Canabidiol reduz crises atônicas na síndrome de Lennox-Gastaut

Postado em

Pauline Anderson

Acrescentar canabidiol à terapia com medicamentos antiepilépticos reduz significativamente a frequência de crises atônicas em pacientes com síndrome de Lennox-Gastaut (SLG), revelaram os resultados de um estudo de fase III controlado por placebo.

Embora a terapia complementar tenha causado mais eventos adversos do que o placebo, no geral ela foi bem tolerada, relatam os pesquisadores.

Os novos dados são “emocionantes”, porque representam outro possível passo em direção à aprovação deste agente pela FDA (Food and Drug Administration) dos EUA, e dão “novas esperanças” à pacientes com SLG, disse ao Medscape o pesquisador principal, Dr. Anup Patel, professor-associado de Neurologia e Pediatria, no Nationwide Children’s Hospital e no Ohio State University Medical Center, em Columbus.

“Se aprovado, teremos outra opção para usar em um estado da doença que tende a ser muito resistente ao tratamento”, disse.

Dr. Anup Patel

Os resultados do estudo foram divulgados em 18 de abril e serão apresentados por completo na reunião anual da Academia Americana de Neurologia (AAN) de 2017, em Boston, Massachusetts.

A síndrome de Lennox-Gastaut é um tipo relativamente raro de epilepsia, que tipicamente se desenvolve entre três e cinco anos de idade. Pode ser causada por muitos fatores, incluindo malformação cerebral, lesão grave na cabeça, infecção do sistema nervoso central e uma doença degenerativa ou metabólica hereditária. Entretanto, em até 30% dos casos não é possível definir uma causa. Outra característica desta condição é ser muito resistente à terapia.

Pacientes com síndrome de Lennox-Gastaut frequentemente têm múltiplos tipos de convulsões, incluindo as crises atônicas. Estas são geralmente muito breves e são caracterizadas por perda súbita da força muscular, causando acenos de cabeça, perda postural e quedas ao chão.

O estudo multicêntrico incluiu 225 pacientes portadores da síndrome de Lennox-Gastaut , com idade média de 16 anos (30% eram adultos e o mais velho tinha 55 anos). Estes pacientes tiveram oito ou mais crises convulsivas durante um período de quatro semanas, no qual foram definidas as frequências basais para cada paciente; com falha de pelo menos um medicamento antiepiléptico.

A mediana da frequência mensal de crises atônicas foi de 85. Uma mediana de seis medicamentos antiepilépticos já tinham falhado anteriormente, e no momento do estudo os pacientes estavam tomando uma mediana de três fármacos antiepilépticos.

Os pesquisadores dividiram randomicamente os pacientes em grupos que receberiam placebo ou canabidiol em doses de 20 ou 10mg/kg/dia. Após um período de titulação de duas semanas, os pacientes continuaram em tratamento por 12 semanas.

Formulação oral

O agente canabidiol, que não contém tetrahidrocanabinol (THC), e portanto não tem propriedades psicoativas, é uma formulação à base de óleo de gergelim, com sabor de morango, administrado com um seringa. Um participante com 54kg receberia cerca de duas colheres de chá do medicamento duas vezes ao dia.

O desfecho primário de eficácia foi a mudança percentual em relação à frequência basal de crises atônicas, que tendem a ser o tipo mais prevalente de convulsão em pacientes com síndrome de Lennox-Gastaut , de acordo com o Dr. Patel.

“Com maior importância, trata-se do tipo de convulsão mais incapacitante e que tem o maior risco de lesões”, disse ele.

Do total, nove pacientes do grupo em terapia com 20mg/kg de canabidiol, dois do grupo em tratamento com 10mg/kg de canabidiol e dois do grupo placebo, saíram mais cedo do estudo.

A análise mostrou que, em comparação ao placebo (com uma variação percentual de 17%), a redução da frequência de crises atônicas foi significantemente maior com 20mg/kg (42%; P=0,0047) e 10mg/kg (37%; P=0,0016) de canabidiol.

Eventos adversos ocorreram em 94% dos pacientes do grupo em terapia com 20mg/kg de canabidiol, em 84% do grupo com 10mg/kg e em 72% do grupo placebo, sendo a maioria leve ou moderado. Os dois eventos adversos mais comuns, ocorrendo em mais de 10% dos pacientes, foram sonolência e diminuição do apetite.

