbidade e mortalidade infantil nos países em desenvolvimento e um dos fatores que mais contribui para o agravamento do estado nutricional das crianças.

Estima-se que a cada ano em todo o mundo, um bilião de crianças padeça dessa doença com uma mortalidade em torno de quatro a cinco milhões de casos. Num país em desenvolvimento, crianças com idade inferior a 5 anos podem ter entre três a cinco episódios diarreicos/ano.

A diarreia pode ser acompanhada de anorexia, vômitos, perda aguda de peso, febre ou perda de sangue. A desidratação pode se instalar quando a diarreia é grave ou prolongada. Mesmo na ausência da desidratação, a diarreia crônica geralmente leva a perda de peso ou incapacidade de ganhar peso.

A diarreia é um problema pediátrico comum que causa 2 a 3 milhões de mortes/ano no mundo todo. No Brasil, de acordo com os indicadores de mortalidade, no ano de 2011 ocorreram 3449 óbitos relacionados à diarreia e à gastroenterite de origem infecciosa presumível.

Nos EUA, é responsável por cerca de 9% das hospitalizações de crianças < 5 anos de idade.

Cerca de 40% dos casos de diarreia nos primeiros 5 anos de vida devem-se ao Rotavírus e 30% a outros vírus. Em 20 a 30% são identificados agentes bacterianos (Salmonella, Campylobacter jejuni, Yersinia enterocolítica, E. coli enteropatogénica ou Clostridium difficile).

Nos países do Sul da Europa, como Portugal, a Salmonella é a bactéria mais frequentemente envolvida.

Fisiopatologia

A diarreia em crianças define se como a perda excessiva de água e electrólitos através das fezes, resultando no aumento do volume das fezes (< 200 mg/dia ou 10 ml/kg/dia), frequência, diminuição da consistência das mesmas, de forma diferente do padrão habitual no individuo. Em termos práticos podemos dizer que define se pela ocorrência de três ou mais dejecções de fezes amolecidas e aquosas.

Mas é preciso ter em atenção que lactentes amamentados no peito e que ainda não recebem alimentação sólida apresentam, frequentemente, evacuações moles e consideradas normais.

Os mecanismos da diarreia podem ser:

  • Osmóticos: resulta da presença de solutos não absorvíveis no trato GI, como no caso da intolerância à lactose. A diarreia é interrompida com a remoção do alimento causador, durante 2 a 3 dias.
  • Secretórios: é o resultado da presença de substâncias (p. ex., toxinas bacterianas) que aumentam a secreção de íons Cl e água no lúmen intestinal. Esse tipo de diarreia não é interrompido com o jejum.
  • Inflamatórios: está associada a condições que provocam inflamação ou ulceração da mucosa intestinal (p. ex., doença de Crohn, colite ulcerativa). O extravasamento de plasma, proteínas séricas, sangue e muco aumenta o bolo fecal e o conteúdo de fluidos.
  • Má-absorção: é o resultado de mecanismos osmóticos ou secretórios ou situações que diminuem a superfície de absorção intestinal. A síndrome do intestino curto e situações que aumentam a velocidade do trânsito intestinal causam diminuição da absorção e diarreia.

Alterações na motilidade intestinal eventualmente justificam diarreia em crianças. Citamos como exemplo a síndrome do cólon irritável, a síndrome do intestino curto (ressecção intestinal maciça) e o hipertiroidismo.

As causas e o significado da diarreia diferem, dependendo de ser:

  • aguda (< 2 semanas): má absorção de água e electrólitos, habitualmente de origem infeciosa.
  • persistente (> 2 semanas): cerca de 10% causam problemas nutricionais e contribuem para o aumento da mortalidade. Algum factor como a introdução recente de leite de vaca e ou desnutrição, impede a regeneração do enterócito, após o quadro agudo.
  • crónica (> 1 mês): pode haver ou não síndrome mal absorção associado

As formas agudas são a maioria dos casos.

Há várias formas de classificar estes quadros clínicos, descrevemos este entre outros.

A Diarreia Aguda é geralmente causada por:

  • Gastrenterite (virica, bacteriana, parasitária)
  • Uso de antibióticos
  • Alergia alimentar
  • Intoxicação por alimentos

A maioria das diarreias é de origem vírica. Entretanto, qualquer agente patogênico entérico pode causar diarreia aguda.

