Médica brasileira desenvolve método inédito para tratar espinha bífida

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Por Larissa Lopes – Editorias: Ciências da Saúde

Na sala de espera, Enzo observa com olhos curiosos e arregalados cada detalhe que esteja à altura do colo da mãe. Quem o vê, nem imagina que com quase 25 semanas ele passou por uma cirurgia ainda dentro do útero, para corrigir uma malformação na coluna. Hoje, Enzo só volta ao hospital para receber parabéns dos médicos. Aos quatro meses, sua movimentação está irreprovável e não há sinais do desenvolvimento de hidrocefalia.

Tudo isso graças do método de correção pré-natal da mielomeningocele fetal desenvolvido pela doutora Denise Araujo Lapa Pedreira, ex-pesquisadora da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) que agora coordena a linha de pesquisa no Hospital Albert Einstein e já realizou mais de 40 cirurgias.

A mielomeningocele fetal, mais conhecida por espinha bífida ou apenas mielo, é resultado de um defeito congênito no fechamento das estruturas que protegem a coluna vertebral, deixando a medula exposta ao líquido amniótico da placenta, o que ocasiona comprometimentos motores e neurológicos ao bebê.

Quando o tubo neural, que dá origem à nossa coluna, não é fechado — o que deve ocorrer na sétima semana de gestação —, o liquor, um líquido produzido em nosso cérebro que circula pela medula, pode vazar e provocar hidrocefalia.

Além disso, a medula exposta ao líquido amniótico lesiona progressivamente os nervos da coluna, provocando perdas motoras nos membros inferiores do bebê e prejudicando sua habilidade de caminhar e de conter urina e fezes. Quanto mais alta for a lesão na coluna vertebral, maiores são as chances de a criança precisar andar com auxílio de muletas ou cadeira de rodas.

Cirurgia de correção inédita

Há uma década, a cirurgia de correção pré-natal da mielo tem sido feita no Brasil “à céu aberto”, isto é, abrindo a barriga e o útero da mãe e expondo o feto, o que aumenta consideravelmente os riscos de ruptura do útero.

Para evitar este e outros perigos, a doutora Denise desenvolveu um procedimento mais seguro tanto para a mãe quanto para o feto. Ela utiliza a abordagem alemã fetoscópica, também chamada de SAFER, que é menos invasiva. O procedimento se assemelha a uma laparoscopia, mas, ao contrário desta, é necessário usar uma ultrassonografia para identificar a placenta, o feto e a lesão.

“Essa abordagem fetoscópica já estava sendo feita na Alemanha, mas a técnica de correção do defeito propriamente dita é nossa, brasileira e inédita. Foi desenvolvida 100% aqui no Brasil, com verba Fapesp. É um produto nacional”, destaca Denise.

Com a ultrassonografia, a doutora injeta um líquido na bolsa amniótica para fazer, com segurança, quatro furos, por punção, na barriga da mãe. Através desses furos, o líquido amniótico é retirado e substituído por gás carbônico. Depois, são introduzidos os instrumentos necessários para fazer a dissecção e a sutura do defeito e uma câmera para filmar o feto. As imagens aparecem em monitores, por onde os médicos acompanham o procedimento.

Com os instrumentos, o feto é reposicionado até que fique na posição correta para realizar a cirurgia. No final das costas do bebê, a marca da mielo se assemelha à uma bolha, que passa pela dissecção para que a medula seja colocada de volta ao local adequado. Uma película de celulose é posta em cima da operação e a pele do feto é suturada.

Diferentemente da técnica da doutora Denise, na Alemanha, a película é fabricada com outra matéria-prima e é suturada em volta da lesão. No entanto, os pontos deste procedimento podem, mais tarde, causar fibroses e cicatrizes no local, além de tornarem a cirurgia mais demorada.

Por fim, “os furos no útero não são fechados, porque o útero se contrai e os fecha naturalmente. Na barriga da mãe, são dados pontos de mononylon, como em uma cesárea”, explica a doutora.

A cirurgia de correção da mielo não consegue reparar os comprometimentos que já ocorreram durante a gestação, mas evita que mais perdas aconteçam e reduz as chances de o bebê não andar e desenvolver hidrocefalia.

Em comparação com a técnica “à céu aberto”, a abordagem fetoscópica proporciona o dobro de chances de o bebê conseguir andar e diminui pela metade as chances de desenvolver hidrocefalia. Em relação à técnica alemã, há 70% de melhora do quadro e, comparando com a americana, 40%.

O diagnóstico

Segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), a cada ano cerca de três mil bebês são diagnosticados com a mielomeningocele fetal.

Mães que já tiveram filhos com mielo ou anencefalia, ou possuem casos na família, têm mais riscos de o feto desenvolver a doença. Além das causas genéticas, a deficiência de ácido fólico, também conhecido como vitamina B9, é o principal fator da doença.

Para prevenir a malformação, o Conselho Federal de Medicina recomenda que mulheres que estiverem expostas a possibilidade de engravidar comecem a tomar doses complementares da vitamina.

A doença pode ser diagnosticada a partir da 16ª semana de gestação, por ultrassom, podendo dar seus primeiros sinais na 12ª semana. Entre a 24ª e a 26ª semanas, a cirurgia pode ser realizada.

Infelizmente, poucos profissionais estão preparados para diagnosticar a mielo ou sabem dos avanços que têm sido feitos para diminuir as lesões do defeito congênito. Karem Simões, mãe de Enzo, obteve o diagnóstico na vigésima semana de gravidez, mas o médico não soube apresentar as possibilidades de tratamento do caso.

“O diagnóstico foi esse: ‘ele não vai andar, não vai movimentar as pernas, vai ter problemas na cabeça, não vai controlar a urina, nem as fezes”, relata Karem, que procurou por um tratamento por conta própria e encontrou a técnica cirúrgica da doutora Denise na internet. “Poucos sabem que você tem a opção de melhorar as condições de vida do bebê”.

“No caso do Enzo, ele tinha uma lesão baixa, e isso é sempre sinal de bom diagnóstico”, analisa a doutora. “Hoje, as pediatras que o avaliam ficam muito contentes com a parte neurocirúrgica dele. Acham que a movimentação dos membros é perfeita e que há grandes chances dele andar. Além disso, ele tem chances muito pequenas de desenvolver hidrocefalia, embora a gente precise avaliar isso ainda nesse primeiro ano de vida”.

 

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