O que são convulsões febris?

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Dr. EGAS MOURA PEDIATRIA

convulsões febris

 

Começam de repente, vêem-se “abanões” dos braços e pernas, por vezes com “revirar dos olhos” e “espumar da boca”, com o corpo tenso. Geralmente duram pouco tempo (5 minutos, mais coisa menos coisa – o que parece, uma eternidade aos pais) e segue-se um período de grande sonolência, discurso incoerente, olhar vago, a que chamamos “estado pós-crítico”. Depois e lentamente, as crianças voltam a si, recuperam o estado geral que tinham antes da convulsão febril.

A maioria dos pais vêm na convulsão um evento muito perigoso. Não se pode censurar, é um episódio extremamente stressante, em que os pais têm a sensação de que os filhos vão morrer.

Tentam uma série de coisas para evitar a mordedura da língua (o que não se deve fazer, nunca se coloca nada na boca de alguém com uma convulsão), e esquecem-se de os proteger (impedir que caiam da cama, ou que batam nos móveis). Por vezes abanam as crianças (uma reacção também natural, mas errada), o que pode por si provocar muito mais lesões que a convulsão em si.

A convulsão febril é a mais frequente situação, em idade pediátrica, que envolve o fenómeno convulsão e que ocorre obrigatoriamente associada à febre (normalmente muito elevada).

Acontecem mais frequentemente em filhos de pais que tiveram convulsões febris na infância.

A evidência clínica parece mostrar que as convulsões febris não estão relacionadas com o desenvolvimento cognitivo, assim sendo o prognóstico, nomeadamente ao nível da função neurológica, é bom.

Alguns dados muito recentes apontam para que a vacinação precoce contra as doenças sarampo, rubéola e parotidite (em Portugal é a vacina conhecida pelas siglas VASPR) e também a varicela, podem reduzir significativamente o risco de convulsão febril. Num estudo, Hambidge et al, envolvendo 323474 crianças norte-americanas (nascidas entre 2004 e 2008), detectaram que o atraso da administração da VASPR ou VASPR associada à vacina da varicela, para lá dos 15 meses de vida pode duplicar o risco de convulsões no 2º ano de vida.

 

O que são convulsões febris?

 

São contracções musculares involuntárias repetidas e/ou sustentadas, associadas a perda transitória de conhecimento, acompanhadas por febre (temperatura ≥ 38ºC, determinada por qualquer método de avaliação), que ocorrem na ausência de doença neurológica subjacente ou outra causa definida de convulsão, no grupo etário entre os 6 meses e os 5 anos de idade.

As convulsões febris (CF) podem cursar com olhar fixo, reversão ocular («revirar os olhos»), sialorreia («babar-se», «espumar-se»), cianose (cor roxa, sobretudo à volta da boca) ou perda do controlo dos esfíncteres (perda involuntária de fezes e/ou urina).

 

As convulsões febris são frequentes?

 

As CF são o tipo de crises convulsivas mais comum em crianças saudáveis com menos de 5 anos de idade. No entanto, se compararmos a taxa de ocorrência das CF com o total de episódios de febre que uma criança tem, as CF não são frequentes.

Mesmo na idade de risco (dos 6 meses aos 5 anos), mais de 98% dos episódios febris não se complicam de convulsões.

Nos primeiros 6 anos de vida, nos países ocidentais, 2 a 5% das crianças saudáveis terá, pelo menos, uma CF. Destas, cerca de dois terços terá uma única CF, 15% terá duas crises e 7% mais de duas.

 

Que crianças têm maior risco de ter uma convulsão febril?

 

Têm maior risco de ter CF as crianças filhas de pai e/ou mãe que tiveram CF em criança e as crianças que apresentem factores de risco.

No entanto, quando se analisa o total das crianças com CF, cerca de metade não tem nenhum factor de risco. As CF são ligeiramente mais frequentes no sexo masculino.

 

Em que idade é mais comum ocorrer a primeira convulsão febril?

