Disfunção cardíaca e hiperferritinemia podem ser marcadores de gravidade na sepse pediátrica em pacientes internados em unidades de terapia intensiva

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Teresa Santos e Dra. Ilana Polistchuck

Em pacientes pediátricos com diagnóstico de sepse, disfunção cardíaca e hiperferritinemia estão associadas com desfechos desfavoráveis, de acordo com pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em estudo publicado no Jornal de Pediatria[1] .

A pesquisa de coorte prospectiva analisou 20 pacientes internados na Unidade de Terapia Intensiva pediátrica (UTIP) do Hospital São Lucas da PUCRS. Os pacientes tinham entre 28 dias e 18 anos de idade. Todos os participantes apresentavam sepse, condição definida como presença de dois ou mais dos seguintes critérios: taquicardia, taquipneia, alteração da temperatura, leucocitose ou leucopenia para a idade na presença de infecção confirmada ou suspeita.

Níveis séricos de proteína C-reativa (PCR), ferritina e contagem de leucócitos foram avaliados no momento do recrutamento (D0), 24 horas (D1) e 72 horas depois (D3). Além disso, os participantes passaram por ecocardiograma transtorácico para determinação da fração de ejeção (FE) do ventrículo esquerdo no D1 e no D3.

A investigação revelou que pacientes com hiperferritinemia (> 300 ng/mL) no recrutamento (D0) tiveram doença mais grave no primeiro dia de UTI pediátrica, ou seja, apresentaram escores mais altos no Pediatric Index of Mortality 2 (PIM2)[2] e piores resultados (menor tempo livre de ventilação e maior escore de inotrópicos máximo).

Aqueles que tiveram fração de ejeção menor que 55% foram caracterizados com disfunção cardíaca. Crianças que apresentaram esse quadro no primeiro dia (D1) também tiveram PIM2 maior na internação na UTIP, bem como associação significativa com resultados desfavoráveis (maior tempo de internação hospitalar, maior permanência na UTIP e mais tempo em ventilação mecânica total, maior escore de inotrópicos máximo, e menor tempo livre de ventilação mecânica).

Enquanto níveis elevados de ferritina e disfunção cardíaca estiveram associados a piores resultados – com destaque para o fato de os dois únicos óbitos terem ocorrido justamente em pacientes com esses dois marcadores de gravidade –, as outras variáveis investigadas não apresentaram a mesma relevância. Não houve associação entre valores maiores de PCR e pior desfecho, assim como a contagem de leucócitos tampouco se mostrou um marcador de gravidade útil nesse contexto.

Segundo o Dr. Cristian Tedesco Tonial, um dos autores do trabalho, alguns estudos já haviam demonstrado que disfunção cardíaca representada pela baixa função sistólica (FE)[3,4] e ferritina sérica elevada[5,6] , isoladamente, estavam relacionados a desfechos desfavoráveis em pacientes pediátricos críticos.

“Nosso grupo estuda a ferritina sérica há vários anos em UTIP, sempre relacionando a elevação dela com condições de gravidade ou mortalidade. Quanto à utilização da ecografia cardíaca em pacientes graves, acreditamos ser de extrema validade, pela possibilidade de medir parâmetros hemodinâmicos e pelo fácil acesso nas UTIs pediátricas”, afirmou ao Medscape o Dr. Tonial, que integra o Grupo de Pesquisa em Terapia Intensiva e Emergência Pediátrica do Hospital São Lucas da PUCRS e é professor da Faculdade de Medicina da mesma instituição.

O médico, no entanto, faz uma ressalva: os resultados da pesquisa devem ser analisados com certa cautela, pois a associação foi observada em um grupo pequeno de pacientes extremamente graves (60% dos pacientes tiveram PIM2 maior do que 6%, um indicativo de gravidade).

“Este tipo de estudo, apesar de ter obtido um resultado positivo, tem pouco poder para influenciar tomadas de decisões, gerenciamento ou mudança de tratamento de pacientes”, disse o Dr. Tonial, lembrando que o diferencial do trabalho reside, principalmente, no fato de o grupo ter analisado estes dois marcadores de gravidade de forma simultânea.

Ele acredita que a pesquisa servirá como embasamento para estudos maiores que possam confirmar os achados. “Uma vez que amostragens maiores ratifiquem essas informações, é possível que, no futuro próximo, esses marcadores de gravidade possam ser incluídos em escores de mortalidade de pacientes pediátricos internados em UTIs pediátricas”, disse.

O Dr. Tonial acrescentou que a equipe pretende dar continuidade a essa investigação. Ele e colegas pesquisam principalmente escores de gravidade, marcadores de inflamação e suporte nutricional em pacientes críticos pediátricos.

“Temos um projeto maior que incluirá diversos marcadores inflamatórios como a ferritina. Buscamos em nossas pesquisas ‘prever’ o desfecho dos pacientes, por meio de parâmetros clínicos e exames laboratoriais e de imagem, que sejam métodos práticos, de baixa complexidade e que possam ser facilmente obtidos em qualquer UTIP do Brasil”, completou.

Esta pesquisa foi financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Um dos autores (Dr. Pedro Celiny R. Gacia) relatou receber subsídios de bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES BRASIL). Os outros autores declararam não possuir conflitos de interesses relevantes ao tema.

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