É sério: homens com câncer de próstata fazem ioga!

Postado em

Nick Mulcahy

Inicialmente, um estudo inovador sobre ioga como intervenção para alívio de efeitos colaterais do tratamento do câncer de próstata enfrentou ceticismo, contou a autora sênior Dra. Neha Vapiwala, radioterapeuta na University of Pennsylvania,na Filadélfia.

A viabilidade era desconhecida e fez os pesquisadores se perguntarem: “Os homens irão se inscrever?”, disse ela ao Medscape.

A ioga vem sendo estudada como uma ferramenta para redução dos efeitos colaterais do tratamento em pacientes com câncer de mama, mas nunca para câncer de próstata. Segundo a Dra. Neha, ainda permanecem “mitos” de que os homens não praticam ioga, e de que “homens com câncer de próstata não estão interessados nesse tipo de coisa”.

Ela também ouviu outras críticas já que, em geral, homens com câncer de próstata são tipicamente mais velhos: “Todos diziam que não fariam isso”.

Pior ainda, mesmo ela e seus colaboradores estavam de certa forma céticos, com medo da rejeição: de que procurariam homens para recrutar que receberiam risadas como resposta.

Em vez disso, ela teve uma resposta “impressionante”, embora muitos dos homens que se interessaram não puderam participar por conta de conflitos de agenda, disse ela ao Medscape. “Eles não eram homens que você imaginaria que teriam interesse. Não eram fisicamente ativos. Nós recrutamos todos”.

A intuição masculina pode ter entrado em ação.

O resultado foi que, no novo ensaio clínico randomizado, a ioga aliviou os efeitos colaterais da radioterapia e da terapia hormonal. Assim, homens que praticaram essa antiga modalidade relataram menos fadiga e uma melhor função sexual e urinária em comparação com os homens que não fizeram ioga.

Os resultados foram publicados em 6 de abril no International Journal of Radiation Oncology • Biology • Physics.

No estudo de fase 2, os pacientes no grupo da ioga (n = 22) frequentaram duas aulas de 75 minutos por semana por seis a nove semanas (dependendo da duração da radioterapia) no Penn’s Abramson Cancer Center, antes ou depois da sessão de tratamento, entre outubro de 2014 e janeiro de 2016. O grupo controle (n = 28) manteve as atividades físicas basais. (O estudo iniciou com 68 homens, mas 18 abandonaram – novamente, principalmente por questões de agenda).

A mediana de idade dos homens no estudo era de 67,3 anos. A maioria era de brancos, casados, com renda anual superior a 80.000 dólares, e que viviam a uma hora de distância do hospital. Um dado importante: nenhum dos participantes do estudo havia praticado ioga antes.

Para o desfecho primário de fadiga (medida pelo Brief Fatigue Inventory), o grupo da ioga relatou menos fadiga do que os pacientes no grupo controle, sendo que a fadiga global, o impacto da fadiga, e a gravidade das subescalas da fadiga mostraram interações significativas (P < 0,0001).

De forma geral, homens no grupo controle tiveram uma piora nas pontuações de fadiga. “Os controles evoluíram exatamente como esperávamos”, disse a Dra. Neha sobre os resultados.

O oposto foi verdade para os praticantes de ioga. “Os homens no braço da ioga não apenas não pioraram, como melhoraram”, disse a Dra. Neha.

Isso foi inesperado, disse ela. “Tínhamos a hipótese de que a ioga ajudaria os homens a manterem a energia. Não esperávamos que os homens no braço da ioga apresentariam melhora em relação ao basal”.

Em um desfecho secundário, pontuações de saúde sexual (Sexual Health Inventory for Men), que incluem a função erétil, mostraram uma interação significativa (P = 0,0333). “O grupo da ioga não mudou ao longo do tempo”, disse a Dra. Neha.

“Nós não estamos dizendo que transformamos os homens do grupo da ioga em uma nova geração de homens, mas o grupo controle relatou piora da disfunção erétil ao longo do mesmo período de tempo”, observou ela.

   Nós não estamos dizendo que os transformamos em uma nova geração de homensDra. Neha Vapiwala

Os homens no grupo da ioga relataram pontuações de disfunção erétil “moderadamente favoráveis” ao longo do período do estudo, disseram os autores.

