Mesmo sono “quase ideal” está associado a maior risco de sintomas de depressão e ansiedade

Postado em

Deborah Brauser

BOSTON — Embora pesquisas anteriores tenham mostrado uma associação entre disfunção grave do sono e sintomas psicológicos, uma nova pesquisa sugere que mesmo uma quantidade “quase ideal” de sono pode ter efeito adverso.

Avaliando dados de uma pesquisa nacional por telefone com mais de 20.000 participantes adultos, os pesquisadores observaram que cada hora de sono adicional foi significativamente associada a um risco menor de sintomas de depressão, desesperança, nervosismo, e sensação de inquietação ou agitação.

Por outro lado, dormir muito pouco foi associado a um maior risco para cada um desses efeitos adversos comparados com a duração ideal do sono (definida como sete a nove horas por noite).

Além disso, “dormir apenas uma hora a menos do que a duração ideal do sono foi associado a aumento de 60% a 80% nas chances de cada um desses sintomas”, a autora principal, Kelly L. Sullivan, professora-assistente na Georgia Southern University, Statesboro, afirmou durante apresentação no encontro anual de 2017 da American Academy of Neurology (AAN).

Kelly L. Sullivan

Posteriormente, Kelly disse ao Medscape ter ficado surpresa com o quão robusto foi este último resultado. “Após uma noite sem sono, pode-se compensar. Mas quando se tem problemas crônicos, que fazem com que não se consiga dormir o suficiente, todos sentimos esses efeitos”, disse ela.

“Acredito que ter esta confirmação nos nossos dados pode servir para chamar a atenção dos profissionais a realmente entender o potencial para fazer diferença e não subestimar mesmo as queixas leves de sono”.

Conjunto de dados únicos

Embora os distúrbios do sono no geral sejam comuns em pacientes com depressão e/ou ansiedade, “a associação de pequenas deficiências de sono, controlando outros fatores de risco em uma população adulta geral, não foi estudada antes”, escrevem os pesquisadores.

“Temos muita literatura consistente de estudos sobre distúrbios de humor e distúrbios do sono, mas frequentemente eles focam em privação extrema de sono, que às vezes é clinicamente induzida”, disse Kelly.

No estudo atual, “avaliar uma população real foi único. Mas também, ter esses dados contínuos, nos quais podemos avaliar distúrbios mais leves do sono, foi uma grande oportunidade”, acrescentou.

Os pesquisadores avaliaram dados de 20.851 participantes (50,4% mulheres; média de idade, 47,5 anos) no Behavioral Risk Factor Surveillance System de 2012. Esta pesquisa por telefone dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC) perguntou aos adultos sobre uma grande variedade de tópicos de saúde, incluindo hábitos de sono, exercícios, e características demográficas. “Portanto, é baseado em relato dos próprios indivíduos”, observou Kelly.

Os participantes foram perguntados quantas horas de sono eles normalmente tinham em um período de 24 horas, incluindo cochilos. Eles também foram questionados se sentiam-se especificamente nervosos, sem esperança, inquietos/agitados ou deprimidos, ou sem conseguirem se animar nos últimos 30 dias – e quantos dias consideravam que a própria saúde mental “não era boa”.

O sono ideal (sete a nove horas por noite) foi relatado por 60,6% dos participantes, a duração “baixa, mas aceitável” (seis horas) foi relatada por 23,8%, e o sono insuficiente (cinco horas ou menos) foi relatada por 12,9%.

Após ajuste para fatores como idade, sexo, raça e índice de massa corporal, “a duração do sono foi inversamente associada ao número de dias de saúde mental ruim”, relatam os pesquisadores, com uma estimativa de -0,80 (intervalo de confiança, IC, de 95%, -0,94 a -0,66).

Eles descobriram que cada hora de sono adicional além do sono ideal foi associada a menores probabilidades de cada desfecho adverso de humor questionado.

Tabela 1. Risco para desfechos com cada hora adicional além do sono ideal

Desfecho Odds ratio ajustadas (IC de 95%)
Depressão 0,77 (0,73 – 0,80)
Desesperança 0,79 (0,76 – 0,82)
Inquietação 0,75 (0,72 – 0,77)
Nervosismo 0,80 (0,77 – 0,82)

“Eu acho importante destacar que estes números são baseados em mudanças de uma hora no sono. Então isso poderia realmente se acumular por várias horas”, observou Kelly.

Além disso, tanto o pouco sono quanto o sono “levemente insuficiente” estavam significativamente associados a riscos maiores comparados com o sono ideal.

Tabela 2. Risco dos desfechos com pouco sono ou sono levemente insuficiente em comparação com sono ideal

Desfecho Odds ratio ajustada (IC de 95%)
≤ 5 em relação a 7 – 9 horas de sono por noite
Depressão 3,91 (3,39 – 4,52)
Desesperança 3,17 (2,75 – 3,67)
Inquietação 3,93 (3,44 – 4,49)
Nervosismo 3,11 (2,72 – 3,56)
6 em relação a 7 – 9 horas de sono por noite
Depressão 1,79 (1,5 – 2,1)
Desesperança 1,68 (1,4 – 1,9)
Inquietação 1,76 (1,5 – 2,0)
Nervosismo 1,61 (1,4 – 1,8)

Mulheres que dormiam seis e não sete a nove horas de sono por noite tiveram maior risco para cada desfecho adverso do que os homens, especialmente para os sentimentos de depressão. Elas também tiveram uma maior associação inversa entre boa duração do sono e o número de dias de saúde mental ruins.

Os resultados gerais mostram “uma visão única sobre a associação de sintomas psicológicos e deficiência leve de sono”, disse Kelly, reiterando que uma duração “baixa, mas aceitável” do sono, de seis horas, foi relatada por quase um quarto da grande população de pacientes. “Então isso é bastante comum”.

No entanto, as limitações do estudo citadas, incluíram que a influência de outras comorbidades ou medicamentos não foi estudada. E Kelly destacou que quantidade de sono não necessariamente significa qualidade. Além disso, ela observou que as conclusões do estudo precisam ser mais avaliadas em estudos prospectivos.

“Oportunidades de abrir portas”

“Kelly Sullivan nos lembrou de alguns efeitos adversos de sono deficiente”, disse o comentador oficial e comoderador de sessão Dr. Michael S. Jaffee, Departamento de Neurologia da University of Florida,em Gainesville, após a apresentação.

“Eu fiquei bastante impressionado com os dados que ela coletou e com a robustez da ausência de apenas uma hora de sono. Isso pareceu bastante dramático, com risco aumentado de 60% a 80%”, disse o Dr. Jaffee.

Seu colega moderador, Dr. Bradley Vaughn, do Departamento de Neurologia da University of North Carolina, Chapel Hill, disse ao Medscape que é importante lembrar que os estudos deste tipo de estudo dependem da percepção do indivíduo. “Então eu espero que não tentemos generalizar um domínio para vários domínios, que é a única ressalva deles”.

Dr. Vaughn acrescentou que os fatores são bidirecionais.

“Sabemos que quando os pacientes consultam com problemas ou queixas de humor, precisamos perguntar sobre o sono e, da mesma forma, quando eles chegam com queixas de sono, precisamos perguntar sobre o humor. Acho que ambas são oportunidades de abrir portas para explorar questões subjacentes”, disse ele.

Kelly, Dr. Vaughn, e o Dr. Jaffee declararam não possuir conflitos de interesses relevantes.

Encontro Anual de 2017 da American Academy of Neurology (AAN). Resumo S14.006. Apresentado em 24 de abril de 2017.

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