Os agentes infecciosos e os erros alimentares são as principais causas de diarreia na infância, sendo a infecção a etiologia mais importante nos países de clima temperado e/ou tropical. Sabemos que a diarreia aguda na infância representa um dos principais factores de agravamento da desnutrição. Contribuem para este fenómeno: baixa ingestão calórica (anorexia dos estados infecciosos, jejum e/ou dietas restritivas), má absorção de nutrientes e o aumento das necessidades alimentares durante o processo diarreico.

A diarreia aguda é mais grave e prolongada em lactentes desnutridos e nos primeiros anos de vida, perpetuando o ciclo: diarreia versus desnutrição.

Os achados a seguir são particularmente preocupantes:

  • Taquicardia, hipotensão e letargia (significando desidratação)
  • Sangue nas fezes e intensa dor abdominal (vólvulo, intussuscepção, obstrução parcial)
  • Sangue nas fezes, febre, petéquias e púrpura (síndrome hemolítico-urémica)

A Diarreia Crónica é geralmente causada por:

  • Fatores dietéticos
  • Infecção
  • Doença celíaca (entre outras…)

A diarreia crônica também pode ser causada por disfunções anatômicas e por aquelas que interferem na absorção ou na digestão.

Etiologia

A patologia Gastrointestinal (GI) de etiologia infecciosa tem um espectro alargado de manifestações clínicas dependentes do microrganismo infectante, variando de inconsequente a doença letal. A transmissão na maioria dos casos é fecal-oral.

As más condições de higiene, o estado imunitário do hospedeiro e o patógeno envolvido são factores determinantes neste processo. As condições climáticas são outro factor a considerar.

A Diarreia Infecciosa Aguda é, de acordo com alguns estudos, a segunda causa de doença mais comum em todo o mundo. Os agentes etiológicos podem ser parasitas, vírus e bactérias.

A diarreia é a manifestação principal da infecção bacteriana do intestino. A cada ano que passa surgem novos microrganismos capazes de produzir doença.

A transmissão faz se por:

  • via directa (contacto com mãos, lábios ou objectos contaminados)
  • via indirecta (alimentos ou água contaminados)
  • Transmissão por vectores: ex.- moscas.

A transmissão por via directa pode ser drasticamente reduzida com a melhoria das condições de higiene pessoal e doméstica. De igual modo as outras vias de transmissão beneficiam de modo positivo com uma rede de esgotos eficiente e o abastecimento de água potável a todas as populações.

A vermelho produzem quadros de disenteria (presença de muco, sangue e pus nas fezes). As sublinhadas produzem toxinas.

Agentes Etiológicos e Manifestações Clínicas Mais Comuns

 

diarreia

  1. Agentes Viricos
  2. Rotavírus

Representa a causa mais comum de diarreia intensa com desidratação no início da infância. A cada ano os rotavírus infectam, ao nível planetário, 111 milhões de crianças com menos de cinco anos, que apresentam quadros clínicos de diarreia e são tratadas em casa. Cerca de 25 milhões de crianças em cada ano procuram tratamento médico e 2 milhões de crianças nesta faixa etária são hospitalizadas; são observadas 440 mil mortes entre os casos mais graves, ou seja, 1.205 mortes por dia em todo o mundo. Em países extremamente pobres, os rotavírus são responsáveis por 82% das mortes em crianças com menos de cinco anos.

No Brasil, a frequência de diarreias associadas ao rotavírus varia entre 12% a 42% e o Ministério da Saúde estima que hoje cerca de 2.500 crianças de menos de cinco anos morrem por ano.

Tem como característica microbiológica a forma de um icosaedro de revestimento duplo semelhante a uma roda, que contém 11 segmentos de RNA de duplo filamento. Os rotavírus classificam-se por grupo (A, B, C, D, E), subgrupo (I ou II) e sorotipo. O grupo A inclui os patógenos humanos comuns. A infecção é mais comum nos meses de inverno nas regiões de clima temperado. A maior parte dos casos ocorre em crianças menores de 2 anos, porém maiores de 3 meses. Propaga-se eficientemente por via fecal-oral. É excretado nas fezes antes e após a doença clínica. Surtos são comuns em creches e unidades de saúde.

O pródromo, geralmente é pseudo-gripal, a criança pode ter inclusive coriza, ou tosse, seguindo uma febre não muito elevada.

