Cegueira efêmera por uso de smartphones diagnosticada equivocadamente como esclerose múltipla?

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Deborah Brauser

 

A cegueira efêmera por uso de smartphones é um fenômeno real e pode contribuir para a realização de um diagnóstico neurológico equivocado na prática clínica, sugere um novo relato de caso.

Publicado on-line em 18 de janeiro no periódico Neurology, ele discute o caso de uma mulher de meia-idade referindo perda visual monocular temporária e indolor após usar o smartphone enquanto estava em decúbito lateral no leito.

Isto logo após dois casos publicados no periódico New England Journal of Medicine em 2016 por pesquisadores do Reino Unido descrevendo duas mulheres com 22 e 40 anos de idade, que também apresentaram problema visual monocular recorrente imediatamente após o uso de smartphones ao leito.

Os médicos que apresentam o caso em pauta indicam que a paciente recebeu inicialmente um diagnóstico equivocado de esclerose múltipla e foi orientada a iniciar um tratamento capaz de modificar esta doença.

A interpretação inadequada dos sinais e/ou sintomas da cegueira efêmera por uso de smartphones, especialmente como distúrbio vascular ou doença inflamatória, pode levar a investigações diagnósticas e tratamentos desnecessários, escreveram Saraniya Sathiamoorthi, da Mayo Medical School, em Rochester, Minnesota, e o Dr. Dean M. Wingerchuk , médico da Mayo Clinic, em Scottsdale, no Arizona.

O Dr. Wingerchuk acrescentou ao Medscape que, com o uso crescente destes dispositivos, os casos de cegueira efêmera por uso de smartphones tendem a aumentar, por isso é importante que os médicos perguntem sobre como quando e onde ocorreram os problemas visuais.

“Certamente, trata-se de um fenômeno incomum. Não se sabe se subnotificado pelos pacientes ou pouco reconhecido pelos médicos. Independentemente disso, se você tiver um paciente com queixa de perda visual monocular é importante obter o máximo de detalhes possível”, disse o médico.

“Neste caso, claramente o uso do smartphone, a posição do corpo e a quantidade de luz ambiente foram as pistas para o diagnóstico da cegueira efêmera por uso de smartphones.

Apagão visual

Os sinais e sintomas da cegueira efêmera por uso de smartphones são causados por níveis de adaptação à luz temporariamente discrepantes entre as duas retinas, escrevem os autores.

Eles informam que a paciente tinha 58 anos de idade e, excetuando o quadro de cegueira efêmera, era hígida. A paciente procurou o consultório depois de apresentar dois episódios de perda visual monocular direita transitória.

Em cada episódio a paciente tinha se posicionado em decúbito lateral esquerdo no leito depois de acordar nas primeiras horas da manhã e usado o smartphone durante aproximadamente 10 a 15 minutos. Ela não utilizou nenhuma outra fonte luz além da luz do próprio aparelho.

Ao se levantar, a visão do olho direito desapareceu subitamente durante cerca de 15 segundos e voltou aproximadamente um minuto depois. A paciente observou que os episódios não causaram dor alguma.

“Não houve sintomas neurológicos ou ortostáticos e a paciente não tinha história de migrânea, alterações oculares ou fatores de risco cerebrovasculares”, escrevem os autores.

A acuidade visual da paciente e outros exames oftalmológicos não apresentaram alterações e os exames cardiovasculares e neurológicos não revelaram nada de anormal.

Embora a ressonância nuclear magnética (RNM) craniana tenha revelado algumas lesões cerebrais bilaterais na substância branca, a ressonância nuclear magnética cervical e da coluna vertebral (bem como os resultados dos exames do líquido cefalorraquidiano e dos perfis metabólico e inflamatório) não apresentou alterações. Mesmo assim, a paciente recebeu o diagnóstico de esclerose múltipla feito por um neurologista.

Aos seis meses de acompanhamento, outra RNM cerebral não mostrou nenhuma alteração e, após os resultados da angiografia por RNM de cabeça e pescoço serem considerados normais, o diagnóstico de cegueira efêmera por uso de smartphones foi finalmente firmado.

“Nós (…) concluímos que as lesões na substância branca provavelmente representavam doença cerebrovascular de pequenos vasos”, escrevem os médicos.

Este caso confirma a cegueira efêmera por uso de smartphones como um fenômeno fisiológico de importância clínica, que deve ser incluído no diagnóstico diferencial da deficiência visual monocular transitória indolor”, escrevem os autores.

O Dr. Wingerchuk acrescentou que a interpretação errônea dos sintomas pode levar a um caminho diagnóstico equivocado.

Confiança excessiva na RNM

No estudo de caso publicado no periódico New England Journal of Medicine, a paciente mais velha tinha apresentado deficiência visual monocular recorrente em seis meses, com cada episódio com duração de até 15 minutos depois de acordar. A paciente mais jovem teve comprometimento do olho direito durante alguns meses.

Depois de cada paciente fornecer uma história detalhada em uma clínica neuro-oftálmica, descobriu-se que todas duas tinham checado seus smartphones enquanto permaneciam deitadas ao leito – e apresentado sintomas apenas no olho contralateral ao decúbito.

Curiosamente, novas pesquisas mostraram que a sensibilidade visual de dois dos pesquisadores sofreu redução após eles terem olhado para um smartphone no escuro, à distância do próprio braço estendido. A recuperação ocorreu após alguns minutos.

“Nossos casos mostram que uma anamnese detalhada e o conhecimento da fisiologia da retina podem tranquilizar o paciente e o médico, podendo evitar a ansiedade, bem como investigações diagnósticas desnecessárias e dispendiosas”, escrevem.

Dr. Wingerchuk acrescentou que o novo caso destaca três dos principais fatores relacionados com um diagnóstico equivocado de esclerose múltipla:

  • Interpretar os sinais e/ou sintomas de forma incorreta;
  • Não fundamentar os sinais e/ou sintomas com evidências de desmielinização no sistema nervoso central; e
  • Interpretar erroneamente alterações cerebrais inespecíficas na ressonância nuclear magnética.

“O diagnóstico de esclerose múltipla ou síndrome clínica isolada requer pelo menos uma crise junto com conclusões objetivas sugestivas de processos de desmielinização no sistema nervoso central”, escrevem os pesquisadores, acrescentando que os sinais e/ou sintomas de seus pacientes podem ser breves e indolores, o que também não é compatível com neurite óptica desmielinizante.

“O excesso de confiança nos resultados da ressonância nuclear magnética e um subsídio inadequado (…) estão entre as armadilhas heurísticas relevantes deste caso e dos erros de diagnóstico de esclerose múltipla em geral”.

O Dr. Wingerchuk informa ter recebido subsídios para pesquisa da Alexion e TerumoBCT; e honorários de consultoria da MedImmune e pelo trabalho de coeditor-chefe no periódico The Neurologist. Sathiamoorthi informou não ter relações financeiras relevantes.

Neurology. Publicado on-line em 18 de janeiro de 2017. Trecho

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