Biomarcadores cardíacos aumentam após maratonas em corredores recreacionais

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Steve Stiles

PARIS, FRANÇA — A maioria dos corredores de maratonas não são profissionais, mas muitos dos que se inscrevem para elas treinam algumas horas por semana para os grandes eventos. Isso é suficiente para proteger o coração?

Muitos desses corredores regulares porém recreacionais, apresentam níveis cronicamente acima do normal de troponina T pelo ensaio de alta sensibilidade (hs-TnT) e picos agudos nesse biomarcador logo após uma maratona, sugere um estudo reconhecidamente pequeno, porém bastante provocativo.[1]

Não é usual uma pesquisa prospectiva de estresse, fibrose e do biomarcador de remodelamento cardíaco ST2 em atletas amadores quando eles correm maratonas, para avaliar sinais de que esse biomarcador pode se tornar cronicamente elevado quando eles treinam repetidamente para um evento em um nível abaixo dos atletas de elite.

No estudo de 79 corredores amadores no dia da Maratona de Barcelona de 2016, cerca de metade tinham níveis de ST2 acima do normal antes da corrida e mostraram aumentos significativos porém transitórios logo após a corrida.

Emma R. Roca

Cerca de um décimo deles também tinha níveis de troponina T acima do normal pelo ensaio hs-TnT antes do evento, e a prevalência aumentou para quase 90% logo após a corrida, reduzindo ao longo das 48 horas seguintes, relatou Emma R. Roca (Polytechnic University of Catalonia, Barcelona, Espanha) no evento European Society of Cardiology (ESC) Heart Failure 2017 .

Corredores que treinaram com menor intensidade, e que tiveram os maiores tempos de corrida na maratona, também tivéramos maiores aumentos na hs-TnT e no ST2, disse Emma ao Medscape. Assim, talvez seja preciso mais treino para proteger o coração durante as maratonas do que é percebido como necessário por muitos corredores amadores.

Colocado de outra forma, aumentos significativos em ambos biomarcadores foram associados com menores níveis de treinamento e pior desempenho. “Os corredores que treinaram mais e que estavam mais preparados tiveram menor aumento no ST2”, disse Emma, bioquímica e ávida maratonista.

O número elevado de corredores que começaram com altos níveis de ST2 sugere que essas elevações podem ser crônicas, “uma adaptação do treinamento” que poderia ser cardioprotetora e pode representam a razão pela qual elevações agudas não foram mais pronunciadas, disse Emma, salientando que o cenário é apenas especulativo.

Também especulativa, disse ela, é a preocupação de que o ST2 persistentemente elevado reflita um efeito de estresse adverso crônico no miocárdio por conta do subtreinamento crônico para eventos de resistência prolongada como maratonas, com aceleração da fibrose ou outras alterações que poderiam se tornar clínicas posteriormente.

Existe uma tendência de não se medir de forma seriada esses biomarcadores em pessoas saudáveis que se exercitam, observou ela, então não se sabe muito sobre a dinâmica deles com o exercício intenso prolongado e seus possíveis efeitos cardíacos. E a maioria das pessoas que correm em maratonas provavelmente não treina o suficiente para ganhar benefícios cardíacos e vasculares observados com o treinamento de atletas de elite.

Outros estudos sugeriram que mesmo atletas amadores podem treinar para maratonas de maneira a melhorar a estrutura e a função cardíaca para responder bem ao exercício de resistência intensa, mas esse treinamento tendeu a ser estruturado, intenso e prolongado.

No estudo atual, foram medidas as concentrações de peptídeo natriurético tipo pró-B N-terminal (NT-proBNP), hs-TnT e ST2 em 79 pessoas antes, logo depois e 48 horas após elas terem corrido a maratona. Deste total, 72% eram homens e 71% tinham pelo menos 35 anos de idade (média de 39 anos).

Alterações de biomarcadores em relação ao basal em 79 corredores de maratona

LSN=limite superior da normalidade em pessoas sem doença cardíaca

Biomarcador Basal Imediatamente após a maratona (P versus basal) 48 horas após maratona (P versus basal)
NT-proBNP (ng/L) 70 92 (<0,001) 70 (0,29)
ST2 (ng/mL) 34,2 54,2 (<0,001) 33,7 (0,53)
hs-TnT (ng/L) 2,9 46,9 (<0,001) 4,7 (<0,001)
% >LSN
NT-proBNP (% >125 ng/L) 0 30,7 (<0,001) 1,4 (1,00)
ST2 (% >35 ng/mL) 48,7 86,7 (<0,001) 48,6 (1,00)
hs-TnT (% >14 ng/L) 10,4 88,3 (<0,001) 17,9 (0,03)

Eles eram corredores de maratonas por uma média de sete anos, treinavam em média seis horas por semana, e tinham um índice de massa corporal médio de 22,8. O tempo médio para término da maratona foi de 3:32:44 h/min/s: um resultado bom, mas não de elite, observou Emma.

No basal, níveis de hs-TnT se correlacionaram diretamente com as horas treinadas por semana (P=0,01) e inversamente com o tempo que os indivíduos levaram para completar a corrida (P=0,009). Nenhum biomarcador se correlacionou com os anos passados de treinamento, de acordo com Emma.

Por outro lado, quanto mais treinamento, menor resposta do ST2. As horas de treinamento semanal foram inversamente proporcionais a elevações nesse biomarcador (P=0,007).

E o tempo para término da corrida, que foi mais longo naqueles menos bem treinados, foi diretamente proporcional aos níveis de hs-TnT (P<0,001) e de ST2 (P<0,05).

O fato de que os níveis de troponina se elevaram bastante durante a corrida e permaneceram algo elevados nas horas após poderia sugerir uma lesão miocárdica induzida pelo exercício nesse grupo, disse Emma, então faria sentido na prática triar os corredores amadores para mudanças nesses biomarcadores. Ou salvo a triagem real, disse ela, poderia ser prudente obter no mínimo os níveis basais para o caso de surgirem manifestações clínicas posteriormente.

Oferecendo uma mensagem mais geral de saúde pública, Emma disse que corredores recreacionais que gostam de correr maratonas e que percebem os próprios níveis de treinamento como apropriados, provavelmente precisarão aumentar o treino se quiserem melhorar as respostas dos níveis de biomarcadores cardíacos, embora não se saiba realmente se isso melhorará a saúde deles no futuro.

Emma Roca declarou não possuir conflitos de interesses relevantes.

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