Antibióticos depois da relação sexual podem diminuir quase pela metade a incidência de DST

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Heather Boerner

SEATTLE – A profilaxia pós-exposição com doxiciclina sob demanda pode reduzir significativamente a incidência das doenças sexualmente transmissíveis (DST), revela nova pesquisa.

Na verdade, a profilaxia com doxiciclina após a relação sexual resultou em uma queda de 47% no número de novas infecções, relatam pesquisadores franceses.

Estes dados são especialmente importantes agora, disse o primeiro autor o Dr. Jean-Michel Molina, médico do Hôpital Saint-Louis, em Paris.

A incidência das doenças sexualmente transmissíveis, especialmente a sífilis e, cada vez mais, a gonorreia resistente aos antimicrobianos, aumentou drasticamente entre os homens gays por mais de seis anos. Essas infecções aumentam a susceptibilidade ao HIV e podem ter consequências devastadoras e permanentes por si só.

O Dr. Molina apresentou os resultados do estudo durante uma sessão de última hora na Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections 2017.

Estes resultados são muito, muito importantes, e podem ter enormes implicações para a saúde pública, disse a Dra. Wafaa El-Sadr, médica da Columbia University Mailman School of Public Health, emNova York, que não participou do estudo.

“Esta intervenção pareceu ser muito eficaz. Também pareceu ser pragmática e fácil de implementar”, disse ela ao Medscape.

Este modelo terapêutico – combinando a profilaxia pré-exposição (Pre-Exposure Prophylaxis – PrEP) à profilaxia pós-exposição (PEP) antirretroviral para o HIV e antibacteriana para as DSTs – poderia vir a ser uma nova forma de conduta mais abrangente de saúde sexual para homens gays, disse a Dra. Wafaa.

Os participantes do subestudo aberto randomizado realizado pelo Dr. Molina e colaboradores – homens gays com alto risco de contrair HIV na França e no Canadá – vieram do estudo Intervention préventive de l’exposition aux risques avec et pour les gays (IPERGAY). O IPERGAY foi concebido para avaliar a eficácia e a segurança da profilaxia pré-exposição sexual com a associação de tenofovir e entricitabina.

Os 116 homens do grupo da profilaxia foram instruídos a tomar dois comprimidos de 100 mg de doxiciclina até 72 horas após uma relação sexual sem preservativos; os 116 homens no grupo de controle não receberam profilaxia.

Todos os homens receberam aconselhamento para redução de risco e uso de preservativos, e a cada oito semanas todos fizeram testes de HIV, sífilis, clamídia e gonorreia.

Em um acompanhamento mediano de 8,7 meses, um número menor de homens no grupo da profilaxia do que no grupo controle tinha adquirido alguma doença sexualmente transmissível de etiologia bacteriana (28 vs. 45; hazard ratio, HR, 0,53; intervalo de confiança, IC, de 95% de 0,33 a 0,85; P = 0,008).

Quadro. Redução do risco pela profilaxia com doxiciclina

Infecção

Redução, %

Hazard ratio

Intervalo de confiança de 95%

Valor de P

Gonorreia

17

0,83

0,47 a 1,47

0,52

Clamídia

70

0,30

0,13 a 0,70

0,006

Sífilis

73

0,27

0,07 a 0,98

< 0,05

Globalmente, 71% dos homens estavam assintomáticos.

Embora os resultados deste estudo tragam esperança, ainda é muito cedo para implementar esse tratamento na prática, disse o Dr. Molina.

“Ainda não temos os resultados do estudo sobre resistência aos antibióticos, e os efeitos em longo prazo desta estratégia ainda não são conhecidos”, disse o pesquisador ao Medscape.

“Neste momento, a profilaxia das doenças sexualmente transmissíveis com antimicrobianos ainda não é recomendada. Achamos que ainda é necessário pesquisar melhor.”

Resistência e atenção integral

A questão do uso excessivo de antibióticos na pecuária norte-americana, que pode rapidamente diminuir a proteção, foi levantada por alguns membros da audiência.

A resistência aos antibióticos é uma das principais preocupações da Dra. Jeanne Marrazzo, médica da University of Alabama, em Birmingham.

A ideia de aumentar a resistência aos medicamentos que têm levado os pacientes com doenças sexualmente transmissíveis à cegueira e à perda auditiva “me deixa insone”, disse ela.

A principal mensagem deste subestudo não é que os médicos devam começar a fornecer doxiciclina para os pacientes de alto risco; é o fato de 71% das doenças sexualmente transmissíveis terem sido assintomáticas, disse a Dra. Jeanne disse ao Medscape.

Os médicos nunca devem descartar o diagnóstico de sífilis, em particular, quando veem uma lesão em um homem gay ou uma mulher que pode estar grávida, disse ela.

“Eles jamais podem presumir que não seja sífilis, porque ela têm muitas apresentações diferentes”, explicou a Dra. Jeanne. “Se alguém tiver uma lesão genital, solicite as sorologias, e talvez trate presumindo que seja sífilis. Faça uma anamnese e um exame físico neurológico rigorosos; investigue perda auditiva e alterações visuais. Tudo isso, segundo a médica, precisa ser feito no contexto das práticas que defendem “o direito da pessoa a uma vida sexual saudável”.

“Não se trata apenas de justiça social, é também uma questão de saúde”, ressaltou. “Você o faz para orientar os pacientes e dar-lhes as ferramentas para evitar DSTs e, caso sofram exposição, fazer um tratamento adequado, respeitando a privacidade deles. Isso significa que você precisa investir em um sistema que possibilite isso, o que muitas vezes implica ter um sistema de saúde pública que assuma esses pacientes nas responsabilidades que o sistema de saúde privado não consegue”.

O Dr. Jean-Michel Molina informa ter recebido financiamento das empresas Gilead Sciences, ViiV Healthcare e Merck. A Dra. Wafaa El-Sadr e a Dra. Jeanne Marrazzo informaram não possuir conflitos de interesse relevantes ao tema.

Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections (CROI) 2017: Resumo OA 91LB. Apresentado em 15 de fevereiro de 2017.

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