Pesquisa desvenda papel da vitamina C no cérebro

Postado em

Roxana Tabakman

Presente em alta concentração no sistema nervoso central (SNC), a vitamina C é um componente importante para a homeostase cerebral. Entretanto, a forma reduzida da vitamina C, conhecida como ascorbato, não tem a capacidade de entrar livremente nos neurônios, sendo depende do sódio para ingressar nas células por meio de um cotransportador de sódio-vitamina C conhecido como SVCT2.

Um novo trabalho[1] publicado por pesquisadores de Portugal, Brasil, Estados Unidos e Alemanha no periódico Science Signaling, demonstrou que o SVCT2 é fundamental para a homeostase da micróglia, células imunes do sistema nervoso central que não apenas respondem a patógenos, mas apresentam diversas funções importantes para o desenvolvimento, a manutenção e o funcionamento do sistema nervoso, como por exemplo, refinamento sináptico, aprendizado e memória, e também estão ligadas a fatores comportamentais como ansiedade e depressão.

O homem, junto com outros primatas, é um dos poucos mamíferos que perdeu a capacidade de fabricar a própria vitamina C, precisando assim, obtê-la a partir da dieta. Em humanos, a redução dos níveis de ácido ascórbico no cérebro pode levar ao escorbuto neuropsiquiátrico, caracterizado por depressão, alterações do núcleo motor basal subcortical e mudanças de comportamento, estado anímico, e performance motora sendo que, mudanças nas concentrações de ascorbato no cérebro também estão envolvidas em transtornos neurodegenerativos e de desenvolvimento. A ativação da micróglia tem sido relacionada a estes transtornos neurodegenerativos. O estudo em questão desvendou um pouco de como funciona esse mecanismo, mostrando que a redução das quantidades de SVCT2 na membrana plasmática reduz a captação da vitamina C e gera ativação, tanto na micróglia humana quanto na de camundongos.

“Os resultados nos surpreenderam muito”, disse ao Medscape a primeira autora do estudo, Camila Cabral Portugal, doutorada pela Universidade Federal Fluminense e hoje no Grupo de Biologia Celular da Glia no i3S (Instituto de Investigação e Inovação em Saúde) do Instituto de Biologia Molecular e Celular IBMC, de Porto, Portugal.

“Já é bastante conhecido que as células da micróglia produzem grandes quantidades de radicais livres de oxigênio quando estão ativadas, mas para nós foi surpreendente descobrir que a função do SVCT2 não pode ser substituída por nenhum outro sistema de antioxidantes, e que esse transportador tenha um papel tão crucial nessas células. A sua ausência é capaz de ativar as células da micróglia. E também todos os estímulos pró-inflamatório que usamos diminuem a expressão desse transportador.”

A pesquisa demonstra, de forma localizada, as funções essenciais do SVCT2 e do ascorbato na fisiologia da micróglia. CAV1 é uma proteína estrutural da membrana que está presente em todos os tipos celulares e que compõe as caveolas, as pequenas invaginações que acontecem na membrana plasmática, e uma fosforilação mediada por c SRC da CAV1 diminui a SVCT2 na membrana plasmática. Os pesquisadores foram estudando os passos um a um, até demonstrar como a redução da expressão do SVCT2 atua na ativação da micróglia, e depois estudaram como evitar que isso acontecesse. A pesquisa mostrou que a ativação da micróglia pode ser evitada de três maneiras: pelo tratamento com vitamina C, pela sobre-exposição de SVCT 2 ou pelo bloqueio do sistema transportador do ácido ascórbico.

“É um trabalho lindo”, avalia a professora Regina Markus, cientista do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências da USP, que não participou da pesquisa. “Vai para o gene e mostra como esse gene é expresso, e como isso se relaciona com a resposta inflamatória. É um trabalho consistente, que mostra que a vitamina C tem um papel relevante na fisiologia da micróglia”.

Camila Portugal, que tinha estudado a importância e a função do SVCT2 em células neuronais nos primeiros anos do doutoramento, neste trabalho aplicou o conhecimento que já tinha desse transportador em outro sistema, nas células da micróglia.

“Quanto mais se conhece essas células, mas caminhos se abrem para a compreensão do sistema, e para possíveis intervenções no caso de doenças e mal funcionamento dele”, diz Camila.

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