Doença autoimune associada a transtorno de déficit de atenção e hiperatividade

Postado em

Nancy A. Melville

ATUALIZADO EM 21 de março de 2017 // Uma história de doença autoimune, seja pessoal ou materna, está relacionada a um risco aumentado de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) em crianças, com o diabetes tipo 1 mostrando uma associação particularmente forte.

“Neste estudo nacional, a doença autoimune no indivíduo e uma história materna de doença autoimune foram associados a um risco aumentado de TDAH”, escrevem os autores, liderados pelo Dr. Soren Dalsgaard, da Aarhus University, na Dinamarca.

O estudo foi publicado no Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry.

Doença materna afeta o desenvolvimento fetal

O estudo incluiu pacientes com diagnósticos médicos e psiquiátricos em uma coorte de nascimentos de 983.680 crianças em registros nacionais dinamarqueses, nascidos de 1990 a 2007. Os participantes foram acompanhados de 1995 até 2012.

Entre as crianças, 23.645 indivíduos foram identificados como tendo TDAH.

No geral, indivíduos com doença autoimune apresentaram maior risco subsequente de TDAH, com uma razão de risco incidente (RRI) de 1,24 (intervalo de confiança, IC, de 95%, 1,10-1,40; P < 0,05).

Mãe com qualquer doença autoimune também foi associado a risco aumentado (RRI, 1,12, IC de 95%, 1,06-1,19, P < 0,05). O risco não foi significativo em relação à doença autoimune dos pais em geral.

Em uma análise exploratória envolvendo 30 transtornos autoimunes selecionados, incluindo tireoidite, diabetes e doença inflamatória intestinal, os autores encontraram uma associação significativa apenas entre diabetes tipo 1 e risco aumentado de TDAH (RRI, 1,31; IC de 95%, 1,03-1,63; P < 0,05).

Uma história pessoal de tireoidite autoimune ou de artrite juvenil foi significativamente associada a um risco aumentado de TDAH na análise não ajustada (RRI, 2,33 e 1,32, respectivamente). No entanto, as associações se tornaram não significativas para cada um após ajuste por fatores que incluíam idade e sexo.

“A tireoidite autoimune e a artrite juvenil estavam associadas a maior risco de TDAH do que o diabetes tipo 1 no modelo não ajustado, mas perderam significância no modelo totalmente ajustado, provavelmente devido a um menor número de casos. No entanto, a tireoidite autoimune ainda esteve associada a um aumento de 2,14 vezes no risco de TDAH no modelo totalmente ajustado, mas um pouco abaixo do nível de significância”, disse ao Medscape o coautor Dr. Michael Eriksen Benros.

Em termos de doença autoimune materna, tirotoxicose, diabetes tipo 1, hepatite autoimune, psoríase e espondilite anquilosante foram associados ao TDAH na prole (RRI, 1,17-1,99 e P <0,05 para cada um). No entanto, a tirotoxicose perdeu significância no modelo totalmente ajustado.

Embora uma história de doença autoimune nos pais em geral não tenha sido associada a um risco de TDAH, o diabetes tipo 1 no pai apresentou uma associação significativa (RRI, 1,21; IC de 95%, 1,07-1,37), assim como a hepatite autoimune (RRI 1,74; IC de 95%, 1,07-2,64) e a espondilite anquilosante (RRI 1,33; IC de 95%, 1,00-1,72; P <0,05 para cada um).

Os resultados quanto ao diabetes tipo 1 são consistentes com os de um estudo sueco anterior de base populacional em 2015, que mostrou que o diabetes tipo 1 infantil ou adolescente estava associado a um aumento de 1,5 vezes no risco de TDAH.

Em outros estudos, o diabetes tipo 1 foi associado a disfunções cognitivas e motoras relacionadas a alteração do desenvolvimento cerebral, bem como autismo, esquizofrenia e depressão. Os autores especulam que a associação com TDAH e história materna e paterna aponta para um fator genético comum.

Em particular, estudos anteriores mostraram associações entre o TDAH e os principais genes do complexo de histocompatibilidade (MHC), que também foram associados a doenças autoimunes.

“Alguns genes do MHC, especificamente HLA-DR4, HLA-DRB1 e o gene de complemento C4B, são fatores de risco importantes para várias doenças autoimunes, incluindo artrite juvenil, hepatite autoimune e diabetes tipo 1, e esses genes também podem estar ligados ao TDAH”, escrevem os autores.

Doença materna, em geral, pode apresentar uma ampla variedade de possíveis riscos para o TDAH, acrescentam eles.

“A doença materna pode afetar o desenvolvimento fetal por meio de fatores genéticos comuns, de fatores ambientais ou diretamente, por uma resposta imune fetal alterada que leva ao TDAH na prole”, acrescentam os pesquisadores.

