Aleitamento Materno: Um Bem para as Vossas Saúdes.

Postado em

Aleitamento Materno: Um Bem para as Vossas Saúdes.

Resultado de imagem para aleitamento materno

Dr. Egas Sanfins Moura – Pediatria

Introdução

 

O leite materno é considerado pela Organização Mundial de Saúde – OMS, o alimento ideal nos primeiros meses de vida – “O leite de cada espécie é também fornecedor de hormonas, enzimas e oligossacáridos, razões pela qual a sua importância fisiológica recomenda a sua utilização preferencial”.

A prática do aleitamento materno – AM faz parte da história da humanidade e das sociedades actuais, resultando numa construção macrossocial que a identifica como uma medida prioritária de promoção da saúde pública em todas as políticas ocidentais (OMS, UNICEF, Academia Americana de Pediatria).

A industrialização, a II Grande Guerra Mundial, a massificação do trabalho feminino, os movimentos feministas, a perda da família alargada, a indiferença ou ignorância dos profissionais de saúde e a publicidade agressiva das indústrias produtoras de substitutos do leite materno tiveram como consequência uma baixa da incidência e da prevalência do AM. Foram as mulheres com maior escolaridade que mais precocemente deixaram de amamentar os seus filhos, sendo rapidamente imitadas pelas mulheres com menor escolaridade.

Este fenómeno alastrou aos países em desenvolvimento, com consequências gravíssimas em termos de aumento da mortalidade infantil. A partir dos anos 70, verificou-se um retorno gradual à prática do AM, sobretudo nas mulheres mais informadas.

A antropologia, a sociologia e a história têm procurado apreender o significado de acontecimentos tão importantes como o parto, para diferentes povos de diferentes culturas. Em todos os povos é possível encontrar crenças e práticas ligadas à procriação, à gestação e ao parto, constituindo este uma “entrada na vida” ou um ritual de passagem. Vários estudos mostram também que todos os povos se preocupam com os cuidados a fornecer ao recém-nascido, como sejam o primeiro banho, a amamentação, as aprendizagens, os berços e as embaladeiras.

Poucas experiências humanas alcançam os níveis de stress, ansiedade, dor e tumulto emocional ocorridos durante um parto e no pós-parto imediato. Sendo o parto uma ocasião de especial sensibilidade ao ambiente, não admira que acontecimentos, interacções e intervenções ocorridos durante este período possam ter consequências duradouras em termos emocionais e comportamentais.

Acontecimentos ligados às práticas hospitalares durante o parto, no período do pós-parto imediato e durante a estada da mãe e do bebé no hospital podem influenciar positiva ou negativamente o estabelecimento da lactação e a duração do aleitamento materno.

Um comunicado conjunto da OMS/UNICEF (Iniciativa Hospitais Amigos dos Bebés) contempla 10 medidas importantes para o sucesso do AM que deveriam ser implementadas nos serviços de saúde vocacionados para a assistência a grávidas e recém-nascidos, definindo objectivos e estratégias que, a serem cumpridos, confeririam a esses mesmos serviços de saúde a categoria de “Hospital Amigo dos Bebés”.

 

Iniciativa Hospitais Amigos dos Bebés (OMS/UNICEF)

  1. Ter uma política de promoção do aleitamento materno, afixada, a transmitir regularmente a toda a equipa de cuidados de saúde.
  2. Dar formação à equipa de cuidados de saúde para que implemente esta política.
  3. Informar todas as grávidas sobre as vantagens e a prática do aleitamento materno.
  4. Ajudar as mães a iniciarem o aleitamento materno na primeira meia hora após o nascimento.
  5. Mostrar às mães como amamentar e manter a lactação, mesmo que tenham de ser separadas dos seus filhos temporariamente.
  6. Não dar ao recém-nascido nenhum outro alimento ou líquido além do leite materno, a não ser que seja segundo indicação médica.
  7. Praticar o alojamento conjunto: permitir que as mães e os bebés permaneçam juntos 24 horas por dia.
  8. Dar de mamar sempre que o bebé queira.
  9. Não dar tetinas ou chupetas às crianças amamentadas ao peito.
  10. Encorajar a criação de grupos de apoio ao aleitamento materno, encaminhando as mães para estes, após a alta do hospital ou da maternidade.

Apesar das recomendações, elevadas taxas de abandono precoce têm sido identificadas em Portugal. Actualmente, a noção de hipogalactia é o principal factor para a cessação precoce, a que se associam as dificuldades técnicas na pega.

