Suplementos antioxidantes: sem efeito na prevenção da demência

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Sue Hughes (filiação já traduzida)

 

O uso de suplementos antioxidantes vitamina E e selênio por cinco anos não mostrou efeito na prevenção da demência durante um seguimento total de 11 anos em uma grande população de homens idosos do ensaio PREADViSE (Prevention of Alzheimer’s Disease by Vitamin E and Selenium).

O estudo, publicado on-line no periódico JAMA Neurology em 20 de março, foi conduzido por uma equipe liderada por Richard J. Kryscio, Sanders Brown Center on Aging, University of Kentucky, Lexington.

Kryscio observou que esse é o primeiro estudo a investigar a associação em longo prazo do uso de suplementos antioxidantes e a incidência de demência entre homens assintomáticos.

“Isso fará com que as pessoas façam uma pausa e pensem duas vezes sobre o potencial dos antioxidantes como estratégia preventiva para o Alzheimer”, disse ele ao Medscape.

“Embora o estresse oxidativo seja uma via estabelecida para a demência, pessoalmente acredito que esse é provavelmente o fim da estrada para a ideia de se usar antioxidantes para prevenir a demência”.

O estudo começou em 2002 como parte do SELECT (Selenium and Vitamin E Cancer Prevention Trial), que avaliou o selênio e a vitamina E para prevenção do câncer de próstata. Ele recrutou 7540 homens (média de idade, 67 anos) sem qualquer sintoma de prejuízo cognitivo basal. Eles foram aleatoriamente inscritos para receberem vitamina E (400 UI por dia), selênio (200 μg por dia), ambos, ou placebo.

O SELECT foi encerrado precocemente em 2009 por conta da inutilidade e da toxicidade do selênio. Pacientes do estudo PREADViSE interromperam o uso dos suplementos, mas continuaram o acompanhamento por seis anos adicionais como um estudo de coorte. No entanto, Kryscio explicou que quando o SELECT foi finalizado, cerca de metade dos locais de estudo interromperam todas as atividades, então esses pacientes perderam o acompanhamento. “Assim temos apenas cerca de metade da amostra disponível – 3786 pacientes – com o tempo completo de seguimento”.

Enquanto utilizavam os suplementos do estudo os pacientes foram avaliados para demência utilizando uma triagem em duas etapas. Durante o estudo de coorte, os homens foram contatados por telefone e avaliados por uma triagem cognitiva melhorada em duas etapas. Nas duas fases os homens foram encorajados a procurarem seus médicos se os resultados indicassem um possível prejuízo cognitivo.

Os resultados mostraram que, ao final do período de seguimento, 325 homens (4,4%) desenvolveram demência, o que não foi diferente entre os quatro grupos do estudo. Um modelo Cox, com incidência ajustada para informações demográficas dos participantes e comorbidades autorrelatadas no início do estudo, mostrou razões de risco de: 0,88 (intervalo de confiança, IC, 95%, 0,64 – 1,20) para vitamina E; 0,83 (IC de 95%, 0,60 – 1,13) para selênio; e 1,00 (IC de 95% 0,75 – 1,35) para a combinação, comparados com o placebo.

Os autores observam que o monitoramento de dados no SELECT mostrou que o selênio pareceu elevar os casos de diabetes tipo 2 (embora essa taxa elevada tenha subsequentemente reduzido no seguimento adicional), e que a vitamina E pareceu aumentar a incidência de câncer de próstata.

Os suplementos não tiveram efeito na mortalidade, outros cânceres, eventos cardiovasculares, náuseas, fadiga ou alterações ungueais. O selênio foi associado a um aumento significativo de alopecia e dermatite de graus 1 e 2.

“O uso suplementar de vitamina E e selênio não evita a demência e eles não são recomendados como agentes preventivos”, concluem os pesquisadores.

Mas eles acrescentam que essa conclusão parte de um estudo com pouco poder, com inclusão apenas de homens, um período curto de exposição, considerações sobre doses, e limitações metodológicas ao confiar no relato de casos incidentes no mundo real.

