Saúde! O álcool como remédio através da História

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Steven Rourke 

Slides 1

O uso do álcool ao longo da história está arraigado nas confusões e complicações da vida humana – normas sociais, cultura, rituais, religião, economia, crenças médicas, momentos de diversão e, provavelmente, muito mais. O uso terapêutico do álcool parece ser tão antigo como o próprio álcool, sendo, sem surpresa, comum a muitas culturas ao longo do tempo e em todo o mundo. Nos próximos slides, iremos perscrutar algumas sociedades para ver o que bebiam e com quais indicações clínicas, construindo o nosso entendimento dos prós e contras do álcool no século XXI e de como eles se relacionam com a saúde e o bem-estar.

Slides 2

Vinhos de arroz e remédios à base de plantas na China Antiga

Os vasos de argila encontrados no norte da China, que datam de 7000-6000 a.C., parecem ser a mais antiga prova da existência do álcool que chegou até nós. Estes vasos continham uma mistura de vinho de arroz temperado com mel e uvas.[2,3]

O Yao jiu, ou álcool puramente medicinal – em oposição ao álcool fermentado (jiu huang) e ao álcool destilado (jiu bai) –, teve usos específicos para os antigos chineses, com base no sexo e na idade do paciente, como bem como no contexto e na doença.[2,3]

Os remédios à base de plantas contendo álcool fazem parte de todas as mais importantes obras chinesas sobre prescrição de ervas e medicamentos, e foram, de um modo geral, preparados para promover o “aquecimento” e a “vitalização” do sangue.[4] A literatura médica chinesa também refere circunstâncias que exigem que sejam bebidas certas quantidades de álcool, e discute os efeitos colaterais do uso e dos excessos desses “remédios”.[4]

Slides 3

Cerveja e vinho no Egito faraônico

Datado de cerca de 3.400 a.C., acredita-se que a mais antiga cervejaria conhecida tenha sido em Nekhen (também conhecida como Hieracônpolis), no Egito. A fabricação de cerveja era uma arte sofisticada no Egito dos faraós e a bebida, “uma necessidade da vida”, era popular. Osíris, o deus da vida e dos mortos, também era o deus do vinho, que era considerado uma poção de renovação em grande parte importada para as classes mais ricas. Tanto a cerveja quanto o vinho faziam parte integrante da vida ritual, atrelados à saúde e à religião. O consumo de álcool era generalizado e geralmente moderado para “o prazer, a nutrição, a medicina, o ritual religioso, a remuneração e os funerais”.[2,3]

Slides 4

O vinho e a sofisticação na Grécia clássica

Considerado um agente terapêutico para o corpo e a mente, para homens e mulheres,[7] o vinho foi amplamente prescrito pelos médicos na Grécia Clássica[6] para doenças como “vento”, mau-hálito, câncer e feridas, e para “soltar o intestino”.[2] Hipócrates considerava o vinho um medicamento apropriado para muitas doenças, exceto aquelas envolvendo “um peso avassalador do cérebro”.[2] O vinho desempenhou um papel ativo na patologia e no tratamento (em uso interno e externo),[7] com os médicos gregos exercendo o próprio discernimento sobre a utilização apropriada dele.[6]

Hipócrates e Galeno catalogaram seus conhecimentos acerca do vinho na medicina, escrevendo sobre os efeitos positivos e negativos do consumo do álcool. Suas terapias levavam em consideração a cor do vinho, a origem, o sabor ou consistência, o cheiro e a idade, e eram direcionadas à idade, sexo e estilo de vida do paciente, bem como à doença dele.[6] Galeno acreditava que as terapias alcoólicas não eram apropriadas para as crianças, mas eram eficazes para os idosos. [6]

Slides 5

Remédios de vinho e excessos no Império Romano

O uso do vinho como remédio no Império Romano foi influenciado pelas tradições gregas e etruscas.[8] Os romanos adotaram uma mistura de vinho e olíbano ou mirra para entorpecer os sentidos antes da cirurgia, prática esta que acredita-se proveniente da medicina talmúdica.[9] O consumo de vinho para uma série de propósitos – notadamente para o sustento e o prazer – aumentou no segundo século a.C. e, com a expansão do império se estendeu por toda parte.[10] Talvez pela primeira vez na História o consumo excessivo de álcool tenha se tornado um passatempo popular.