Foram reportados eventos adversos graves relacionados ao tratamento em cinco pacientes que receberam 20mg/kg de canabidiol, em dois que receberam a dose de 10mg/kg e em nenhum do grupo placebo.

Em geral, 13 pacientes apresentaram níveis elevados de aminotransferase, o que pode indicar problemas hepáticos. No entanto, Dr. Patel apontou que 10 destes pacientes também estavam tomando o antiepiléptico ácido valpróico, o que pode ter contribuído para esta elevação.

Nenhum paciente morreu durante o estudo.

Dr. Patel apontou que tanto os participantes do grupo placebo quanto aqueles que receberam o agente ativo tiveram uma alta taxa de eventos adversos.

“Obviamente, a taxa foi maior nos grupos que receberam o medicamento, mas esse número é muito semelhante ao percentual geral de eventos adversos observados em outros estudos de pacientes com síndrome de Lennox-Gastaut “, disse ele. “Esta é uma população de pacientes muito doentes e eles geralmente têm outros problemas”.

Ele também salientou que o número de participantes que desistiram do estudo foi pequeno.

Dos 212 que chegaram até o fim, 99% entraram no estudo aberto de extensão.

Resultados de estudos anteriores com o medicamento na síndrome de Lennox-Gastaut já haviam sido divulgados, mas o novo aqui, disse o Dr. Patel, é que os pesquisadores somaram resultados das taxas de resposta (uma redução de 50% ou mais na frequência mensal de crises atônicas) e do questionário Caregiver Global Impression of Change (CGI), que é uma espécie de “marcador de qualidade de vida”.

O medicamento superou o placebo em ambos resultados, disse o Dr. Patel.

A taxa de resposta foi de 15% no grupo com placebo vs 36% no grupo com dose menor de canabidiol (P = 0,0030) e 40% no grupo com a dose maior (P=0,0006).

Quanto ao questionário CGI, 66% dos pacientes que receberam a dose menor, e 57% dos que receberam a dosagem maior relataram uma melhora na doença em geral, comparado com 44% dos pacientes usando placebo (P < 0,05 para ambas comparações).

Também na reunião da AAN, os pesquisadores anunciaram os resultados de um segundo estudo cego controlado comparando apenas a dose de 20mg/kg com placebo em pacientes com síndrome de Lennox-Gastaut . Além disso, apresentaram resultados de pesquisas semelhantes sobre o medicamento em pacientes com a síndrome de Dravet, outra doença convulsiva rara.

Até hoje,  a GW Pharmaceuticals já recebeu da FDAa designação de medicamento órfão para o Epidiolex no tratamento de síndrome de Dravet, síndrome de Lennox-Gastaut , complexo de esclerose tuberosa e espasmos infantis.

Além disso, a GW recebeu a designação “fast track” da FDA para o tratamento da síndrome de Dravet, bem como designação de medicamento órfão da Agência Europeia de Medicamentos para o medicamento no tratamento das síndromes de Dravet e de Lennox-Gastaut .

Comentando sobre estes achados ao Medscape, Dra. Amy Brooks-Kayal, chefe e professora da Cátedra da Família Ponzioem Neurologia Pediátrica, na University of Colorado, Denver, e ex-presidente da American Epilepsy Society (AES), apontou que estes resultados são similares às reduções convulsivas relatadas em diversos resumos apresentados em dezembro de 2016 na reunião da AES em Houston, Texas.

“Estes resultados sugerem que o canabidiol pode ser uma terapia adjuvante eficaz para epilepsia resistente aos tratamentos, e pode ser útil na redução da frequência das convulsões, embora tenha uma alta taxa de efeitos adversos e baixa taxa de liberdade das crises”, disse ela.

O estudo foi financiado pela GW Pharmaceuticals. Dr. Patel recebeu verba para pesquisa da GW Pharmaceuticals. Dra. Amy declarou não possuir nenhum conflito de interesse relevante.

Reunião Anual da Academia Americana de Neurologia (AAN) de 2017. Emerging Science Platform 008. Apresentado em 25 de abril de 2017.

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