A maioria das crianças com ansiedade enfrenta recorrência, independentemente do tratamento

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Nancy A. Melville

SÃO FRANCISCO – Crianças tratadas para transtornos de ansiedade com psicoterapia, antidepressivos ou uma combinação de ambos não mostram diferenças significativas nos desfechos ou na remissão com cinco anos de seguimento. Além disso, a maioria das crianças tem recaída e ansiedade crônica, mostram dados de longo prazo.

“Estes dados nos ensinam que precisamos avaliar regularmente nossos pacientes quanto a recorrência, porque a maioria dos pacientes tratados tem recaída, e precisamos de um mecanismo melhor para detectar isso antes da recaída”, disse Golda Ginsburg, da University of Connecticut School of Medicine, em Farmington.

Golda apresentou os resultados na Conferência de 2017 da Anxiety and Depression Association of America (ADAA).

Dados de cinco anos

Os resultados são do Child/Adolescent Anxiety Multi-Modal Extended Long-term Study (CAMELS), que avaliou uma ampla gama de resultados clínicos e funcionais de 319 jovens que estavam previamente inscritos no Child/Adolescent Anxiety Multimodal Study (CAMS) e que foram tratados para a ansiedade.

No estudo CAMS, 488 pacientes de sete a 17 anos foram aleatoriamente designados para receber um de quatro tratamentos: terapia cognitivo-comportamental, TCC, (n = 139); o antidepressivo sertralina (n = 133); uma combinação de sertralina e TCC (n = 140); ou placebo (n = 76).

Os resultados do estudo mostraram que a resposta mais forte, avaliada na escala Clínica de Impressão Global – Melhoria Global (CGI-I) imediatamente após o tratamento e com 36 semanas de acompanhamento, foi no grupo de terapia combinada (80,7). Respostas menores foram observadas nos grupos TCC e sertralina (59,7 e 54,9, respectivamente). As respostas em todos os grupos que receberam tratamento ativo foram melhores que dos pacientes que receberam placebo (23,7).

No acompanhamento do CAMELS, que envolveu 65% dos pacientes do CAMS, a idade média dos pacientes era de 17 anos, sendo 44% do sexo masculino, e o tempo médio de participação no estudo CAMS foi de seis anos.

Avaliações de acompanhamento, realizadas anualmente por cinco anos, mostraram que, em geral, cerca de 50% dos pacientes estavam em remissão após o CAMS. Os pacientes que responderam no CAMS tiveram probabilidade significativamente maior de permanecer em remissão em relação aos pacientes que não responderam nos primeiros três anos do CAMELS (P < 0,05). Não houve diferenças entre os grupos no ano 4.

“O que isso nos diz é que os pacientes que responderam ao tratamento tiveram probabilidade maior de ficar sem ansiedade após vários anos”, disse Golda.

A avaliação posterior dos resultados de acordo com o tipo de tratamento recebido mostrou que, embora os pacientes no grupo de terapia combinada no CAM tivessem maior probabilidade de atingir a remissão, os resultados se igualaram nos anos subsequentes, sem diferenças de acordo com o tipo de tratamento para os quatro anos restantes.

No quinto ano, a taxa de remissão no grupo de terapia combinada foi semelhante à observada no grupo placebo (embora o tratamento tenha sido oferecido aos jovens no grupo placebo após 12 semanas no CAMS).

Maior amostra até o momento

Uma avaliação geral dos pacientes com dados em três ou mais momentos (n = 224) no CAMELS mostrou que apenas 21,4% estavam consistentemente em remissão, definida como não ter diagnóstico de ansiedade (de acordo com os critérios do DSM-IV) no acompanhamento, enquanto 29,9% tinham ansiedade crônica, definida como sempre preencher os critérios de diagnóstico ao longo de todo o período de acompanhamento. Quase metade (48,7%) foi classificada como apresentando recaída, definida como flutuar entre preencher e não preencher os critérios de diagnóstico para ansiedade durante o período de acompanhamento.

Não houve diferenças significativas no tipo de tratamento para as três categorias de pacientes – aqueles que recaíram, aqueles em remissão, ou aqueles com ansiedade crônica. Os pacientes que não responderam ao tratamento (de qualquer tipo) no estudo CAMS tiveram probabilidade quase duas vezes maior de ter ansiedade crônica no acompanhamento, em comparação com aqueles que responderam ao tratamento.

