Sarampo

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Sarampo

EGAS MOURA – Pediatra

 

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O sarampo é uma doença causada por um vírus, extremamente contagiosa e transmitida de pessoa para pessoa através de secreções das vias respiratórias, como as eliminadas na tosse, espirros ou mesmo durante a fala.

É um dos vírus conhecidos mais contagiosos e pode sobreviver mais de duas horas fora do corpo humano, no ar ou em superfícies com que a pessoa infectada tenha contactado.

Gotículas infecciosas a partir de secreções respiratórias de um paciente com sarampo podem permanecer no ar durante várias horas. Portanto, um contato direto com alguém infectado pode não ser necessário para a transmissão do vírus. O sarampo pode ser transmitido em hospitais e consultórios médicos, entre passageiros do avião durante o voo, e também em escolas e comunidades densamente povoadas.

Em dezembro de 2014, ocorreu um surto de sarampo, nos Estados Unidos da América (EUA), com origem num parque de diversão da Califórnia, rapidamente se disseminou por vários estados norte-americanos, com cerca de 100 casos clínicos comprovados. A maior parte dos infectados não tinham a vacina contra o sarampo.

Este caso entre outros, serve para demonstrar a importância da vacinação.

Antigamente, o sarampo era uma doença habitual em idade pediátrica e quase todas as crianças a tinham, sendo que existia uma probabilidade elevada de acontecerem problemas (pneumonia e encefalite) ou mesmo ocorrer a morte (1 a 2 óbitos em cada 1000 infectados).

Antes da implementação da vacinação contra o sarampo, morriam nos EUA, cerca de 450 crianças / ano, a maior parte dos casos em crianças previamente saudáveis. Graças à vacinação, hoje somos capazes de prevenir a disseminação e impedir a doença, protegendo as nossas crianças.

Recentemente e em alguns países, surgiu um movimento contra a vacinação sistemática das crianças, alegando riscos e falhas na biossegurança da vacina, factos que são contrariados pela Organização Mundial de Saúde entre outras organizações internacionais.

Existem actualmente crianças, adolescentes e inclusive adultos (30 – 40 anos) que poderão não estar imunizados contra o sarampo.

Escolher não vacinar um filho, implica não só deixá-lo susceptivel a esta e outras doenças, mas também expor as outras crianças que com ele convivem. Neste grupo de crianças susceptiveis incluem-se as que ainda não têm idade para serem vacinadas e as que não possam ser vacinadas por contra indicação médica. O sarampo ainda é vulgar em muitas partes do mundo e surtos ocorrem regularmente.

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Taxa de incidência (casos notificados/milhão de habitantes) de sarampo nos países da União Europeia, Islândia, Lichtenstein e Noruega, em 2012, registados no Sistema Europeu de Vigilância (TESSy) do ECDC em 31/01/2013. (http://ecdc.europa.eu/en/publications/Publications/measles-rubella-monitoring-February-2012.pdf)

A actual situação epidemiológica do sarampo na Europa aumenta a probabilidade de importação de casos de doença e de, a partir desses casos, poderem surgir surtos em Portugal, à semelhança do que aconteceu nos últimos anos (em 2005, 2009, 2010 e 2012).

Quadro Clínico

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O período de incubação do sarampo é de 6 a 19 dias (média de 13 dias). O período de contágio ocorre entre 5 dias antes do aparecimento das erupções da pele até 4 dias depois. O pico do contágio ocorre 2 dias antes e 2 dias após o início das lesões de pele.

Três em cada 4 pessoas não vacinadas expostas ao vírus são contaminadas e desenvolvem sintomas. Ao contrário do que ocorre noutras viroses comuns da infância, o sarampo não costuma causar casos leves. Quem tem sarampo, tem no “a sério”, com direito a todos os sintomas clássicos.

O sarampo manifesta se inicialmente como uma infecção viral inespecífica, com febre alta, mal-estar, espirros, tosse, perda do apetite, dor de garganta e olhos vermelhos com ou sem exsudado. Esta fase inicial da doença chama-se pródromica e dura 2 a 3 dias.

