Probióticos em iogurte podem melhorar sintomas depressivos

Postado em

Nancy A. Melville

 

Lactobacillus, uma bactéria probiótica encontrada no iogurte de cultura viva, parece reverter sintomas de depressão em camundongos, mostra uma nova pesquisa. Além disso, os pesquisadores descobriram um mecanismo específico sugerindo uma associação direta entre a saúde do microbioma intestinal e a saúde mental.

Em um modelo pré-clínico reconhecido de depressão, os pesquisadores avaliaram o microbioma intestinal de camundongos antes e após terem sido expostos a estresse crônico. A principal alteração encontrada foi uma perda de Lactobacillus e um aumento nos níveis circulantes de metabolitos de quinurenina, que sabidamente levam a depressão. Com a perda de Lactobacillus veio o início dos sintomas depressivos. Mas após a suplementação com L reuteri para restaurar os Lactobacillus, o metabolismo de quinurenina normalizou, assim como o comportamento dos animais.

“Uma única linhagem de Lactobacillus é capaz de influenciar o humor”, disse o pesquisador principal Alban Gaultier, da University of Virginia School of Medicine, em Charlottesville, em um comunicado à imprensa.

“Esta é a mudança mais consistente que vimos em diferentes experimentos e diferentes contextos que chamamos perfis de microbioma. É uma mudança consistente. Vemos os níveis de Lactobacillus se relacionarem diretamente com o comportamento desses camundongos”, disse a pesquisadora do estudo Ioana Marin, uma aluna de doutorado.

O estudo foi publicado on-line em 7 de março em Scientific Reports.

Porta para novos tratamentos contra depressão?

Os autores levantaram a hipótese de que o Lactobacillus suprime a quinurenina e controla os níveis deste metabolito que leva à depressão. Quando o Lactobacillus está baixo, os níveis de quinurenina aumentam.

Para testar esta teoria, os pesquisadores conduziram um experimento para elevar os níveis de quinurenina em camundongos enquanto administravam Lactobacillus. Eles observaram que a melhora nos sintomas depressivos era reduzida nesta situação.

“Mecanicisticamente, identificamos que as espécies reativas de oxigênio derivadas de Lactobacillus podem suprimir o metabolismo da quinurenina do hospedeiro ao inibir a expressão da enzima metabolizadora IDO1 no intestino. Além disso, a manutenção de níveis elevados de quinurenina durante a suplementação com Lactobacillus diminuiu os benefícios do tratamento. Em conjunto, nossos dados fornecem um cenário mecanicista de como um elemento da microbiota (Lactobacillus) pode contribuir para regular o metabolismo e a resiliência durante o estresse”, escrevem os pesquisadores.

Os pesquisadores acreditam que os resultados também possam ser observados em humanos.

“Algumas das mesmas linhagens de Lactobacillus utilizadas no estudo também estão presentes em seres humanos, além de camundongos. Além disso, foi demonstrado que desequilíbrios no metabolismo da quinurenina estão associados a depressão em seres humanos”, disse Gaultier ao Medscape.

Gaultier disse que a descoberta pode abrir uma porta para novos tratamentos contra a depressão, assim como outros transtornos como ansiedade.

“A grande esperança para este tipo de pesquisa é que não precisaremos nos incomodar com drogas complexas e efeitos colaterais quando podemos apenas jogar com o microbioma. Seria fantástico apenas mudar a dieta, para mudar as bactérias que você ingere, e corrigir a saúde e o humor”, disse ele.

Embora Gaultier não tivesse conhecimento de outros estudos sugerindo que os sintomas de estresse ou depressão poderiam ser melhorados com Lactobacillus, estudos em seres humanos sugerem benefícios com outros probióticos.

Mudança de paradigma na neurociência

Conforme relatado pelo Medscape, um pequeno estudo-piloto com homens saudáveis sugeriu benefícios com uma linhagem probiótica de Bifidobacterium longum. Em estudos pré-clínicos, B longum mostrou ser um “psicobiótico presumido” que produziu benefícios em comportamentos relacionados ao estresse em camundongos.

Neste estudo clínico controlado por placebo, os homens receberam o probiótico B longum diariamente durante 4 semanas. Em seguida, eles receberam uma cápsula correspondente de placebo por mais 4 semanas.

Os resultados mostraram reduções no hormônio do estresse cortisol e atenuação no aumento da ansiedade subjetiva em resposta ao estresse agudo.

Na ocasião, o autor sênior Gerard Clarke, do APC Microbiome Institute da University College Cork, na Irlanda, disse que o conceito de que o microbioma do intestino é um regulador-chave no cérebro e no comportamento representou “uma mudança de paradigma na neurociência”.

Ao comentar o presente estudo, Clarke, que não esteve envolvido na pesquisa, observou que as conclusões se baseiam em evidências com valiosas ideias sobre os mecanismos por trás da relação entre o intestino e o cérebro.

“Este campo exige urgentemente tais ideias mecanicistas que podem ajudar a agilizar a tradução destas descobertas e de outras associadas”, disse ele ao Medscape.

O papel da via da quinurenina na relação é especialmente notável, disse ele.

“De muitas formas, as características neurobiológicas da depressão, como estresse e inflamação, criam o ambiente perfeito para o aumento do metabolismo da via da quinurenina”, disse Clarke.

“Embora estudos anteriores tenham implicado o microbioma do intestino como um importante regulador desta cascata metabólica, não estávamos certos de quais membros particulares do grupo de bactérias intestinais eram mais importantes para essas interações hospedeiro-micróbio.

“Este estudo é importante, por demonstrar que o Lactobacillus pode ser crítico para limitar a produção excessiva de quinurenina, e eles também mostram que a suplementação com L reuteri pode ajudar a frear essa via metabólica desgovernada em condições patológicas”.

A implicação mais ampla possível da suplementação probiótica na dieta com Lactobacillus obtida no iogurte de cultura viva como forma de melhorar a depressão é viável, acrescentou Clarke, observando os resultados do próprio estudo feito com B longum.

Uma nota de cautela

“Uma nota de cautela é aconselhável, uma vez que outro candidato a psicobiótico que nós testamos (L rhamnosus, JB-1) com um sinal pré-clínico bastante forte não se traduziu bem”, disse Clarke.

“Curiosamente, esta também foi uma linhagem de Lactobacillus, mas com um mecanismo de ação baseado na comunicação via nervo vago, em vez de regulação da produção quinurenina”, disse ele.

Dr. Clarke observou que muitos aspectos do eixo microbioma-intestino-cérebro são intrigantes, mas mais pesquisas em seres humanos são necessárias.

“Ainda precisamos de mais estudos clínicos para confirmar que as importantes observações pré-clínicas, como a feita aqui, se traduzirão para humanos”, disse ele.

“O campo também precisa de mais estudos mecanicisticamente orientados, e esta é uma das razões pelas quais o estudo relatado aqui é uma importante adição à literatura”.

O estudo recebeu financiamento da Sociedade Nacional de Esclerose Múltipla e do Instituto Nacional de Saúde Mental. Clarke é atualmente financiado pelo Conselho de Pesquisa em Saúde irlandês, pela Administração de Serviços de Saúde, e pelo Departamento de Pesquisa Científica da Força Aérea. Ele também está no conselho editorial da Scientific Reports.

Sci Rep. Publicado on-line em 7 de março de 2017. Artigo

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s