Uma avaliação completa de potenciais preditores de desfechos mostrou que aqueles que alcançaram a remissão, comparados àqueles com ansiedade crônica, tinham maior probabilidade de ser do sexo masculino, mais jovens e de ter maior funcionamento global no início do estudo, menor gravidade da ansiedade no início do estudo, melhor funcionamento familiar e menos eventos de vida negativos.

Em todos os casos, os preditores foram significativos apenas em comparação com aqueles com ansiedade crônica, não em relação aos que recidivaram.

Uma revisão separada dos desfechos funcionais mostrou uma associação entre a resposta ao tratamento no estudo CAMS e melhor funcionamento global, menor disfunção e maior satisfação com a vida no seguimento do CAMELS.

Curiosamente, essa análise foi a única a mostrar efeito de um tratamento específico, com a TCC apresentando efeito significativamente maior do que o placebo em relação à qualidade de vida. Os benefícios foram mantidos ao longo do tempo.

“A identificação dessas variáveis ​​podem nos ajudar a entender e fazer melhores previsões sobre quais pacientes precisarão de intervenção adicional”, disse Golda.

Faltam pesquisas sobre o tratamento da ansiedade em jovens com antidepressivos e terapia combinada por mais de dois anos. Embora tenham sido realizados estudos de longo prazo sobre a TCC, a maioria é em um único centro; o novo estudo multicêntrico representa a maior amostra até o presente, disse Golda.

No geral, os resultados mostram um cenário que talvez seja tão encorajador quanto desencorajador, disse ela.

“Ao avaliar os dados, fico em dúvida se estes são ou não são bons desfechos.

“Com taxas de remissão de 50% em cada ano (no estudo CAMELS), você poderia dizer que são fenomenais, porque começamos com 100%. Assim, se pudermos reduzir em 50% o número de jovens com um transtorno de ansiedade por até seis anos, isso é bem impressionante”, disse ela.

“E o resultado de que nenhum dos tratamentos se destacou como tendo maiores efeitos em longo prazo na verdade também é um pouco encorajador, porque nem todos esses tratamentos podem estar disponíveis em alguns contextos.

“Por outro lado, um enorme percentual (30%) ainda está cronicamente doente e a maior porcentagem de pacientes era de pacientes com recaídas, que seguem precisando de ajuda”, acrescentou.

Cenário perturbador

Em comentário sobre o estudo, Scott Compton, professor-associado de Psiquiatria e Ciências Comportamentais na Duke University School of Medicine, em Durham, Carolina do Norte, disse que os resultados mostram um cenário perturbador dos desfechos de ansiedade na juventude.

“Os dados mostram que apenas uma pequena porcentagem de pacientes mantém a melhora em longo prazo, apesar de receber os melhores tratamentos disponíveis oferecidos por especialistas na área”, disse ele ao Medscape.

“Os resultados sugerem que a maioria das crianças continua a lutar contra a ansiedade”, observou. “Para elas, os resultados deste estudo sugerem que a ansiedade pode ser melhor caracterizada como uma doença crônica que precisa ser controlada”.

Com isso em mente, é necessária maior customização, para atender de forma mais individualizada as necessidades dos pacientes, afirmou.

“Como uma especialidade, precisamos mudar nossa abordagem de um ‘protocolo único’ para descobrir a melhor forma de organizar os tratamentos para a percentagem considerável de crianças que não responde às intervenções baseadas em evidências atuais”, disse Compton.

Há também uma necessidade de estratégias de manutenção para melhorar os ganhos de tratamento e identificar melhor os pacientes que estão sob risco de recidiva, acrescentou.

“Se a recidiva ocorrer, precisaremos conhecer as opções de tratamento mais efetivas para ajudar alguém a se recuperar, e também precisamos descobrir como tratar melhor os pacientes com comorbidades”.

Os estudos CAMS e CAMELS foram financiados pelos National Institutes of Health. Os autores declararam não possuir conflitos de interesses relevantes.

Conferência de 2017 da Anxiety and Depression Association of America (ADAA). Apresentado em 7 de abril de 2015.

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