Assédio digital exacerba problemas de saúde mental

Postado em Atualizado em

Deborah Brauser

SAN DIEGO, Califórnia — O assédio exercido por meio de mídias sociais pode exacerbar uma patologia de saúde mental existente em adolescentes, sugere uma nova pesquisa.

Um pequeno estudo de 50 participantes com idades entre 13 e 16 anos internados em uma unidade psiquiátrica mostrou que aqueles que haviam sido vítimas de bullying digital tiveram pontuações significativamente maiores em medidas de depressão, raiva e sintomas dissociativos do que aqueles que não foram vítimas desse tipo de constrangimento.

Além disso, houve uma associação significativa entre ser vítima de bullying digital e uma história de abuso emocional.

“Isso é interessante porque o bullying pela internet é feito por meio de medidas emocionais”, disse ao Medscape a autora, Dra. Samantha B. Saltz, Jackson Memorial Hospital, da University of Miami, na Flórida.

Dra. Samantha Saltz

Os resultados foram apresentados em uma entrevista coletiva no Encontro Anual de 2017 da American Psychiatric Association (APA).

A moderadora da sessão Dra. Ranna Parekh, diretora da Divisão de Diversidade e Equidade na Saúde da APA, observou que, como ex-psiquiatra de crianças e adolescentes, se sentia feliz por ver discussões sobre o tópico a fim de orientar a comunidade médica.

Dra. Ranna Parekh

“Pergunte aos pacientes sobre isso, não apenas diretamente sobre a vitimização, mas também se eles já foram espectadores e viram isso acontecer, porque o trauma sofrido por empatia a outro é uma questão crítica”, disse a Dra. Ranna. “Além disso, é importante saber quais são os insultos ou exemplos de bullying” para um determinado paciente.

“Local perigoso”

A Dra. Samantha observou que há muitos benefícios do uso da internet para os jovens, incluindo permitir comunicação com amigos e “ajudá-los a construir habilidades técnicas”. No entanto, também existem vários riscos, especialmente em relação às mídias sociais.

Os Centers for Disease Control and Prevention (CDC) relataram que entre 13% e 46% das vítimas de bullying digital não conhecem seus infratores, e 22% dos infratores não sabem de verdade a identidade de suas vítimas, disse a Dra. Samantha.

“A internet pode ser um lugar perigoso, no qual crianças e adolescentes podem se esconder atrás de identidades falsas e falar com estranhos. E isso tem consequências”, disse ela, acrescentando que, nos casos mais graves, pode até levar ao suicídio.

“Dessa forma, sentimos que precisávamos pesquisar esse assunto”.

Em 2015, os pesquisadores publicaram resultados no Journal of Depression and Anxiety mostrando que o bullying digital era comum em uma unidade psiquiátrica de Miami entre um grupo com idades entre 11 e 17 anos. Houve também uma associação significativa entre ser vítima de bullying digital e ter uma maior pontuação no Rastreio para Transtornos Emocionais Relacionados a Ansiedade Infantil e na Escala de Autoconhecimento Infantil de Piers-Harris.

No estudo atual, os pesquisadores avaliaram 50 jovens internados no Four Winds Hospital, em Katonah, Nova York, entre setembro de 2015 e novembro de 2016. Todos completaram a Lista de Sintomas de Trauma para Crianças, o Questionário de Trauma Infantil e o Questionário de Bullying Digital Modificado. Eles também foram questionados sobre o próprio uso de mídia social.

“Descobrimos que os pacientes estavam muito envolvidos em mídias sociais”, disse a Dra. Samantha, com 86,3% relatando acesso a um telefone celular.

Dez dos participantes do estudo relataram ter sido vítimas de bullying digital, e três admitiram ser perpetradores.

Mais educação e pesquisas

Daqueles que sofreram bullying pelo menos uma vez ao dia, 80% participaram de mensagens instantâneas e 78% em mensagens de texto; 60% estavam no Facebook, 60% no Instagram e 40% no Twitter; e 40% usavam salas de bate-papo.

Curiosamente, nenhuma das vítimas estava usando e-mail, “sugerindo que o e-mail não é realmente a forma como o bullying digital é feito”, disse a Dra. Samantha.

Pontuações mais altas na Lista de Sintomas de Trauma para Crianças foram observadas para os participantes que sofreram bullying em relação aos que não sofreram nas subescalas de depressão (pontuações, 74 em relação a 60,68, respectivamente; P = 0,02), raiva (56,8 em relação a 49,2; P = 0,02) e sintomas dissociativos (65,5 em relação a 56,98; P = 0,04).

Além disso, “aqueles que foram vítimas de bullying digital deixaram de relatar sintomas com menor frequência do que aqueles que não foram vítimas”, disse a Dra. Samantha (P = 0,003). “Isso significa que esses resultados são mais válidos porque esses pacientes têm menor probabilidade de minimizar os próprios sintomas”.

Embora um antecedente de abuso emocional tenha sido associado a ser uma vítima de bullying digital (P = 0,01), não houve associações significativas com abuso físico ou sexual, ou com negligência física ou emocional. Os tipos de abuso emocional não foram avaliados.

A Dra. Samantha observou que, em geral, os jovens precisam de mais educação sobre como usar de forma eficaz e segura as mídias sociais e outras tecnologias. “Isso significa não só educar crianças e adolescentes, mas educar pais, escolas e orientadores para manter nossos filhos seguros”.

Além disso, “mais pesquisas precisam determinar o papel do uso extensivo de mídias sociais em problemas de saúde mental de adolescentes que não são abusados, mas podem ser afetados pelo acesso à mídia social”, escrevem os pesquisadores.

Questão de saúde pública

A Dra. Ranna observou que a APA tem uma declaração de política sobre bullying que inclui um trecho sobre bullying digital.

“Você não pode ser um psiquiatra de criança e adolescente ou um pai hoje e não entender o que é o bullying digital. Este pôster e estudo abordam um assunto ao qual todos nós precisamos prestar atenção”, disse ela. “É uma importante questão de saúde pública”.

Ela acrescentou ao Medscape que aprecia as nuances do novo estudo, especialmente a falta de uso de e-mail. “Sabemos por relatos que as crianças consideram o e-mail muito antiquado. É realmente necessário que nos mantenhamos em dia com os diferentes tipos de comunicação, relacionamentos e potenciais locais de bullying“.

“Os pais precisam estar cientes disto, mas os profissionais também. Se você realmente vai se conectar com o seu adolescente, precisa saber como fazer as perguntas certas: você usa mensagens de texto ou Facebook? E como você se conecta com seus amigos? Este é realmente um assunto muito importante”.

Ela acrescentou que há muita conversa sobre a série da Netflix 13 Reasons Why , que é focada em uma menina adolescente que passou por uma série de problemas, incluindo bullying, antes cometer suicídio. A Dra. Ranna observou que grande parte da discussão foi que o programa não mostra o suficiente sobre o que alguém na situação da menina poderia ter feito para obter ajuda.

“A APA tem um excelente blog sobre os recursos”, disse a Dra. Ranna. “O que está acontecendo em torno desta discussão precisa continuar e incluir várias coisas positivas. Temos muito a fazer, mas acho que qualquer coisa que estimule a conversa é importante”.

As Dras. Samantha e Ranna declararam não possuir conflitos de interesses relevantes.

Encontro Anual de 2017 da American Psychiatric Association’s (APA): Pôster resumo P8-037. Apresentado em 23 de maio de 2017.

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