Na transição da fase prodrómica para a fase dos sintomas clássicos do sarampo começam a surgir pequenos pontos brancos na mucosa da boca, próximo aos dentes molares, que recebem o nome de manchas de Koplik. Estas manchas surgem geralmente 48 horas antes do aparecimento do exantema clássico do sarampo.

As erupções típicas do sarampo (exantema do sarampo) são manchas avermelhadas, com discreto relevo, que surgem inicialmente no rosto e se espalham para o resto do corpo de forma descendente. As lesões podem ser abundantes, sofrendo fusão, de forma a criar grandes manchas avermelhadas. Palmas das mãos e plantas dos pés raramente são envolvidos.

Em geral, a extensão e o grau de confluência do exantema correlacionam se com a gravidade da doença.

Outros achados característicos durante a fase exantemática incluem linfadenopatia (aumento dos gânglios), febre alta (às vezes acima de 40ºC), faringite e conjuntivite. Tosse também é comum e pode persistir até duas semanas.

Durante o período exantemático, o paciente fica com o sistema imunológico comprometido, sendo um alvo fácil para outras infecções de origem bacteriana (pneumonia ou outras) ou viral (encefalite – lesão do cérebro).

Cerca de 48 horas após o aparecimento da erupção cutânea, o paciente começa a melhorar. Com três a quatro dias, a erupção escurece, ficando acastanhada, e depois começa a descamar e a desaparecer. A erupção geralmente dura um total de seis a sete dias. A febre costuma terminar quando o exantema começa a diminuir. Uma febre com duração superior a 3 / 4 dias após o início das erupções pode ser sinal de uma complicação em curso, como pneumonia, diarreia, otite ou encefalite.

A pneumonia e a encefalite são as complicações mais perigosas do sarampo.

 

Tratamento do Sarampo

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Uma vez que os sintomas do sarampo já tenham surgidos, não há tratamento específico para a doença. A única coisa a fazer é dar suporte e esperar que a doença evolua. Nas crianças, a administração de vitamina A parece reduzir a incidência de casos graves.

 

Prognóstico

 

A maior parte das pessoas saudáveis recupera completamente do sarampo. Cerca de 3% dos adultos com sarampo desenvolvem sintomas de pneumonia suficientemente graves para necessitarem de tratamento num hospital, A morte devido a complicações do sarampo, tais como a pneumonia ou a encefalite, ocorre em um ou dois em cada 1.000 casos, mais frequentemente nos bebés, nos adultos idosos ou nas pessoas com defesas imunitárias enfraquecidas.

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Prevenção e Vacina do Sarampo

 

Como não há tratamento efetivo durante a fase de sintomas, o controle do sarampo deve ser voltado para a prevenção. Nas últimas décadas, devido a ampla cobertura vacinal na maioria dos países, o sarampo tornou se uma doença rara.

A vacina contra o sarampo, como todas as outras vacinas é segura, também como todas as vacinas e todos os medicamentos, pode ter efeitos secundários (como dor, edema no local da picada e eventualmente febre) com duração de 1 a 2 dias.

Como a maioria das vacinas, a vacina do sarampo deve ser administrada antes do paciente ter qualquer contato com o vírus, de preferência durante o primeiro ano de vida. Porém, como o período de incubação do sarampo pode chegar a 19 dias, uma pessoa nunca imunizada, que tenha tido contato com alguém contaminado, pode ser vacinada, contanto que não ultrapasse o limite de 72 horas após a exposição ao vírus. Esta forma de vacinação não é a ideal, mas costuma ser efetiva em muitos casos.

Caso tenha o esquema vacinal atualizado, estará protegido contra o sarampo, no caso das crianças mais novas a vacina pode ser antecipada dos 12 meses (em Portugal) até aos 6/9 meses de vida – primovacinação.

A vacinação organizada contra o sarampo em Portugal iniciou-se em 1973, com uma campanha de vacinação de crianças dos 1 aos 4 anos de idade que vigorou até 1977.

Em 1974, a vacina monovalente contra o sarampo (VAS) foi incluída no Programa Nacional de Vacinação (PNV).