Manifesta-se clinicamente após um período de incubação geralmente menor que 48 horas, com febre e vómitos seguidos de evacuações frequentes e fezes aquosas, que persistem entre 5 a 7 dias. As fezes não têm sangue ou leucócitos. A desidratação instala se rapidamente e as vezes, a criança desidrata se antes de ter a diarreia, pelos vómitos. A recuperação ocorre com tratamento rehidratante adequado.

Acredita-se que a diarreia seja devido à destruição das células epiteliais do topo das vilosidades do intestino delgado. Estas têm função digestiva (hidrólise de dissacarídeos) e absortiva (água e eletrólitos). Desta forma, com a infecção existe uma menor capacidade de digerir açúcar, atraindo por osmose líquido para o intestino.

Ao mesmo tempo, o processo de transferência de sódio e água que depende da absorção de açúcar no intestino superior torna-se menos eficaz. O efeito global é uma perda significativa de eletrólitos e água.

O resultado é diarreia, seguida de desidratação. São mais propensas a adquirir esta infecção, as crianças desnutridas e aquelas com doença intestinal subjacente. Felizmente, nesta infecção a criança não tem toxemia – quer dizer que, controlando se a desidratação, habitualmente a doença tem evolução favorável.

O diagnóstico diferencial inclui algumas gastroenterites virais (adenovírus entérico, astrovírus, calicivírus), outras causas infecciosas (bactérias e protozoários) e, mais raramente, condições cirúrgicas (obstrução intestinal, apendicite). As enterites virais aumentam a permeabilidade intestinal para macromoléculas no interior do lúmen do intestino, aumentando a probabilidade do surgimento de alergias alimentares.

O diagnóstico é confirmado com ensaio imuno-enzimático de amostras fecais, que identificam o Rotavírus do grupo A com uma sensibilidade e especificidade de 90%.

Os principais objetivos da terapia são a prevenção e o tratamento da desidratação e, secundariamente, a manutenção do estado nutricional. A rehidratação é administrada por via oral por 4-6 horas e, logo de seguida, inicia-se a alimentação. O aleitamento materno não deve ser descontinuado durante a reidratação. Nos casos de desidratação grave administram-se líquidos por via intravenosa.

  1. Agentes bacterianos:

 

  1. Escherichia coli

Faz parte da flora intestinal, sendo, no entanto, considerada uma das causas mais comuns de diarreia em todo o mundo. Afecta particularmente os viajantes. Tem vários mecanismos capazes de produzir doença, havendo grande dificuldade em distinguir as formas patogénicas das comensais. Transmitida do animal ao homem através da cadeia alimentar, pode originar grandes epidemias sobretudo nos países com más condições de higiene.

Identificada por serotipos:

  • Escherichia coli enterotoxigénica produz uma ou mais toxinas secretoras capazes de provocarem diarreia, sem dano histológico. Crianças não imunes e viajantes são os grupos de maior risco.
  • Escherichia coli enteropatogénica é uma causa importante de diarreia aguda e persistente, não produzindo toxinas conhecidas, mas colonizando o intestino delgado e originando lesões características
  • Escherichia coli enteroinvasiva é causa de disenteria com invasão das células epiteliais do cólon de modo semelhante à Shigella spp.
  • A Escherichia coli enterohemorrágica é uma causa de infecção associada a colite hemorrágica, síndrome hemolítico-urémico e PTT (púrpura trombocitopénica trombótica). O serotipo 0157:H7 responsável por estas situações é uma das causas de intoxicação alimentar.
  1. Shigella spp

Atinge as células epiteliais do cólon com posterior invasão dos tecidos, originando diarreia aquosa ou disenteria. É uma enterobacteriácea que difere da Escherichia coli pela sua incapacidade em produzir gás na presença da glicose, de fermentar a lactose e não possuir mobilidade. Produz a toxina Shiga (Shigella dysenteriae), com efeito citotóxico, enterotóxico e neurotóxico. Há 4 serogrupos (A-D) que correspondem ás espécies: Shigella dysenteriae, flexneri, boydi e sonnei. As formas graves de doença ocorrem com a Shigella dysenteriae. O homem é o hospedeiro natural deste microrganismo, sendo a transmissão entre indivíduos possível pela via fecal-oral.

  1. Campylobacter spp

Responsável por muitos casos de diarreia e de disenteria. A via de transmissão mais frequente é provavelmente o contacto com animais (cães, cabras, ovelhas, etc.) e produtos alimentares infectados.

