A criança ”problema” é o reflexo de um ”problema” familiar

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Psicologia infantil /By Samira Oliveira

A criança e a dinâmica familiar. Qual a relação? Há realmente uma relação? Não é de hoje que percebo a relação direta entre esses dois fatores, mas foi relativamente há pouco tempo que comecei a me interessar em escrever sobre o assunto.

Trabalho com crianças há alguns bons anos e em cada momento da vida parti de uma percepção profissional diferente. Seja através do olhar da Educação ou da Psicologia, algo nunca se modificou, e a comprovação em pesquisa e teorias já existe há tempos: a importância da família!

A família é a base, é o alicerce, é onde aprende-se regras básicas de higiene, convívio, educação, respeito e amor. Na escola as crianças aperfeiçoam esses e outros pontos importantes da vida diária, mas o foco é a aprendizagem e a aquisição de conhecimentos e conteúdos escolares.

Infelizmente, com o mundo e a rotina cada vez mais corridos, a criança acaba entrando muito nova na escola. Muitas aos 6 meses já estão na creche, e essa se encarrega de educá-la juntamente com a família.

Comecei falando de educação porque ela é o que permeia a maior parte da vida da criança, mas o foco não é esse. O foco é a dinâmica familiar! Quero que deixem suas mentes abertas, a fim de compreender de forma abrangente o tema proposto. Aqui não é um espaço de críticas, mas de reflexão.

Para tal, preciso citar a típica situação da “criança-problema”. Quem nunca presenciou uma criança fazendo birra, malcriação, e até mesmo sendo agressiva com alguém? E quando esse comportamento é com os pais? Temos a tendência imediata de julgar a criança como mal educada, ou os pais como negligentes.

Primeiro devemos excluir qualquer pré-conceito que tenhamos sobre o outro e sobre nós mesmos, para analisar as situações de forma neutra. Depois, claro, descartar transtornos psicológicos que influenciem diretamente no comportamento da criança,  e então partirmos para a dinâmica familiar.

Ao longo dos anos as famílias mudaram bastante, não só em sua constituição, mas também nos papéis de cada membro e na dinâmica da relação entre eles. E é essa dinâmica que diz respeito à educação que a família dá e em como pais e filhos se relacionam. Ela é importante para que se estabeleça um ambiente familiar saudável e equilibrado. Sem esquecer que a qualidade é mais importante que a quantidade, e carinho vale mais que brinquedo.

Vamos pensar numa criança que não respeita regras e não obedece os adultos. Não precisamos ir muito longe para encontrarmos uma criança assim. E também não precisamos usar exemplos muito “enfeitados” para chegar ao entendimento necessário. A criança em questão é criticada e julgada pela escola, por vizinhos e amigos da família. Quando chega a um consultório de psicologia, só se fala no comportamento ruim dela. E qual a nossa tarefa inicial enquanto psicólogos? Ouvir essa família.

Na escuta percebemos o que já imaginávamos: não é um caso isolado, e a criança não é “o problema”. A criança é o reflexo da família, um sintoma da dinâmica familiar. Se algo não vai bem, ela com certeza será a mais atingida, a que mais manifestará sintomas de que há algo errado. Sendo assim, não existe apenas um “culpado”, mas sim todo um conjunto de fatores que resultam nesse comportamento.

É interessante ver que a família muitas vezes não aceita que tudo é uma questão de fazer mudanças, alterações na rotina. Geralmente querem um diagnóstico, porque assim acreditam ser mais fácil e não precisam lidar com o fracasso… Ledo engano! O diagnóstico infelizmente nem sempre é feito da maneira mais correta e responsável. E através dele vem toda a carga de rótulos que essa criança terá que carregar para toda a vida, fora as medicações exageradamente receitadas.

Não sou contra medicação, nem diagnóstico. Mas acredito que não sejam necessariamente a solução. Percebo em minha prática que alguns diagnósticos inclusive acomodam familiares de forma a “abandonar” a criança, pois ela é “isso ou aquilo”. Mesmo dentro de um diagnóstico, as crianças podem e devem ter suas capacidades exploradas e valorizadas pela família.

Então uma criança, seja típica ou com algum transtorno, precisa de regras. Os combinados usados em sala de aula são super indicados para a família. Eles funcionam muito bem, e podem ser montados de acordo com a rotina de cada um, desde tarefas até comportamentos combinados (daí o nome) entre os membros da família. Vale lembrar que essas regras devem ser claras e únicas. Afinal, se cada familiar lida com elas da maneira que bem entende, a criança tenderá a não respeitá-las mais e/ou até mesmo usá-las a seu favor.

Se não está funcionando, precisa de ajustes. E não adianta pensar que somente levar a criança ao psicólogo vai adiantar. Pode melhorar muito, é claro, mas não vai resolver 100%. Não é milagre. E esse é o maior indício de que a criança não é exatamente o problema… É preciso empenho de toda a família. Principalmente quando nesta há indivíduos que também precisam de psicoterapia e não o fazem.

Por isso famílias, tentem um olhar mais sereno, justo e acolhedor para com as suas crianças. Tirem delas a culpa e o peso de existirem e não atenderem às suas expectativas. Esse é o primeiro passo para o caminho saudável que vocês tanto desejam.

 

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