 

Na maioria dos casos, a primeira CF ocorre entre os 12 meses e os 2 anos e meio de idade, com um pico por volta dos 18 meses. É excepcional uma CF ocorrer, pela primeira vez, antes dos 6 meses ou depois dos 3 anos de idade (embora possa ocorrer até ao 6º ano de vida). Caso a primeira CF ocorra nestas idades, justificar-se-á uma especial atenção, pela maior probabilidade de poder existir uma causa subjacente para a convulsão e não se tratar de uma verdadeira CF benigna.

 

Qual a razão da ocorrência de convulsões durante a febre?

 

Não se conhece com precisão o mecanismo que desencadeia o início de uma CF. Contudo, o mais importante não é a convulsão em si, mas sim a associação da febre a uma convulsão (sinal neurológico).

Esta associação poderá ser uma manifestação de uma doença grave, nomeadamente, uma meningite, uma encefalite ou um abcesso cerebral.

 

A que temperaturas ocorrem as convulsões febris?

 

Como já foi referido anteriormente, e por definição, as CF ocorrem a uma temperatura superior ou igual a 38ºC (determinada por qualquer método de avaliação da temperatura). No entanto, como acabou de ser referido, 20% das convulsões precedem a constatação da febre.

 

 

Quanto tempo dura uma convulsão febril?

 

Habitualmente dura entre poucos segundos a poucos minutos, cessando espontaneamente. São raras as CF que se prolongam para além de 10 a 15 minutos. São excecionais as crises com duração superior a 30 minutos (status febril). Na contabilização da duração de uma CF é importante não confundir a crise em si com a fase pós-crise, de sonolência prolongada, durante a qual já não ocorrem movimentos musculares involuntários.

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Qual a probabilidade da convulsão febril se repetir no mesmo episódio febril?

 

Mais de 80% das crianças terá uma única crise de CF no mesmo episódio febril. Contudo, cerca de 16% terá, pelo menos, uma segunda crise convulsiva. O período de maior risco de ocorrência desta segunda convulsão é nas primeiras 24 horas após a primeira.

 

A criança pode vir a ter mais convulsões febris noutros episódios de febre?

 

Sim, pode. No entanto, não significa que a criança tenha CF sempre que tem febre. Contudo, menos de 10% das crianças com CF terá mais de duas recidivas.

 

Existe algum tipo de infecção que se associa mais frequentemente com convulsão febril?

 

Algumas infecções tendem a desencadear mais facilmente uma CF. São exemplos, a infecção pelo vírus herpes 6 e 7 (responsáveis pelo Exantema Subitum), as gastroenterites agudas, as otites médias agudas e a gripe. Contudo, atendendo à elevada prevalência destas infecções, será difícil atribuir-lhes uma real responsabilidade na ocorrência das CF.

 

As convulsões febris são graves para a criança?

 

Apesar de muito assustadoras para quem as presencia, especialmente para os familiares, as CF não são tão perigosas como aparentam.

Mesmo prolongadas (> 30 minutos), em regra, as CF cessam espontaneamente sem causar danos cerebrais às crianças.

 

As crianças que têm convulsões febris poderão vir a sofrer de epilepsia?

 

Epilepsia e CF são patologias diferentes. As CF não causam epilepsia. Cerca de 97% das crianças com CF não tem nem virá a ter epilepsia. O risco de epilepsia será maior se existir um ou mais dos seguintes critérios: atraso de desenvolvimento psicomotor, alterações neurológicas, história familiar de epilepsia, CF iniciadas no primeiro ano de vida e CF focais recorrentes. Contudo, e numa perspetiva inversa, convém lembrar que cerca de 10% das crianças com epilepsia tem antecedentes pessoais de CF.

 

Justifica-se fazer algum tipo de exame perante uma convulsão febril?