Os alimentos mal cozinhados, principalmente o frango, são fonte importante de infecção.

O Campylobacter jejuni é a espécie mais importante na infecção humana. O C. fetus é causa de diarreia sobretudo em imunodeficientes. Tanto Campylobacter coli, como o Campylobacter hyointestinalis ou o Campylobacter laridis raramente causam doença. O Campylobacter fennelliae e o Campylobacter cinaedi podem originar quadros de gastroenterite em homossexuais masculinos. O período de incubação médio varia de 24 a 72 horas, podendo, no entanto, prolongar-se até aos 10 dias.

Os sintomas de campylobacteriose variam de portador assintomático a diarreia aquosa e disenteria.

  1. Yersinia spp

A Yersinia enterocolitica é responsável por um largo espectro de quadros clínicos, variando de gastroenterite a colite invasiva e ileíte. A Yersinia spp é encontrada nos lagos e em animais (gatos, vacas, galinhas e cavalos). A transmissão do microrganismo faz-se através de alimentos e animais.

Surtos epidémicos estão relacionados com a ingestão de leite e gelados contaminados. Segundo alguns autores, os picos de doença são observados no fim do Outono e início do Inverno na Europa. Os serotipos mais comuns entre nós são: O:3 e O:9.

Invade preferencialmente o epitélio intestinal cobrindo as placas de Peyer, atinge o tecido linfóide, multiplica-se nos folículos e posteriormente propaga-se à lâmina própria adjacente. Durante a invasão, o intestino afectado apresenta-se hiperemiado, ulcerado e com infiltrado neutrofílico. A hiperplasia linfóide origina adenite mesentérica que simula apendicite.

  1. Colite Pseudomembranosa

O Clostridium difficile é o agente etiológico responsável por esta patologia. Produz duas toxinas (A e B) capazes de provocarem doença. A toxina A está associada à colite e a toxina B induz toxicidade celular, usada em laboratório para diagnóstico.

Quadro clínico variável de diarreia inespecífica a colite pseudomembranosa. O Clostridium existe em animais domésticos (gatos e cães), recém-nascidos e no meio ambiente. Atinge países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento. Quando há alterações no equilíbrio da flora intestinal em consequência de terapêuticas antimicrobianas, quimioterapia, cirurgia abdominal ou alterações da motilidade intestinal, estão criadas as condições para estabelecimento da doença clínica. Quase todos os antibióticos estão associados a colite pseudomembranosa da responsabilidade do Clostridium difficile, com particular realce para a Clindamicina, Ampicilina, Amoxicilina e Cefalosporinas.

  1. Salmonellas não – typhi

Pertencem à família das enterobacteriáceas, sendo a maioria móvel, com capacidade para produzir gás e ácido a partir da glicose, manitol e sorbitol. A sua presença é frequente na água dos rios, mares e esgotos, contaminando alimentos, o que as tornam a primeira causa de intoxicação alimentar, com grande impacto social e económico a nível mundial. Assim alimentos crús e ovos contaminados são a principal fonte de infeccão. É nos meses quentes que existe o pico de incidência de infecção por esta bactéria. A transmissão fecal-oral ocorre de contacto com alimentos, mãos, fezes, moscas e objectos contaminados. Os principais quadros clínicos resultantes da infeccão por esta bacteria são:

  • Gastroentrite
  • Bacteriémia
  • Infeccões localizadas
  • portadores assintómaticos.

O diagnóstico definitivo baseia-se na positividade das coproculturas e hemoculturas.

  1. Agentes parasitários – Protozooses

O modo como os protozoários lesam o intestino ainda é incerto. Sabe-se, por exemplo, que a Giardia lamblia adere ao enterócito, lesa a sua bordatura em escova, originado má absorção; alguns factores como imunidade, HLA e crescimento bacteriano podem influenciar. Os mecanismos pelos quais a ameba e o Cryptosporidium invadem a mucosa ainda não foram totalmente esclarecidos.

A transmissão e fecal-oral (agua contaminada e alimentos), também pode ser interpessoal.

Exames Auxiliares de Diagnóstico

São desnecessários na maioria dos casos de diarreia aguda autolimitada. Entretanto, se a avaliação sugerir uma etiologia diferente da gastrenterite viral, os exames deverão ser dirigidos para a etiologia suspeita.