Slides 6

A água da imortalidade na Idade Média

Em toda a Europa durante a Idade Média a fabricação de cerveja era uma ocupação importante para os mosteiros e as ordens religiosas.[3] A cerveja era uma fonte essencial de sustento[11]: entre 1000 e 1500 d.C., acredita-se que o adulto médio na Inglaterra consumisse cerca de um litro de cerveja por dia.[3] Médicos e monges continuaram a acreditar nas propriedades medicinais do álcool, incluindo – com entusiasmo – as novas misturas de destilados, como a acqua vitae, o medicamento divino.[2]

A Polônia do século VIII e a Rússia do século IX atribuíam propriedades medicinais à vodca, feita a partir de frutas, ervas, especiarias, absinto, castanha, vidoeiro, chicória, azeda, endro, rábano, hortelã e limão.[11]

O médico Arnaldus de Villanova considerava a aguardente a “cura de todas as doenças”,[3] que oferecia calor contra as febres e as “doenças frias”, e profilaxia contra a onipresente peste. Ele entendia a destilação como a “essência da vida”.[12] No Liber de vinis, ele descreveu as propriedades medicinais do álcool que foram “adequadas para todas as idades, todos os momentos e todas as regiões”. O álcool ajudou a confortar o coração, a curar “feridas na cabeça”, a favorecer a digestão e o apetite, e a proteger contra icterícia, hidropisia, precordialgia e gota. Também era usado para tratar as doenças da bexiga e as “mordeduras de cães raivosos”, para suscitar a coragem e para aumentar a memória.[2,3]

Slides 7

Pulque, hidromel e álcool de milho na Mesoamérica

O consumo de álcool por razões sociais, rituais, medicinais e para fins religiosos parece estar amplamente difundido através da História e das sociedades. Na Mesoamérica as evidências sugerem que os maias fabricavam o hidromel e o álcool de milho já em 1000 a.C.[1] O álcool também era obtido de cactos, frutos e cascas,[2] tal como refletido nos artefatos que chegaram até a atualidade e descrito num certo número de códices escritos pelos conquistadores espanhóis. Acredita-se que o uso medicinal do álcool tenha sido difundido nas Américas na era pré-Colombiana, variando em cada cultura e de acordo com a posição na sociedade.[2]

Preso na Torre de Londres em 1603, Sir Walter Raleigh procurou fabricar uma “grande aguardente”, mistura alcoólica com mais de 40 plantas e ervas que ele tinha trazido na volta das Américas, um “elixir da vida” que, aparentemente, teve o beneplácito da Rainha da Dinamarca.[12]

Slides 8

Uma questão de dose

Durante o Renascimento e o Iluminismo, prevalecia a crença continuada nas propriedades restauradoras e medicinais da cerveja e do vinho, apesar de já haver um maior entendimento de anatomia. O álcool era prescrito nos hospitais de Londres até o século XVIII, mas em última análise, com o aprofundamento do saber médico, houve uma descrença progressiva sobre o papel dele na promoção da saúde e a clara consciência do peso do alcoolismo.[2]

Embora os médicos mais sofisticados tenham começado a questionar o papel dos remédios populares contendo álcool, aparentemente David Hume foi tratado com bebidas alcoólicas quando teve um colapso nervoso (“doença do letrado”), e os tônicos alcoólicos ainda eram prescritos para crianças apresentando uma gama de doenças.[2]

O chá, importado da Ásia, ganhou força como nova panaceia, talvez substituindo o álcool como o novo milagre que tudo cura.[2]

Slides 9

A folia do gim

Entre as sementes da mudança apresentadas à Inglaterra pela Holanda, do rei Guilherme de Orange, estava uma nova bebida alcoólica popular: água de junípero (ou zimbro) destilada (genebra ou gim). Acreditava-se que fosse um tônico ideal para o tratamento de queixas do estômago, gota, cálculos biliares e para rins, fígado e coração.[12] De acordo com o médico irlandês Dr. Robert Bentley Todd, professor de medicina no King’s College London, ela auxiliava os processos de cura natural.[11]

Barato e amplamente disponível, o gim promoveu um vício generalizado, provocando uma crise de saúde pública comparável à epidemia de heroína da atualidade.[12] Uma série de iniciativas políticas, como a petição de 1736 do Royal College of Physicians, a Lei do Gim de 1736, a tributação rigorosa e as políticas de policiamento, acabou ajudando a aplacar a folia do gim.[11,12]

Slides 10

Absinto, a fada verde

Favorita dos boticários por milênios, com propriedades terapêuticas conhecidas desde o Egito Antigo, a losna (ou sintro) era considerada como o principal ingrediente medicinal do absinto – bebida alcóolica destilada verde brilhante com sabor de anis, propalada como tendo sido criada na França em 1792 pelo médico suíço Dr. Pierre Ordinaire.

