Patologia Tiroideia em Pediatria

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Autor: Dr. Egas Moura. Pediatra. Portugal

Introdução

A tiroide é uma das maiores glândulas endócrinas cuja função principal é produzir as hormonas tiroxina (T4) e triiodotironina (T3). Estas hormonas intervêm na regulação do metabolismo de muitos sistemas do organismo.

A tiroide também produz a hormona calcitonina que tem um papel importante no metabolismo do cálcio. As disfunções da tiroide estão relacionadas com um funcionamento anormal da glândula, que pode produzir hormonas em excesso ou defeito dando origem a situações de hipertiroidismo e hipotiroidismo respectivamente.

A principal função da glândula tiroide é a produção de hormonas essenciais para a regulação do consumo energético, crescimento, desenvolvimento e maturação de vários órgãos. Para que haja uma produção normal de hormonas é necessário um desenvolvimento normal da glândula, um funcionamento e regulação adequados do mecanismo da sua biossíntese e um normal aporte de iodo, principal constituinte destas hormonas tiroideias.

Durante a primeira metade da gravidez, as hormonas tiroideias que circulam no feto têm origem materna, transferidas para o feto pela placenta, dado que a glândula tiroide só começa a sintetizar hormonas pelas 20 semanas de gravidez.

Controlo da síntese das hormonas da tiroide A actividade da glândula tiroide é predominantemente regulada pela concentração da hormona hipofisária glicoproteica, hormona estimuladora da tiroide (TSH). A TSH é uma hormona produzida pela hipófise, que recebe sinais do hipotálamo para estimular a libertação de hormonas tiroideias. Por sua vez a síntese e libertação de TSH é estimulada pela hormona libertadora da tirotropina (TRH), e que apresenta receptores nas células da hipófise.

A produção de TSH e TRH é controlada pelos níveis de T3 e T4 no sangue por um mecanismo retroactivo negativo clássico (feedback negativo). Quando os níveis de T3 e T4 no sangue aumentam inibem a produção de TRH e TSH que assim deixam de estimular as células da tiroide diminuindo a síntese. Quando os níveis de T3 e T4 diminuem, o controlo retroactivo deixa de ter efeito na produção de TSH e TRH, voltando a existir estimulação das células da tiroide.

A este mecanismo de controlo destas hormonas dá-se o nome de eixo hipotálamo – hipófise – tiroide.

A disponibilidade de iodo é outro factor importante na regulação de síntese das hormonas, alterando a sensibilidade da tiroide à TSH num processo de autorregulação. Uma dieta pobre em iodo diminui a síntese das hormonas da tiroide o que dá origem a uma baixa concentração de T3 e T4 circulantes, que estimula a secreção de TSH pela hipófise.

Hipotiroidismo

 

O hipotitroidismo é então resultado de uma diminuição da produção das hormonas tiroideias.

O hipotiroidismo em idade pediátrica, ocorre habitualmente quando há uma lesão estrutural da glândula tiroideia ou está tem um processo inflamatório.A sintomatologia depende da idade da criança, mas podem chegar a queixas de atraso no desenvolvimento e/ou no crescimento.O diagnóstico baseia se no rastreio neonatal (teste do pezinho), analises sanguíneas e imagiologia. O tratamento passa pela administração de substitutos da hormona tiroideia em falta.

As hormonas tiroideias controlam a velocidade do metabolismo (desde a frequência cardíaca até à temperatura corporal), caso não haja produção suficiente estas funções têm um decréscimo, abrandam. Resultando na diminuição da actividade biológica tecidular das hormonas tiroideias, por diferentes mecanismos:

  • Produção deficiente / diminuida
  • Resistência à sua acção nos tecidos alvos

O hipotiroidismo classifica se como:

  • Primário ou tiroideu: causa está na própria glândula tiroideia
  • Central ou hipotálamo – hipofisário:
    • Problema pode estar na hipófise com diminuição da produção de TSH, que se denomina como hipotiroidismo secundário
    • Problema localiza se ao hipotálamo (défice de produção), denominado se hipotiroidismo terciário
  • Terciário: quando há resistência dos tecidos alvos à acção das hormonas tiroideias

Podemos classificar, clinicamente,o hipotiroidismo na idade pediátrica:

  • Hipotiroidismo Congénito, presente desde o nascimento
  • Hipotiroidismo Adquirido, que surge, vai se desenvolvendo, após o nascimento

Falemos então da clinica destas entidades em idade pediátrica.

 

 

  1. Hipotiroidismo congénito

Este quadro clínico ocorre 1 em cada 2000 a 4000 nascimentos. Apenas 10 a 20% dos doentes têm antecedentes familiares de doença.

Cerca de 85% dos casos ocorre porque:

  • Agenesia – não há glândula
  • Hipoplasia – diminuição do volume da glândula
  • Ectopia – a glândula não está no local correcto

Mais raramente a tiroide desenvolveu se normalmente, mas não produz hormonas tiroideias de modo correcto ou suficiente.

Muito raramente, o hipotiroidismo congénito desenvolve se porque a grávida não ingeriu iodina suficiente (situação muito rara em Portugal).

Por vezes, como consequência do uso de alguns fármacos, para tratar doenças da tiroide ou substâncias existentes nos alimentos, atravessam a placenta e podem provocar uma situação transitória de hipotiroidismo congénito.

Raramente, encontramos alterações na hipófise que sejam responsáveis pelo hipotiroidismo congénito.

 

  1. Hipotiroidismo adquirido

A causa mais frequente de hipotiroidismo na infância e adolescência é a tiroidite linfocítica crónica, também conhecida por tiroidite de Hashimoto. É uma doença provocada pela destruição das células que produzem hormonas tiroideias, levada a cabo pelo próprio organismo (doença auto-imune). É mais frequente no sexo feminino, nas crianças com diabetes e pode estar associada a outras doenças auto-imunes e doenças provocadas por alterações dos cromossomas, como por exemplo a Síndrome de Down. Frequentemente há familiares com doenças da tiroide.