Tratamento

Na orientação terapêutica de crianças com gastroenterite aguda (GEA) existe uma grande variabilidade de condutas, sendo comum a prescrição de variados fármacos, assim como oferecer-se dietas e solutos orais sem utilidade prática ou mesmo prejudiciais.

Nas crianças com GEA será importante reconhecer-se:

  • A maioria não necessitaria duma avaliação médica, uma vez que, em regra, as GEA evoluem espontaneamente para a cura em 3 a 7 dias, apenas necessitando de uma adequada rehidratação oral;
  • Justificar-se-á sempre recorrer ao médico, sem demora, se presentes um ou mais dos «Sinais de Alerta» das GEA;
  • A principal complicação a recear duma GEA é a desidratação.
  • O mais importante dos cuidados será o de compensar as perdas gastrointestinais em água e electrólitos;
  • Em regra, a desidratação secundária a uma GEA surge nos primeiros 2 dias da mesma, sendo excepcional tornar-se evidente para além deste período da doença;
  • Existem comercializadas soluções orais de rehidratação (SOR) equilibradas, já reconstituídas ou a reconstituir com água, que poderão tratar ou prevenir uma desidratação, contudo não interferem com a duração da GEA;
  • Numa criança consciente não existe desidratação sem sede intensa. Se esta for respeitada, e a criança e esta conseguir beber as SOR e não as vomitar repetidamente, será improvável a ocorrência de desidratação;
  • As bebidas comercializadas, como a Coca-Cola®, o IceTea®, o chá preto, etc., são mais prejudiciais do que úteis no tratamento duma GEA. Além de serem pobres em electrólitos e ricas em sacarose, poderão agravar a diarreia pela acção osmótica da sacarose, sem beneficiar a absorção de iões e água e, contêm ainda cafeína, expondo as crianças aos efeitos secundários desta; Se as crianças com GEA não tiverem sede, acabarão por recusar qualquer um destes líquidos (têm mau sabor), o que será um bom indicador do bom ou do razoável estado de hidratação. Pelo contrário, merecem uma vigilância muito mais apertada as que beberem avidamente essas SOR. Os doentes desidratados, em regra, aceitam bem as SOR.
  • Em países subdesenvolvidos onde não são raros os casos de cólera e as diarreias tipo-cólera, usam-se SOR mais ricas em electrólitos e SOR preparadas com caldos de arroz. Estas SOR, nas concentrações padronizadas, sem excessos de arroz nem de sal, têm-se mostrado úteis na RHO, com redução do volume e da duração das diarreias da cólera ou tipo-cólera;
  • As crianças devem manter o leite habitual, não se justificando fazer- -se qualquer diluição do leite. Excepcionalmente haverá necessidade do recurso a leites «especiais»;
  • As crianças devem manter também a alimentação sólida normal habitual, dando-se preferência às dietas ligeiras de fácil digestão;
  • Em regra, não tem utilidade prática a realização de exames complementares, mesmo nos casos de fezes com sangue e/ou muco abundante;
  • Nas situações comuns não estão indicados fármacos, particularmente: antibióticos, loperamida, inibidores da secreção intestinal. Alguns destes fármacos serão mesmo prejudiciais; os probióticos, as leveduras e os prébióticos são de utilidade controversa.

As causas específicas devem ser tratadas (p. ex., dieta sem glúten para crianças com doença celíaca).

No tratamento devemos valorizar a hidratação, que geralmente é oral; sendo que a intravenosa (IV) é raramente considerada essencial.

  • Rehidratação

Solução oral para reidratação (SOR) deve conter carboidratos complexos ou 75 mEq/l de glicose e 75 mEq/l de sódio (solução total 245 mOsm/l). Bebidas desportivas, sodas, sumos e similares não obedecem a esses critérios e não devem ser utilizados. Estas bebidas geralmente têm muito pouco sódio, muitos carbohidratos favorecendo o cotransporte sódio/glicose e o efeito osmótico do excesso de carbohidratos pode resultar em perda adicional de fluidos.

A SOR é recomendada pela OMS e está amplamente disponível, mesmo sem prescrição. Soluções pré-mistas também estão disponíveis na maioria das farmácias e dos supermercados.

