Crianças em casa afetam o sono das mulheres, mas não o dos homens

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Pauline Anderson

Para mulheres, mas não para homens, ter crianças em casa afeta a quantidade de sono obtido. E, quanto mais crianças, mais o sono é afetado.

Coletar informações sobre o que contribui para o sono insuficiente poderia ajudar a focar em abordagens para alcançar o sono ideal, o que por sua vez pode melhorar a saúde em geral, disse a pesquisadora Kelly Sullivan, do Departamento de Epidemiologia e Ciências de Saúde Ambiental, Jiann-Ping Hsu College of Public Health, Georgia Southern University, Statesboro.
“Nosso ‘vai, vai, vai’ nos impele a fazer mais, e mais, e mais, e a influência dos eletrônicos está cronicamente nos privando do sono”, disse Kelly.

Kelly Sullivan, PhD

“Eu queria me concentrar em quais fatores estão associados ao sono insuficiente para descobrir como abordar este assunto da melhor forma e oferecer soluções”.

Os resultados foram divulgados em 26 de fevereiro e apresentados na reunião anual da American Academy of Neurology (AAN) de 2017.

Os pesquisadores usaram dados de 2012 do Behavioral Risk Factor Surveillance System, uma pesquisa telefônica nacional anual realizada pelos Centers for Disease Control and Prevention (CDC).

A pesquisa, que Kelly descreve como “o maior sistema de pesquisa de saúde continuamente conduzido no mundo”, questiona os entrevistados sobre seus comportamentos relacionados à saúde: por exemplo, se realizam triagem do câncer de mama ou de próstata, ou se mantêm uma estratégia para o controle do diabetes.

Estão incluídas na pesquisa perguntas sobre o sono, inclusive quantas horas de sono os entrevistados têm por dia. Os pesquisadores classificaram as respostas como quantidade ideal de sono, definida pela National Sleep Foundation comodormir de sete a nove horas por dia, ou sono insuficiente, quando se dorme menos de seis horas por dia.

Além disso, os entrevistados forneceram informações sobre o número de dias no mês anterior nos quais não se sentiram descansados.

A pesquisa forneceu dados sobre o índice de massa corporal (IMC) dos participantes, idade, raça, escolaridade, estado civil, atividade física, número de filhos em casa, status de emprego, renda e ronco. Os pesquisadores ajustaram os dados para esses preditores e os estratificaram por sexo.

O estudo incluiu informações de 2897 homens e 2908 mulheres.

Em todo o estudo, 23% dos homens relataram menos de sete horas de sono por dia e 77% relataram sete ou mais horas de sono. Entre as mulheres, 21% relataram menos de sete horas e 79%, sete ou mais horas.

Nos homens, o sono mais prolongado estava associado ao ensino superior (P = 0,0002) e ao ronco (P = 0,02). Entre as mulheres, ter filhos estava inversamente associado à duração do sono (P = 0,002), enquanto estar desempregada (P = 0,009) e ter maior renda familiar (P = 0,03) estava associado à maior duração de sono.

Participantes mais jovens

A pesquisa também analisou a quantidade de sono diário entre os participantes mais jovens. Em homens com menos 45 anos, 30% relataram menos de sete horas dormidas e 70% relataram sete ou mais horas, enquanto em mulheres nessa faixa etária, 25% relataram dormir menos de sete horas e 75% relataram sete ou mais horas.

Em mulheres mais jovens, 48% das que tinham crianças relataram ter um sono ótimo, em comparação com 62% das que não tinham filhos.

Analisando os fatores associados ao sono entre os participantes mais jovens, os pesquisadores descobriram que os homens que não completaram o ensino médio foram mais propensos a relatar sono insuficiente em comparação com os participantes com ensino superior completo (odds ratio, OR, 10,00, intervalo de confiança, IC, de 95%, 1,87 – 53,42). O ronco também foi inversamente associado ao sono insuficiente (OR de 0,31, IC de 95%, 0,11-0,87).

“O achado sobre o ronco contradiz o que foi amplamente estabelecido como sendo um fator de risco para o sono ruim”, disse Kelly. Porém, devido às limitações dos dados sobre o ronco – foi autorrelatado e com um n relativamente baixo – provavelmente não é tão relevante, disse ela.