Imagem relacionada

Aspectos nutricionais

O leite materno é um alimento vivo, completo e natural, adequado para quase todos os recém-nascidos, salvo raras excepções. O leite materno tem a composição nutricional ideal para a alimentação do bebé e para suprir as necessidades para se desenvolver e crescer.

Varia, na composição e na quantidade, ao longo da vida do bebé, ao longo do dia e ao longo da mesma mamada.

No primeiro dia a quantidade de colostro (leite que é produzido nos primeiros dias) que o recém-nascido mama é reduzida, mas contém todos os constituintes que o bebé precisa. A mãe deve amamentar o seu bebé sem restrição, de dia e de noite, pois deste ritmo depende o sucesso do aleitamento materno e da adaptação do bebé ao mesmo. Nos primeiros dias de vida, é normal o bebé perder peso, cerca de 10 a 15% do peso ao nascer. Este facto não significa que haja algum problema com o leite materno.

O leite materno tem a quantidade certa de proteínas, gorduras, hidratos de carbono, vitaminas, minerais e água, suficiente até aos 6 meses de idade, em exclusividade. Após essa idade deve ser complementado com maior quantidade de nutrientes provenientes dos outros alimentos.

Para a OMS, o AM exclusivo significa que o lactente recebe unicamente leite materno e nenhum outro líquido ou sólido à excepção de gotas ou xaropes de vitaminas, suplementos minerais ou fármacos.

O aleitamento considera se predominante, se além do leite materno o lactente beber outros líquidos não lácteos, tais como água e chás sem conteúdo energético. Um e outro representam o aleitamento materno total (full breast-feeding). O aleitamento será misto, se além do leite materno o lactente receber uma fórmula infantil e será parcial se o aleitamento materno for acompanhado de alimentação complementar.

 

Composição leite materno (100ml)

 

Niacina 147 mcg
Piridoxina 10 mcg
Folato 5,2 mcg
Vitamina B12 0,03 mg
Cálcio 34 mg
Fósforo 14 mg
Ferro 0,05 mg
Zinco 0,3 mg
Água 87,1 ml
Sódio 0,7 mEq
Potássio 1,3 mEq
Energia 70 kcal
Proteína 1,1 g
Lípidos 4,2 g
Glícidos 7,0 g
Vitamina A 190 mcg
Vitamina D 2,2 mcg
Vitamina E 0,18 mg
Vitamina K 1,5 mcg
Vitamina C 4,3 mg
Tiamina 16 mcg
Riboflavina 36 mcg

 

A evidência científica tem demonstrado benefícios para a saúde com o AM  exclusivo durante os primeiros 6 meses de vida. A partir desta idade o volume de leite ingerido é insuficiente, não sendo possível suprir adequadamente as necessidades energético-proteicas e em micronutrientes.

As vantagens do AM são múltiplas e já bastante reconhecidas, quer a curto, quer a longo prazo, existindo um consenso mundial de que a sua prática exclusiva é a melhor maneira de alimentar as crianças até aos 6 meses de vida. O aleitamento materno tem vantagens para a mãe e para o bebé.

O aleitamento materno está claramente associado a benefícios para o lactente, incluindo efeito protector significativo:

  • para infecções gastrointestinais (64%), ouvido médio (23-50%) e infecções respiratórias severas (73%)
  • leucemia linfocítica aguda (19%)
  • síndrome da morte súbita do lactente (36%).
  • Foram ainda encontrados benefícios a longo prazo, como para a obesidade (7-24%) e outros factores de risco cardiovascular em idade adulta
  • Melhora o desenvolvimento da visão
  • Reduz a propensão a cárie dentária, melhora o desenvolvimento das mandíbulas, dos dentes e da fala
  • Facilita a digestão e o funcionamento do intestino

Para a mãe existem os seguintes benefícios no AM:

  • O leite materno é prático e conveniente, sem necessidade de preparação, aquecimento e desinfecção
  • Promove uma recuperação rápida do corpo da mãe após o parto
  • Associa-se a uma menor probabilidade de aparecimento de Cancro da mama, Cancro do ovário, Osteoporose, Doenças cardíacas, Diabetes e Artrite reumatoide
  • Atrasa a menstruação, funcionando como um controlo da fertilidade
  • Aumenta a confiança da mãe e a sensação de bem-estar
  • Cria uma melhor ligação emocional entre a mãe e o bebé o que garante uma maior estabilidade da criança

Para a Família, também há vantagens:

  • Permite uma maior gestão de custos, uma vez que se poupa dinheiro em leite artificial, biberões e esterilizações
  • Facilita as deslocações pois não há necessidade de levar utensílios

E ainda para o ambiente, não sendo necessário recorrer a embalagens, utensílios e gasto de energia.