Outras causas de hipotiroidismo são as malformações da tiróide, as alterações na produção de hormonas tiroideias, certas doenças do cérebro e a toma de medicamentos como os utilizados no tratamento da epilepsia. A carência de iodo e a ingestão de alimentos que provocam bócio, aparentemente não são problema em Portugal.

 

Sintomatologia

                   

As queixas (sintomas e sinais) variam e dependem da idade do doente.

Em crianças mais pequenas e caso tenha ocorrido um défice de iodina numa fase precoce da gravidez, podem estas crianças sofrer de atraso de crescimento importante, alterações da anatomia da face, atraso mental e rigidez muscular – espasticidade.

A maioria das outras crianças com hipotirodismo congénito têm escassa sintomatologia pois através da placenta passa sempre alguma quantidade de hormonas tiroideias. A partir do momento que não há mais este fornecimento placentário, as queixas vão aparecendo lentamente e só se detecta a doença através dos rastreios neonatais – teste do pezinho.

Caso, não seja iniciado o tratamento, o cérebro desenvolve se lentamente e as crianças têm hipotonia – falta de força muscular, hipoacusia – diminuição da audição, macroglossia – língua grande, choro rouco e dificuldades na alimentação. Um atraso na instituição da terapêutica pode conduzir a défices mentais e a uma síndrome de baixa estatura.

 

Em crianças mais velhas e adolescentes, o quadro clínico é semelhante ao dos adultos (aumento do peso, fadiga, obstipação, rouquidão, pele seca – xerose cutânea, grossa).

Se o hipotiroidismo for acentuado e de longa duração a criança pode aparentar “cara de bebé” e proporções do corpo alteradas (membros pequenos em relação ao tronco).

Os sintomas que aparecem só em idade pediátrica incluem atraso do crescimento, atraso no desenvolvimento psicomotor.

O aproveitamento escolar não é afectado, a não ser que o défice de hormonas tiroideias se tenha iniciado antes dos 3 anos de idade.

As crianças com hipotiroidismo costumam também apresentar atraso do desenvolvimento sexual.

 

Diagnostico

O diagnóstico do hipotiroidismo é fácil e o tratamento, que consiste na toma de hormonas tiroideias, é simples e eficaz.

Existem alguns exames auxiliares de diagnostico que ajudam a estabelecer o diagnóstico de hipotiroidismo congénito:

  • Rastreio Neonatal – Teste do Pezinho
  • Analises sanguíneas
  • Imagiologia

 

Caso o Teste do Pezinho seja positivo, segue separa a avaliação da função tiroideia (analises sanguíneas) que confirmam ou não o diagnostico. Se se confirmar a terapêutica deverá ser instituída o mais rapidamente possível, tentando impedir o atraso no desenvolvimento psicomotor.

Poderá fazer se ainda a determinação do tamanho e localização da glândula via ecografia ou através do mapeamento com isótopos.

Prognostico

A maior parte das crianças adequadamente e precocemente medicadas terão um desenvolvimento normal.

 

Tratamento

A estas crianças fornece se um fármaco denominado levotiroxina, sendo na maioria dos caos medicação para a vida.

As crianças serão submetidas a avaliações dos níveis hormonais de modo regular, sendo estas avaliação mais frequentes nos primeiros anos de vida.

 

 

 

Hipertiroidismo
A quase totalidade dos casos de hipertiroidismo nas crianças é devida à Doença de Graves.

Também é uma doença auto-imune, mas ao contrário do que sucede na tiroidite de Hashimoto, aqui é o próprio organismo que estimula a tiroide a produzir hormonas em excesso e de forma descontrolada.

O excesso de hormonas tiroideias é responsável pela quase totalidade dos sintomas.

A maioria dos doentes apresenta bócio – aumento do volume da tiroide, tremor, hipersudorese – suores abundantes, taquicardia – batimentos cardíacos acelerados, emagrecimento apesar do aumento do apetite, intolerância ao calor e insónias. Irritabilidade fácil e dificuldades de concentração podem prejudicar o rendimento escolar. A criança pode ter olhos saídos – exoftalmia e muito abertos e brilhantes.

Pode existir atraso no desenvolvimento sexual e as meninas já menstruadas podem deixar de ter menstruação.

O tratamento consiste, numa primeira fase, na administração de medicamentos que diminuem a produção das hormonas tiroideias.

 

Bócio

 

O aumento difuso de volume da tiroide, sem alterações da sua função, é a doença mais frequente nestas idades. Atinge mais as meninas e surge a maioria das vezes em idade escolar. É conveniente investigar a causa do bócio. Muitas vezes regride sem qualquer tratamento. Quando o bócio é doloroso, pode tratar-se de uma doença infecciosa.

Nódulos da tiroide

 

Os nódulos da tiroide são raros neste grupo etário. Os tumores benignos e malignos, os quistos do canal tiroglosso e as tiroidites linfocíticas são causas possíveis de nódulos da tiróide.

As crianças expostas as radiações (tratamento de algumas doenças ou acidentes, como o da central nuclear de Chernobyl) são um grupo de risco que deve ter vigilância adequada.

Existe um tipo particular de tumores da tiroide(carcinoma medular) que pode afectar vários elementos da família; quando surge um caso, os familiares são aconselhados a proceder ao rastreio da doença.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Um comentário em “Patologia Tiroideia em Pediatria

    Anônimo disse:
    04/30/2017 às 21:36

    Interessante o funcionamento do sistema de retrô-inibição

    Curtir

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