São usadas quantidades pequenas e frequentes, começando com 5 ml a cada 5 min, aumentando-se gradualmente, dependendo da tolerância (Reidratação oral). No geral, administram-se 50 ml/kg durante 4 h para desidratação leve e 100 ml/kg durante 4 h para desidratações moderadas. Por cada evacuação diarreica, adicionam-se 10 ml/kg (até 240 ml). Após 4 h, o paciente é reavaliado. Se os sinais de desidratação persistirem, repete-se o mesmo volume.

  • Dieta e nutrição:

Quando a criança estiver reidratada e a não vomitar, a dieta, própria para a idade, deve ser restabelecida. O lactente pode retomar o leite materno ou a o biberão.

No caso da diarreia crônica, a nutrição adequada deve ser mantida, particularmente as vitaminas lipossolúveis.

Mas atenção pois existe uma tendência para extrapolar para as crianças os tratamentos preconizados para os adultos, entre eles os antibióticos. Estes, apesar de muito prescritos em qualquer grupo etário, poucas vezes estão indicados nas GEA das idades pediátricas. Nas crianças, a larga maioria das GEA são víricas. Nestas, ao agravar os desequilíbrios na flora intestinal, os antibióticos, além de inúteis, são prejudiciais. Mesmo nas diarreias bacterianas, com ou sem sangue e muco, os antibióticos não reduzem significativamente nem as manifestações clínicas, nem a duração da doença. Por outro lado, aumentam a taxa do estado de portador-são e, inclusive, a taxa de recidivas de algumas GEA (por exemplo nos casos de Salmonella spp).

Nas GEA comuns das idades pediátricas, por rotina não se recomendem antibióticos. São excepções as seguintes situações muito específicas:

  1. Infecções provadas por:
  2. Shigella spp (situação excepcional nos dias de hoje;
  3. Campylobacter jejuni (especialmente nas situações tipo disenteria, com muco e sangue ocorridas em ambiente de creche);
  4. Clínica compatível com doença invasiva;

Pontos-Chave

  1. Diarreia é uma preocupação pediátrica comum.
  2. Gastrenterite é a causa mais comum.
  3. Na diarreia aguda, os exames são raramente necessários.
  4. Desidratação é provável se a diarreia for grave ou prolongada.
  5. Rehidratação oral é eficiente na maioria dos casos.
  6. Antidiarreicos (p. ex., loperamida) não são recomendados para lactentes e crianças pequenas.

«Sinais de Alerta» das gastroenterites agudas (SAGA):

  • Idade inferior a 3 meses;
  • Sede intensa, não saciável pelas SOR;
  • Olhos muito encovados de aparecimento recente;
  • Vómitos mantidos no intervalo das refeições, e que impedem a RHO;
  • Vómitos biliares (de cor verde carregado);
  • Dejecções muito frequentes (mais de 6 em 12 horas);
  • Várias dejecções muito volumosas (que saem muito da fralda);
  • Prostração (sonolência excessiva, não segurando o tronco nem a cabeça);
  • Dor abdominal muito intensa e/ou contínua;
  • Defesa à palpação abdominal;
  • Irritabilidade mantida, e que não melhora com as SOR para a RHO;
  • Não melhoria do estado geral com as SOR para a RHO;
  • Crianças com doenças crónicas debilitantes / défices imunitários;
  • Crianças já previamente desnutridas;
  • Condições familiares e/ou sociais desfavorecidas.

Embora não sejam sinais muito preocupantes, poderão justificar avaliação

médica, mas com menos urgência:

  • Diarreia com muco e sangue;
  • Febre alta (>39,5ºC axilar) e difícil de ceder;
  • Diarreia prolongada (superior a 8 dias).

Como se previne a Gastrenterite?

A melhor forma de evitar a gastroenterite é através do cumprimento de medidas de higiene. É essencial lavar sempre as mãos depois de ir à casa de banho, antes de manusear alimentos e depois de se tratar do jardim ou de lidar com animais de estimação.

Não se devem partilhar toalhas de uma pessoa que tenha gastroenterite e as casas de banho que essa pessoa utilizar devem ser lavadas regularmente.

Os doentes com gastroenterite não devem ir à escola ou ao trabalho até pelo menos 48 horas depois da última diarreia ou vómito, para evitar infectar outras pessoas.

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Um comentário em “DIARREIAS DE ETIOLOGIA INFECCIOSA

    Anônimo disse:
    06/10/2017 às 18:11

    Muito bom

    Curtir

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