Em 1987, a vacina VASPR (vacina combinada contra sarampo, parotidite epidémica e rubéola) substituiu a VAS no PNV, sendo recomendada aos 15 meses de idade.

Inicialmente, as coberturas vacinais obtidas não foram suficientes para impedir a epidemia de 1987-89, com cerca de 12.000 casos notificados e cerca de 30 óbitos.

Em 1990 foi introduzida no PNV uma segunda dose da vacina VASPR aos 11-13 anos de idade, no sentido de ultrapassar as falências vacinais primárias (cerca de 5% dos vacinados).

Apesar das boas coberturas vacinais a nível nacional, assimetrias nestas coberturas permitiram a acumulação de suscetíveis e a ocorrência da epidemia de 1993-94, com cerca de 3.000 casos notificados.

Em 1998, para evitar um novo surto (projeção por modelação matemática) foi implementada uma estratégia complementar de vacinação, que decorreu em 1998-2000, com repescagem/vacinação de cerca de 400.000 suscetíveis, até aos 18 anos de idade.

Em 2000 (PNV 2000) a segunda dose da vacina foi antecipada para os 5-6 anos de idade.

Em 2008 e 2011, face à situação europeia, com surtos em vários países, reativaram-se as medidas complementares de vacinação e reforçou-se a vigilância epidemiológica do sarampo.

O PNV 2012 determina a antecipação da primeira dose da VASPR dos 15 para os 12 meses de idade. Com esta alteração obtém-se imunidade individual e de grupo mais precocemente.

As crianças podem receber a segunda dose, extraordinariamente e sempre de acordo com a Direcção Geral de Saúde – DGS, com um intervalo mínimo em relação à primovacinação de 28 dias, esta segunda dose aumenta os níveis de protecção para mais de 95%.

As coberturas vacinais com 1 e 2 doses da vacina VASPR, a nível nacional, são ≥95% pelo menos desde 2006. No entanto, este valor não é uniforme, verificando-se assimetrias regionais e locais, que aumentam o risco de existência de bolsas de população suscetível, mesmo em áreas geográficas com cobertura vacinal global elevada. A elevada taxa de cobertura vacinal que existe em Portugal permite que haja a imunidade individual e a imunidade de grupo (protegendo as crianças com menos de 1 anos de idade, o grupo etário de risco com elevada probabilidade de hospitalização e eventualmente morte).

As pessoas, nomeadamente os adultos poderão ter sarampo, principalmente aquelas que não foram vacinados ou que só fizeram 1 dose.

Caso não saiba se fez a vacina do sarampo pode fazer novo reforço sem qualquer risco.

A vacina do sarampo, é uma vacina denominada de “vírus vivos atenuados” sendo contraindicada em pessoas com défices de imunidade.

 

Vacinação dos profissionais de saúde

 

Pretende-se garantir a protecção adequada dos profissionais de saúde que têm contacto próximo com doentes, atendendo ao risco acrescido de contacto com casos importados. Assim, todos os profissionais de saúde sem história credível de sarampo, independentemente da idade, devem estar vacinados com 2 doses (VAS/VASPR) com um mínimo de 4 semanas entre as doses.

É prioritária a vacinação de profissionais de saúde susceptíveis, expostos ou em risco de exposição a um ou mais casos de sarampo, uma vez que podem gerar cadeias de transmissão em serviços de saúde e contagiar pessoas com maior risco de complicações. Os Serviços de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho e as Comissões de Controlo da Infecção deverão participar nestas acções.

Todos os profissionais de saúde susceptíveis em situação de pós-exposição a um caso de sarampo possível, provável ou confirmado, em período de contágio, devem:

  1. se indicado, ser vacinados, urgentemente, de acordo com os critérios da tabela VIII. Em caso de recusa preencherão uma declaração de recusa.
  2. ser informados sobre a doença e aconselhados a avaliação médica se iniciarem sinais e sintomas sugestivos

 

 

O sarampo é uma doença com possibilidade de eliminação dada a sua transmissão exclusivamente inter-humana e a existência de uma vacina eficaz e segura.

 

Dr EGAS MOURA  Pediatria

 

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