Asma: uso excessivo de corticoides orais sugere subutilização de corticoides inalatórios

Postado em

Bridget M. Kuehn

A prescrição excessiva de corticoides orais para crianças com asma parece algo comum, especialmente as crianças mais novas, revela um novo estudo. A subutilização dos corticoides inalatórios pode explicar em parte a prescrição excessiva destes medicamentos por via oral, sugere o editorial que acompanha o estudo.

“Dado o uso de corticoide oral em larga escala na nossa população podemos presumir que uma parte significativa das prescrições destina-se às crianças que apresentam sibilos e/ou tosse de leve intensidade”, escrevem o Dr. Harold Farber, médico do Departamento de Pediatria do Texas Children’s Hospital em Houston, e seus colaboradores. É improvável que estes medicamentos beneficiem estas crianças, observam os autores.

Os pesquisadores apresentaram suas descobertas on-line em 10 de abril no periódico Pediatrics.

Um breve curso de corticoide oral é recomendado atualmente para o tratamento das exacerbações de moderadas a graves da asma. Porém, estes medicamentos podem deflagrar quadros de ansiedade, mania, irritabilidade, ou comportamento agressivo, e podem causar osteopenia. Isto levou a questões sobre o uso excessivo desses medicamentos entre as crianças com asma.

Para avaliar a utilização dos corticoides orais nas crianças com asma os pesquisadores analisaram os pedidos de pagamento ao Medicaid e ao Children’s Health Insurance de mais de 69.000 crianças com asma no Texas entre 2011 e 2016. Eles descobriram que de 42,1% a 44,2% dessas crianças receberam prescrição de um corticoide oral mais de uma vez por ano.

As crianças menores de cinco anos foram ainda mais propensas a receber várias prescrições de corticoides orais em comparação às crianças mais velhas da coorte (49,0% vs. 38,8%). As taxas de dispensação foram menores para as crianças afro-americanas (35% a 36%) do que para as crianças brancas (40% a 44%) ou para as crianças hispânicas (43% a 49%). Mais de 80% dos que receberam prescrição de corticoides orais não tinham outras indicações de asma descompensada, como retirada frequente de beta-agonistas na farmácia, procura de serviços de emergência ou internação hospitalar pela asma.

Além disso, houve grande variação dos padrões de prescrição entre os médicos. Os números de prescrições foram 41% a 42% menores entre os pediatras com título de especialista da sociedade de pediatria. Os índices de prescrição foram maiores entre os especialistas em medicina interna, os médicos de família ou os generalistas (46% a 47%).

Os autores sugerem ser necessário mais treinamento clínico para promover o uso apropriado desses medicamentos.

“As diretrizes da asma precisam oferecer uma orientação clara para os médicos de quando o uso de corticoides orais para asma não é corroborado por evidências, e de quando o uso não é indicado na prática clínica”, escrevem os pesquisadores.

Eles também alertam que o estudo foi realizado entre as crianças da assistência pública, e pode não ser aplicável às crianças mais abastadas, escrevem os pesquisadores.

No editorial que acompanha o estudo, o Dr. Michael Cabana, médico do Departamento de Pediatria da University of California, em San Francisco, diz que as taxas de prescrição são “assombrosas”, mas adverte que as conclusões foram baseadas em dados de pedidos de pagamento. O estudo não avaliou os prontuários dos pacientes.

“Pode ser perigoso fazer julgamentos clínicos com base em dados de pedidos administrativos”, escreveu o Dr. Cabana. “No entanto, esta frequência de uso de corticoide oral é notável e merece uma análise mais aprofundada”.

As variações regionais das substâncias irritantes no ar, dos alergênios, do clima ou da cultura de prescrição local poderiam ter contribuído para as altas taxas de prescrição observadas no estudo, explica o Dr. Cabana.

No entanto, “apenas 28% das crianças que receberam várias prescrições de corticoides orais receberam algum corticoide inalatório, sugerindo a subutilização destes dispositivos para evitar as exacerbações da asma e reduzir a necessidade dos corticoides orais”, escreve o Dr. Cabana.

“O uso excessivo de corticoides orais pode ser um mero sintoma de outro problema de prescrição importante, que é a subutilização dos corticoides inalatórios para as crianças com asma persistente”, observa.

Os pesquisadores sugerem que o pêndulo da utilização dos corticoides orais pode ter balançado para longe demais.

“Nos últimos 30 anos, a prescrição de corticoides orais para as crianças com asma passou da subutilização ao que parece agora ser uma prescrição significativamente excessiva”, escrevem os autores. “Como na fábula Cachinhos Dourados e os Três Ursos, o nosso desafio agora é chegar à medida certa”.

Dr. Harold Farber é diretor médico associado do Texas Children’s Health Plan. Os coautores informaram não possuir conflitos de interesses relacionados com o tema. O Dr. Cabana informa trabalhar no escritório de palestrantes da Merck e receber honorários de consultoria para as empresas Genentech e Boehringer Ingelheim.

Pediatrics. 2017;139:e20164146, e20170598. Artigo, Trecho do editorial

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