Dificuldades em estudos de prevenção

Em um editorial de acompanhamento, o Dr. Steven T. DeKosky, McKnight Brain Institute, Florida Alzheimer’s Disease Research Center, Gainesville, e o Dr. Lon S. Schneider, Keck School of Medicine da University of Southern California, Los Angeles, observam que o ensaio PREADViSE junta-se a vários outros estudos que falharam em mostrar qualquer efeito em várias intervenções – incluindo gingko biloba, anti-inflamatórios, estatinas e terapia hormonal – no desenvolvimento da demência.

Eles apontam várias questões que podem ter contribuído para a falha do estudo PREADViSE em mostrar algum efeito. Entre elas estão a perda de metade dos participantes pela interrupção do estudo original, registros incompletos das avaliações cognitivas na parte de coorte do estudo, e a baixa quantidade de casos de demência (que pode ser devido ao alto nível educacional e à idade relativamente jovem dos participantes no início do estudo).

“Com a idade mínima para entrada no estudo estabelecida em 60 anos, a maior parte da coorte foi observada entre 60 e 70 anos, quando a incidência de demência ainda é muito baixa”, acrescentam os editorialistas.

Eles dizem que o estudo PREADViSE ilustra muitas das dificuldades enfrentadas com os estudos de prevenção. Essas incluem incertezas sobre a dose do medicamento, os mecanismos de ação dele, e provas de que ele atinge o alvo; seleção apropriada de uma população diversa, que possa ser observada por um período realista para o surgimento de casos suficientes de demência, para determinar sucesso ou falha da intervenção; uso de ferramentas de avaliação apropriadas e métodos de diagnóstico precisos; e uso de métodos efetivos para manter a participação e garantir a adesão ao estudo com o tempo.

“Ao encontrar formas eficientes e que poupem gastos para abordar essas questões em longo prazo, estudos modificadores de doença precisam ser as maiores metas para grupos de pesquisa em todo o mundo”, concluem.

Em uma entrevista para o Medscape Kryscio abordou algumas das questões levantadas pelo editorial.

“A parte randomizada de nosso estudo foi interrompida precocemente por ter sido ancorada no estudo do câncer de próstata, e perdemos metade de nossos pacientes para seguimento em longo prazo – então, sim, o estudo tem pouco poder. Mas nós não chegamos nem perto de efeitos significativos, então mesmo se dobrássemos o tamanho de nossa amostra, não acredito que teríamos um resultado positivo”.

“Os participantes desse estudo tinham cognição basal normal, e suponho que foi um pouco ambicioso pensar que mostraríamos um efeito nessa população, mas no momento em que o estudo iniciou era o que as pesquisas na área faziam. Agora estão mais focadas na ‘prevenção secundária’ – analisando grupos de alto risco de desenvolver demência”.

Quanto à idade dos pacientes no início do estudo, Kryscio apontou que eles recrutaram homens com cerca de 60 anos e os acompanharam até cerca de 70. “Eu acredito que é razoável – muitos pacientes desenvolvem Alzheimer próximo aos 70 anos, e se você procurar uma população mais velha, começa a observar várias outras questões, particularmente demência vascular, o que pode complicar a situação”, disse.

“Nossos participantes poderiam ser alguns anos mais velhos, suponho, mas não acredito que isso teria feito diferença nos resultados”.

Ele observou que o estudo foi baseado em pesquisas com modelos animais que sugeriram que a oxidação estava associada com a doença de Alzheimer – e que a vitamina E poderia bloquear esse processo – e também em alguns estudos observacionais indicando que altos níveis de antioxidantes estavam associados a um menor risco de demência.

Ele acredita que apesar de todas as limitações do estudo os resultados não sugerem a possibilidade de que suplementos de antioxidantes possam prevenir a demência.

“Pode-se podem pensar que vale a pena tentar outras formas de vitamina E ou selênio, ou outros antioxidantes, mas pessoalmente duvido que funcionariam”.

O estudo foi financiado por fundos do National Institute on Aging. O ensaio Selenium and Vitamin E Cancer Prevention Trial foi financiado por fundos do National Cancer Institute. Os autores do estudo e editorialistas declararam não possuir conflitos de interesses relevantes.

JAMA Neurol. Publicado on-line em 20 de março de 2017. Texto completo, Editorial

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