 

Em regra, não. A maioria das crianças com CF não precisa de fazer análises sanguíneas, nem punção lombar (para excluir meningite), nem eletroencefalograma (EEG), nem exames de imagem, nomeadamente, radiografia do crânio, tomografia computorizada (TC) ou ressonância magnética (RMN) crâneo-encefálicas. A criança precisa sim de ser observada por um médico com experiência em crianças, febre e CF, de forma que este possa excluir infeções graves do SNC ou outras doenças como causa da febre.

 

Em que circunstâncias se devem administrar fármacos para cessar uma convulsão febril?

 

Como já foi referido, uma CF é, em regra, autolimitada, durando poucos segundos a poucos minutos. Na maioria das vezes, a convulsão cessará espontaneamente antes que haja tempo de se administrar um anticonvulsivante. Contudo, se a criança mantiver movimentos convulsivos, justificar-se-á a administração de diazepam retal ou endovenoso ou midazolam nasal retal ou endovenoso.

 

Existe algum tratamento que possa prevenir as convulsões febris?

 

Sim, existem os fármacos anticonvulsivantes. No entanto, a maioria dos especialistas, mas também os pais com experiência em CF, concordam que os efeitos secundários destes medicamentos (alterações de comportamento, hiperatividade, reações alérgicas, alterações digestivas, sonolência, tonturas, alterações de equilíbrio, etc.) são piores do que o risco de a criança voltar a ter uma nova CF benigna. Além do mais, estes fármacos usados para prevenir as crises nem sempre as evitam. Assim, só em casos muito excecionais é que os anticonvulsivantes estão recomendados.

 

Os medicamentos para baixar a febre evitam as convulsões febris?

 

Perante uma CF, deve-se utilizar sempre um antipirético para baixar a temperatura, com o intuito de aliviar a criança do desconforto causado pela febre.

 

O que se deve fazer se uma criança tiver uma convulsão febril?

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O mais importante é manter a calma pois, de certeza, não irá suceder nada de grave.

Descriminam-se de seguida as atitudes que se recomendam perante uma CF:

  • Deite a criança de lado para que não se engasgue com a saliva nem aspire os alimentos para as vias aéreas, em especial para os brônquios;
  • Não coloque NADA na boca da criança; a língua não se enrola e só excecionalmente poderá ser trincada;
  • Se necessário, e disponível, administre-lhe oxigénio suplementar;
  • Não tente parar os movimentos da criança durante a convulsão segurando-a ou apertando-a; a maioria das convulsões cessa espontaneamente em poucos minutos;
  • Coloque o termómetro para avaliar a temperatura; nestas idades e circunstâncias, o local mais sensível (com menos falsos negativos) para avaliar a temperatura é a nível retal (corresponde à temperatura central); se a criança tiver mais de 38ºC, administre-lhe um ANTIPIRÉTICO para baixar a temperatura (mas lembre-se que este só actua dentro de uma a duas horas);
  • Enquanto a criança estiver inconsciente, não lhe administre xarope para a febre; nestas circunstâncias use antes os supositórios;
  • Se a criança já teve outras crises anteriormente, procure o medicamento de aplicação retal que lhe foi receitado para parar a convulsão – STESOLID® rectal (ampolas com 10 mg de diazepam); mas só deve administrar o diazepam se a convulsão ainda não tiver cessado;
  • Se a convulsão, entretanto terminou, não lhe administre o STESOLID®, pois já não terá qualquer utilidade;
  • Controle o tempo, lembre-se de olhar para o relógio;
  • Se a convulsão demorar a parar (mais do que 10 minutos) dirija-se ao serviço de urgência mais próximo, ou telefone para o 112 (numero telefónico de emergência médica na Comunidade Europeia)
  • Em qualquer das situações, uma observação médica urgente está sempre indicada, pois é muito importante assegurar-se que a febre associada a uma convulsão não é uma doença febril grave.

 

Dr. EGAS MOURA PEDIATRA PORTUGAL

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Um comentário em “O que são convulsões febris?

    Anônimo disse:
    05/11/2017 às 20:38

    Interessante muito atual

    Curtir

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