O absinto, ou “a fada verde”, cujo teor alcoólico era de 60%, tornou-se a última moda na sociedade artística parisiense do século XIX e foi celebrado por Charles Baudelaire, Paul Verlaine e Arthur Rimbaud. Os supostos efeitos medicinais da aguardente luminosa abrangiam o alívio da indigestão, dos vermes intestinais, do reumatismo, das “crostas genitais em mulheres virgens” e das dores do parto. No entanto, o absinto foi proibido em toda a Europa no início de 1900 por induzir o absintismo, ominosa síndrome composta por tremores, convulsões e alucinações.[2]

Atualmente a ciência nos diz que provavelmente a classe artística simplesmente sofreu de alcoolismo e abstinência alcoólica. O absinto, incluindo amostras da virada do século, não parece conter nenhum alucinógeno ou substância psicoativa além do etanol.[17]

Imagens: cortesia Wikimedia Commons

Slides 11

Mint Julep , coquetéis e tônicos nos Estados Unidos

O Mint Julep, uma combinação de menta e uísque (e talvez um dos  precursores do coquetel moderno), foi criado no sul dos Estados Unidos no século XVIII. Alguns prescreveram como terapêutica para todos os tipos de doenças e mazelas do clima (sulista norte-americano).[12] Como tônico ou elixir o Mint Julep fez parte de uma onda de bebidas pseudomedicinais conhecidas como “revigorantes”, “medicamentos patenteados” e “elixires estomacais”, muitas vezes utilizados para “tratar a constituição das mulheres”. Outros tônicos populares da época – menos coquetéis do que remédios, e frequentemente comercializados como bebidas sem álcool – foram o Parker’s Tonic (42% de álcool), o Dr Hoofland’s German Bitters (26% de álcool), o Dr Kaufmann’s Sulphur Bitters (26% de álcool), o Whiskol (28% de álcool), o Colden’s Liquid Beef Tonic (27% de álcool) e o Lydia E. Pinkham’s Vegetable Compound para as “queixas femininas”.[12]

Slides 12

Movimentos pela temperança

Durante a Guerra Civil, na ausência de medicamentos, muitas vezes o brandy, o ponche e a gemada foram utilizados para tratar choques, doenças, desmaios e mordidas de cobra.[12] Isso pode ter ajudado a difundir o uso e o abuso de álcool e, talvez, tenha desempenhado algum papel na origem do movimento pela temperança.[12] Oficialmente fundado em 1808 nos Estados Unidos, 1817 na Inglaterra, 1818 na Suécia, na década de 20 do século IX na Irlanda, e em 1836 na Nova Zelândia,[3] a maior parte dos movimentos pela temperança foi inicialmente hostil ao consumo de álcool destilado em prol do álcool fermentado, como a cerveja e o vinho, antes de se voltar contra qualquer tipo de álcool. Com o aprofundamento do conhecimento médico no final do século XIX, o álcool tornou-se menos popular para uso terapêutico; sua utilização como “tratamento” foi cada vez mais associada aos ineficazes medicamentos populares (não científicos).

Slides 13

Proibição e os ventos da mudança

O uso de álcool para fins terapêuticos dividia a profissão médica no início do século XX. Na ausência de outras opções, ele foi, em alguns casos, utilizado como terapêutica durante a epidemia de Gripe Espanhola e no tratamento da pneumonia.[12] No entanto, o aprofundamento do conhecimento acerca dos efeitos colaterais do uso excessivo abasteceu o apelo à proscrição do álcool, levando à proibição da bebida em vários países, como Rússia (1916 a 1917), Noruega (1919 a 1927), Finlândia (1919 a 1932) e Estados Unidos (1920 a 1933).[3]

Nos Estados Unidos o uso terapêutico do álcool atingiu um novo patamar durante os tumultuados anos da Lei Seca. Os médicos norte-americanos foram autorizados a fazer 100 prescrições de whisky medicinal a cada três meses, o que representou cerca de sete milhões de litros em 1927.[11]

Slides 14

Atitudes modernas

Com um cabedal de pesquisas clínicas no século XX informando sobre os efeitos negativos do álcool, não é surpresa que a sua utilização terapêutica tenha desacelerado até virtualmente parar. Mas o que fazer com as crescentes evidências das possíveis propriedades cardioprotetoras relacionadas ao consumo moderado de vinho? E o bem-estar social de compartilhar de um copo ou dois? O debate (médico) continua.

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Um comentário em “Saúde! O álcool como remédio através da História

    Anônimo disse:
    05/02/2017 às 19:00

    Great arthicle 👍

    Curtir

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