O leite materno contém elementos únicos e específicos da espécie humana, conferindo-lhe o potencial para os seus benefícios para a saúde. Por outro lado, o período pós-natal é crítico para o desenvolvimento dos circuitos neuro-hipotalâmicos associados ao controlo do apetite – “Programação nutricional” – em que a leptina, presente no leite materno, parece ter um papel decisivo.

Para além de todas estas vantagens, o leite materno constitui o método mais barato e seguro de alimentar os bebés.

Existe hoje o consenso entre os pediatras de que a duração ideal do aleitamento materno seja em exclusivo até aos 6 meses de idade e, a partir de então, complementado com outros alimentos – diversificação alimentar.

O acto de amamentar é algo que se aprende, que se aperfeiçoa e se estimula.

É ainda preciso que o bebé tenha um bom estado nutricional, ou seja, aumente de peso de maneira adequada e tenha um bom desenvolvimento psicomotor. O sucesso do AM pode ainda ser definido pela qualidade da interacção entre mãe e bebé, durante a mamada, pois este proporciona a oportunidade de contacto físico e visual e a vivência da cooperação mútua entre a mãe e o bebé.

Num AM com sucesso, verifica-se habitualmente uma boa transferência de leite entre a mãe e o bebé; a transferência de leite refere-se não só à quantidade de leite que a mãe produz, como também àquela que o bebé obtém, sendo a actuação do bebé particularmente importante na regulação da quantidade de leite que ingere, na duração da mamada e na produção do leite pela mãe.

Quando o bebé tem fome, mama na mama da mãe, durante o tempo que quer, até se sentir satisfeito. À medida que vai crescendo, a mãe produz mais leite para suprir as suas necessidades. Quando se inicia a diversificação alimentar, as mamas produzem apenas o leite necessário para completar as suas necessidades. Este fenómeno pode acontecer durante meses e anos, através da existência de um sistema complexo de produção de hormonas e secreções glandulares.

  • A capacidade de produção de leite pelas mamas é variável, podendo ter ritmos diferentes. No entanto, sabe-se que quanto mais leite é tirado mais leite é produzido. Normalmente o bebé não “esvazia” completamente a mama. Se o bebé não mama bem a mama não recebe o estímulo adequado e acaba por não produzir o leite suficiente;
  • Não use chupetas nem biberões nas primeiras semanas de vida, enquanto a amamentação não estiver bem estabelecida. O formato do mamilo é diferente do da tetina da chupeta e do biberão, o que leva a confusão por parte do bebé, podendo ferir o mamilo e levar à diminuição da produção de leite. Use copos ou colheres.

 

Estimativas recentes sugerem que o AM ótimo, ou seja, de acordo com a recomendação internacional, poderia prevenir cerca de 12% das mortes de crianças menores de 5 anos a cada ano, ou cerca de 820.000 mortes em países de média e baixa renda. A proteção do leite materno contra infecções se deve aos inúmeros fatores imunológicos específicos e não específicos, que conferem proteção ativa e passiva contra agentes infecciosos, tais como imunoglobulinas, em especial a IgA, leucócitos, lisozima, lactoferrina, fator bífido e oligossacarídeos, entre outros. Esses fatores, embora possam modificar a sua concentração ao longo da lactação, são transferidos para a criança enquanto durar a amamentação.

O exercício que a criança faz para retirar o leite da mama é importante para o desenvolvimento craniofacial. Com base em 49 estudos, uma metanálise estimou que a amamentação pode reduzir em 68% a mal-oclusão dentária, sendo constatado efeito dose-resposta, ou seja, as crianças amamentadas por mais tempo têm menos chance de desenvolver essa condição. O mesmo ocorre com a função mastigatória.

Uma metanálise recente da OMS estimou redução de 25% na hipótese duma criança amamentada desenvolver sobrepeso ou obesidade na vida adulta, quando comparada com crianças não amamentadas. Estima se que, para cada mês de AM, haja uma redução de 4% no risco de obesidade.

A associação entre AM e inteligência é estudada há quase 100 anos. Na actualidade existem evidências sugerindo que o AM contribui para um melhor desenvolvimento cognitivo. A metanálise mais recente sobre o tema estimou que crianças amamentadas possuem quociente de inteligência (QI) 3,44 pontos maior na infância e adolescência do que as crianças não amamentadas.

Há evidências consistentes de que o AM exerce protecção contra o desenvolvimento de cancro da mama e do ovário e de diabetes tipo 2 na mulher que amamenta. Essa protecção é tanto maior quanto mais duradoura for o AM.

