Lançadas as primeiras diretrizes para depressão mista

Postado em

Megan Brooks

Um terço ou mais dos adultos diagnosticados com depressão grave têm depressão com características mistas e provavelmente evoluiria melhor com uso de um antipsicótico do que um antidepressivo, conclui um painel internacional de especialistas.

Para pacientes com um episódio depressivo maior (EDM) com características mistas (depressão com alguma mania), os antidepressivos tipicamente “não funcionam ou podem fazer o paciente piorar, e poderiam induzir a mania ou o suicídio”, disse ao Medscape o Dr. Stephen M. Stahl, Departamento de Psiquiatria, University of California, San Diego, e presidente do Neuroscience Education Institute, em Carlsbad, Califórnia.

Para esses pacientes, um antipsicótico atípico deveria ser considerado, recomendam ele e colegas nas primeiras diretrizes lançadas sobre o reconhecimento e o tratamento da depressão mista.

As diretrizes estão na edição de abril da CNS Spectrums, uma edição temática devotada a características mistas em transtornos mentais.

Mudança de paradigma

O “ponto de vista clássico” – de que pacientes com EDM deveriam ser tratados inicialmente com antidepressivos, independentemente se outros sintomas estão presentes – está agora dando lugar a uma nova noção, escreve o Dr. Stahl, que é editor do jornal.

“A ideia é que EDMs mistos com alguns sintomas de mania/hipomania devem ser analisados de forma muito diferente em termos de sua história natural, desfecho clínico e tratamento, e talvez certos antipsicóticos devem ser usados como tratamento de primeira linha no lugar da monoterapia com antidepressivos”, acrescentou ele.

“Isso é uma mudança de paradigma, e isso acontece na prática clínica. Algumas vezes o que pensamos no momento se torna parcialmente errado”, disse o Dr. Stahl ao Medscape.

“Costumava-se pensar que a presença de qualquer sintoma de depressão significava que você deveria tratar com um antidepressivo. É assim que a maioria das pessoas trabalha, e além disso, 70% dos antidepressivos não são prescritos por psiquiatras, e é assim que certamente está sendo feito na prática em geral”, disse ele.

O Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition (DSM-5) introduziu um especificador de “características mistas” para o transtorno depressivo maior. Para cumprir os critérios de depressão com características mistas do DSM-5, os pacientes precisam cumprir os critérios limites para um EDM e os subcritérios para mania ou hipomania, ou precisam ter uma síndrome de mania e subcritérios de sintomas depressivos.

Dados a respeito do tratamento de pacientes com depressão mista são muito limitados. Não existem tratamentos estabelecidos, “e isso representa um terço dos adultos com depressão. Em crianças, as características mistas são provavelmente mais a regra do que a exceção, provavelmente mais que a metade”, disse o Dr. Stahl.

Para ajudar os médicos que tratam adultos com EDM e características mistas, um painel internacional de especialistas em transtornos do humor se reuniu para desenvolver diretrizes consensuais sobre como reconhecer e tratar a depressão mista, “com base em poucos estudos que focaram especificamente nos estados depressivos mistos, assim como em décadas de experiência clínica acumulada”, observam os autores.

Antidepressivos como ameaça potencial

As diretrizes recomendam que todos os pacientes que receberam antidepressivos para um EDM sejam monitorados para sinais de comportamento anormal ou aceleração psicomotora.

Elas também observam que o uso de antidepressivos em pacientes com EDM que têm características mistas “podem não aliviar os sintomas depressivos e podem trazer uma ameaça potencial para exacerbação dos sintomas de mania que acompanham a depressão”.

Para pacientes que apresentam um episódio depressivo com características mistas, além da medicação antidepressiva, podem ser considerados alguns agentes psicotrópicos alternativos com eficácia demonstrada do tratamento de sintomas depressivos como parte do EDM, diz a diretriz.

“Embora existam problemas com o uso de antipsicóticos, nada é pior do que algo que não funciona ou faz piorar o quadro”, disse o Dr. Stahl.

As diretrizes também encorajam os clínicos a pensarem sobre a possibilidade de características mistas em todos os pacientes com depressão.

“Você não saberá se um paciente deprimido tem sintomas (hipo) maníacos ou uma história familiar positiva de transtorno bipolar a não ser que pergunte. Pergunte a todos os pacientes. Sempre”, recomenda o painel.

“Se você olhar apenas para a depressão, pode deixar passar os sintomas simultâneos de mania. E mesmo com baixos níveis de sintomas de mania, você não deve dar um antidepressivo, pelo menos não em primeira linha”, disse o Dr. Stahl.

As diretrizes representam um “consenso de especialistas” no reconhecimento e no tratamento da depressão mista, e também são um “chamado para ação – isso é, vamos fazer o melhor que podemos com os dados disponíveis”, acrescentou.

Outros artigos na edição temática da CNS Spectrums sobre características mistas incluem “Tratamento das características mistas no transtorno bipolar”; “Tratando a mania/hipomania mista”; e “Tratamento farmacológico de condições mistas”.

Essa pesquisa não teve financiamento comercial. O artigo original contém a lista completa dos conflitos de interesses relevantes dos autores.

CNS Spectr. 2017;22:203-219. Resumo

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