No entanto, eles observam que uma variedade de fatores além da predisposição genética também está associada ao desenvolvimento de doenças autoimunes, incluindo fatores ambientais como o tabagismo, uso de drogas e infecções. Do mesmo modo, o TDAH tem uma multiplicidade de potenciais causas associadas.

“A etiologia do TDAH é multifatorial, e as associações encontradas trabalham em uma interação complexa com fatores genéticos e ambientais”, disse o Dr. Benros.

As limitações do estudo incluem o fato de que análises exploratórias de doenças autoimunes individuais não foram corrigidas para testes múltiplos, deixando a possibilidade de que algumas associações fossem estatisticamente significativas apenas por acaso, observam os autores.

Eles acrescentam que com os membros mais velhos da coorte tendo apenas 30 anos de idade, há o risco de que alguns deles desenvolvam doença autoimune após o final do período de estudo e, portanto, a associação com TDAH poderia ser subestimada.

“Os médicos que tratam indivíduos com doenças autoimunes precisam estar cientes do aumento do risco de TDAH e de outros transtornos mentais, e incluir essas potenciais comorbidades no tratamento”, disse o Dr. Benros.

Ele acrescentou que sua equipe está conduzindo pesquisas sobre as complexas relações entre TDAH e doença autoimune.

“Estamos prosseguindo com outros estudos na investigação das associações entre outros transtornos relacionados ao sistema imunológico, como infecções, com o risco de desenvolver TDAH, para explorar ainda mais a hipótese imune proposta como potencial fator etiológico contribuindo para subgrupos com TDAH”.

Insights importantes

Em um editorial de acompanhamento, o Dr. Kyle Williams, diretor do Programa de Neuropsiquiatria e Imunologia Pediátrica, Massachusetts General Hospital e Harvard Medical School, Boston, disse que o estudo fornece insights importantes sobre o papel das doenças autoimunes no TDAH.

“Este estudo, o maior do seu tipo até o momento, fornece uma orientação importante para futuras pesquisas”, escreve o Dr. Williams.

“Ao identificar doenças autoimunes específicas associadas ao TDAH nas crianças e nas mães delas, futuros estudos longitudinais estarão bem posicionados para avaliar os potenciais fatores ambientais e genéticos subjacentes a esta associação”.

O Dr. Williams acrescentou que as pesquisas sobre doenças autoimunes oferecem peças importantes do quebra-cabeça da doença mental em crianças.

“Precisamos reconhecer que a heterogeneidade clínica observada em alguns transtornos psiquiátricos na infância pode ser, em parte, o resultado de subtipos com etiologias predominantemente imunomediadas”, disse ele.

“Para esse fim, o estudo atual fornece mais evidências de que vale a pena prosseguir nesse caminho”.

A Dra. Mani Pavuluri, distinguish fellow da American Academy of Child and Adolescent Psychiatry e professora da cátedra Berger-Colbeth em Psiquiatria Infantil da University of Illinois, em Chicago, comentou ainda que a associação do diabetes tipo 1 com TDAH pode ser significativa, independentemente de um histórico parental da doença.

“O diabetes isoladamente na juventude, sem história dos pais, pode levar a sintomas semelhantes ao TDAH, com flutuação dos níveis de glicemia e vulnerabilidade do sistema nervoso central ao longo dos anos de desenvolvimento, além de fatores genéticos e epigenéticos”, disse ela ao Medscape.

Além disso, o TDAH e as doenças autoimunes compartilham efeitos comuns sobre as citocinas, acrescentou a Dra. Mani.

“Alterações epigenéticas comuns a muitas doenças autoimunes e/ou TDAH podem resultar de trauma e estresse, com alterações inflamatórias subjacentes nas citocinas”.

A Dra. Mani ecoou a opinião de que é necessário entender mais para colocar os resultados no contexto adequado.

“Como o campo está começando a focar na prevalência de doenças autoimunes e correlações com TDAH, os resultados abrem um caminho de curiosidade para aprender mais”, disse ela.

“Até que obtenhamos um modelo mais avançado de neurobiologia subjacente com os mecanismos celulares envolvendo biomarcadores inflamatórios ainda não conhecidos, esses achados não podem ser colocados em perspectiva. Assim, embora os resultados não sejam uma surpresa, o estudo oferece fortes pistas para pesquisas futuras”.

O estudo recebeu financiamento da Lundbeck Foundation. Os autores do estudo declararam não possuir conflitos de interesses relevantes. O Dr. Williams recebeu apoio de pesquisa da PANDAS Network. A Dra. Mani é cofundadora da Medcircle, Inc.

J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2017;56:234-240, 185-186. Resumo, Editorial

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