Prática do Aleitamento Materno

Resultado de imagem para aleitamento materno

A duração da mamada não é importante, pois a maior parte dos bebés mamam 90% do que precisam em 4 minutos. Alguns bebés prolongam mais as mamadas, por vezes até 30 minutos ou mais; o que interessa é perceber que o bebé está a obter leite da mama da mãe e não está a fazer da mama da mãe uma chupeta, pois isto pode macerar os mamilos, criar fissuras e levar a mãe a desistir da amamentação.

Uma mãe pode perceber se o bebé está mesmo a mamar quando constata que a sucção é mais lenta do que com uma chupeta, quando verifica que o bebé enche as bochechas de leite ou, muitas vezes, quando ouve o bebé a engolir o leite.

O horário não é o mais importante; o bebé deve ser alimentado quando tem fome – chama-se a isto o regime livre –, não se devendo impor ao bebé um regime rígido. Quando um bebé tem fome acorda para comer, e este alerta é importante para uma melhor ingestão de leite materno. No entanto não se deve deixar o bebé dormir mais de 3 horas durante o primeiro mês de vida.

Quando um bebé começa a mamar na mama da mãe, o primeiro leite que obtém é mais rico em água e lactose, que é o açúcar do leite; à medida que a mamada prossegue, o leite vai tendo cada vez mais gordura.

O que é importante é que o bebé esvazie uma mama em cada mamada; o bebé deve primeiro esvaziar a primeira mama e se depois disso continuar com fome é que lhe é oferecida a segunda mama; chupar e esvaziar a mama é o segredo para uma maior produção de leite.

A pesagem do bebé nas consultas de saúde e uma boa progressão do seu peso garantem que o bebé está a ser bem alimentado.

Porém, o que é mais importante é a ausência de stress, pois este é inimigo da lactação, dado que impede a ejecção do leite, que fica assim retido na mama.

 

Resultado de imagem para aleitamento materno

 

Contra-indicações do Aleitamento Materno

  1. Contra-indicações temporárias: existem certas situações em que as mães não devem amamentar os seus bebés, até essas mesmas situações estarem resolvidas; por exemplo, mães com algumas doenças infecciosas como a varicela, herpes com lesões mamárias, tuberculose não tratada ou ainda quando tenham de efectuar uma medicação imprescindível. Durante este período de tempo, os bebés devem ser alimentados com leite artificial por copo ou colher, e a produção de leite materno deverá ser estimulada.
  2. Contra-indicações definitivas: as contra-indicações definitivas do aleitamento materno não são muito frequentes, mas existem. Falámos de mães com doenças graves, crónicas ou debilitantes, mães infectadas pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH), mães que precisem de tomar medicamentos que são nocivos para os bebés e, ainda, bebés com doenças metabólicas raras como a fenilcetonúria e a galactosemia.

 

Considerações finais

Actualmente, em especial nas sociedades ocidentais, o AM é considerado apenas uma forma de alimentar a criança, sob o controle dos adultos. Assim, perdeu-se a percepção da amamentação como um processo mais amplo, envolvendo intimamente duas pessoas e com repercussão na saúde física e psíquica de ambas. Perdeu-se a noção de que o desmame é um processo evolutivo, assim como sentar, andar, correr, falar. Nesta lógica, quando a criança é desmamada antes de atingir a maturidade para tal, corre o risco de ter o seu desenvolvimento emocional afetado.

Apesar dos avanços científicos, que têm condicionado melhorias nas fórmulas para lactentes, o leite materno continua a demonstrar vantagens inequívocas para a saúde humana, a curto e longo prazo.

Cabe aos profissionais de saúde, sobretudo aos pediatras, promoverem, protegerem e apoiarem as mães / bebés / famílias a praticarem a amamentação continuada até ao desmame natural, se assim for o seu desejo.

Este é um desafio que deve ser enfrentado com conhecimento, atitudes positivas e habilidades, como a de saber ouvir as mães, as crianças e as famílias, estando atento às suas necessidades.

Os profissionais de saúde, muitas vezes com lacunas formativas nesta área, podem sentir dificuldade em tranquilizar as mães nestas situações. Em Portugal, ao terceiro mês, por vezes por indicação do médico assistente que a maioria das mães deixa de amamentar.

 

AUTOR :

Dr. Egas Sanfins Moura – Pediatra, Portugal

ORDEM DOS MÉDICOS PORTUGUESA

GENERAL MEDICAL COUNSIL – UK

ORDRE DES MEDECINS FRANÇAISE

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Um comentário em “Aleitamento Materno: Um Bem para as Vossas Saúdes.

    Anônimo disse:
    05/22/2017 às 14:56

    A importância da amamentação materna👍

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s