Em mulheres mais jovens, a única variável associada ao sono insuficiente foi ter filhos. Cada criança aumentou as probabilidades em quase 50% (OR de 1,46; IC de 95%, 1,14-1,87).

Kelly disse que não esperava que as crianças fossem o único fator associado ao sono insuficiente em mulheres mais jovens, ou que não haveria “nenhuma associação para os homens”.

“Eu realmente fiquei surpresa pois acreditava que algumas das outras coisas típicas, como emprego, renda ou exercícios, seriam um fator principal” nestas mulheres mais jovens.

Não está claro o que exatamente está causando a disparidade, disse Kelly. “Por mais incrível que sejam o conjunto de dados e a pesquisa, não temos qualquer percepção da dinâmica familiar, o que é uma grande limitação na tentativa de descobrir o significado ou as razões por trás desses achados”.

Pesquisas mostram que o cérebro da mulher é diferente do cérebro do homem, e da mesma forma os ciclos de sono, disse Kelly. Além disso, há diferenças biológicas nas mulheres a serem consideradas, como mudanças hormonais na gravidez, menopausa e ao longo do ciclo menstrual, e as exigências da amamentação, disse ela.

Kelly observou que outros estudos têm mostrado que as mulheres precisam de mais sono do que os homens para se sentirem devidamente descansadas.

Neste estudo, ter filhos em casa foi associado ao sentimento de cansaço entre mulheres mais jovens (P = 0,001). Aquelas com crianças relataram se sentirem cansadas 14 dias em um mês, em comparação com 11 dias para aquelas sem crianças. Novamente, isso não era a realidade para homens mais jovens (P = 0,10).

Kelly ressaltou que as relações dos entrevistados com as crianças no ambiente familiar não ficaram claras. Eles poderiam não ser biologicamente relacionados, ou serem irmãos mais velhos de crianças na casa.

Sono, uma prioridade

Os resultados do estudo destacam a importância de “priorizar o sono”, disse Kelly. Técnicas tradicionais de higiene do sono (como por exemplo, não usar eletrônicos no quarto ou ingerir cafeína antes de dormir) podem ajudar da mesma forma que o controle do estresse.

Os achados do estudo também não foram surpreendentes para o especialista em medicina do sono Dr. Donn Dexter, vice-presidente médico, Northwest Wisconsin Region, Mayo Clinic Health System, Eau Claire; professor assistente, neurologia, Mayo Clinic College of Medicine; e fellow da AAN.

Solicitado a comentar a pesquisa, Dr. Dexter observou que, como as informações vieram de uma pesquisa telefônica, podem não haver dados suficientes para “apoiar qualquer teoria forte” sobre por que as mulheres mais jovens com filhos em casa estão ficando para trás em relação ao sono.

Ele refletiu sobre a própria experiência de ter três filhos pequenos em casa. “Embora eu tentasse ser um pai responsável, acho que a maioria das tarefas em relação a criação das crianças, e certamente as tarefas de levantar à noite para cuidar delas quando estavam doentes, chorando ou com os dentes nascendo, ficaram para minha esposa.” Ele estimou que, quando se tratava de tarefas relacionadas às crianças, a divisão entre ele e a esposa provavelmente estava “perto de 70-30 (%)”.

Ele enfatizou que não fez nenhuma “pesquisa exaustiva” sobre o tema, mas tem a impressão de que, apesar de os gêneros terem um nível maior de igualdade em muitos aspectos, “as tarefas rotineiras e domésticas ainda recaem desproporcionalmente sobre as mulheres”.

Ele questionou o progresso realizado nesta área. “Seria interessante olhar para trás, digamos, para as décadas de 1930 ou 1960 e comparar com o momento atual. Eu me pergunto se haveria alguma diferença.”

Ao comentar os achados sobre o ronco entre os homens, o Dr. Dexter concordou que “você não pode relacionar a qualidade do sono com a quantidade de sono”.

“As pessoas que roncam podem dormir mais horas, mas podem não ter um bom sono, então é preciso ter muito cuidado ao usar o tempo como um marcador de qualidade”.

Reunião anual da American Academy of Neurology (AAN) de 2017. Resumo P3.060. Apresentado em 25 de abril de 2017.

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