No entanto, as diferenças entre os grupos de tratamento foram significativas apenas com quatro semanas (P = 0,047) e não nas avaliações finais, com seis a nove semanas (P = 0,314).

Ainda assim, os resultados da saúde sexual são impressionantes porque um percentual mais elevado de homens no grupo da ioga recebeu tratamento de privação de androgênios do que os controles (60% versus 53%, respectivamente). “A terapia hormonal acaba totalmente com a libido”, disse a Dra. Neha.

Os resultados do estudo também mostraram que homens que praticaram ioga tiveram pontuações superiores para qualidade de vida e sintomas urinários, quando comparados com os controles.

O novo estudo é notável em diferentes formas, disse Alyson Moadel-Robblee, epidemiologista no Albert Einstein College of Medicine, em Nova York, que não esteve envolvida no estudo.

Primeiro, ele demonstrou “um interesse e participação relativamente altos na ioga entre os homens, o que geralmente não é observado em outros estudos com terapias para o corpo e a mente, e o câncer”, disse ela por e-mail ao Medscape.

Segundo, ele é um exemplo de “oncologia integrativa” na qual uma terapia complementar é associada ao regime de tratamento para o câncer, disse Alyson, que foi a autora principal de um estudo randomizado sobre ioga como intervenção para mulheres com câncer de mama, incluindo aquelas no meio do tratamento.

Em terceiro, o trabalho mostrou que a ioga pode melhorar a fadiga e reduzir a disfunção sexual, dois efeitos colaterais “comuns e incômodos” do tratamento para o câncer de próstata.

No entanto, os resultados do estudo podem ser devidos, ao menos em parte, a outros efeitos além da ioga, como socialização e atenção, comentou Alyson, ecoando algumas das limitações colocadas pelos próprios autores.

Tanto os autores quanto Alyson disseram ser incerto o quão exatamente a intervenção pode ter funcionado. Além disso, ambos esperam que uma extensão do estudo determine se os efeitos são duradouros, e observe se algum subconjunto de pacientes vai continuar com a atividade e receber mais benefícios. A Dra. Neha disse que eles também gostariam de realizar outro estudo randomizado que compare a ioga com exercícios em geral.

Como um grupo de idosos pratica ioga?

O tipo de ioga usado no estudo se chama Eischens, que é um ramo da ioga Iyengar mais conhecida. A Eischens foca mais na energia – e fazê-la se mover pelo corpo – do que na complexidade do posicionamento do corpo. Assim como na ioga Iyengar, esse tipo de ioga usa itens como cadeiras e cintos para realizar as posturas de ioga. Essas modificações permitem que indivíduos mais idosos e menos flexíveis, e pessoas com diferentes tipos de corpo, efetivamente participem da atividade.

No entanto, a verdade é que homens idosos raramente são alunos de ioga. Como colocaram os autores em outro artigo, homens com mais de 44 anos correspondem a menos de 7% da população praticante de ioga nos Estados Unidos.

Mas os participantes do estudo são a exceção. Eles precisavam participar de no mínimo 80% das aulas para contarem como participantes do estudo. Nas aulas, eles realizavam uma variedade de posições, incluindo sentadas (em uma cadeira dobrável), de pé e reclinadas.

Outros homens no centro que gostariam de se juntar ao estudo, mas não puderam, passavam nas aulas a caminho do tratamento e perguntavam para a Dra. Neha: “Como está indo o estudo?” Eles “lamentavam” não estar participando, contou ela.

“Ninguém deveria dizer aos pacientes com câncer de próstata o que eles podem ou não fazer”, disse a Dra. Neha.

“Nós não deveríamos criar estereótipos sobre homens, especialmente homens mais velhos, e ioga”, enfatizou.

Esse estudo foi parcialmente financiado pelo American Cancer Society Institutional Grant e pelo Prostate Cancer Foundation Young Investigator Award. A Dra. Neha e Alyson declararam não possuir conflitos de interesses relevantes.

Int J Radiat Oncol Biol Physics. Publicado on-line em 6 de abril de 2017. Resumo

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