Rio de Janeiro corre risco de epidemia de chikungunya

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Aedes-Aegypti

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

 

A cidade do Rio de Janeiro corre o risco de ter uma epidemia de chikungunya em 2017. Esse temor motivou a realização de uma mesa redonda na sede da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (Soperj) no fim de janeiro. Especialistas da Fundação Oswaldo Cruz estimam que o vírus pode infectar dez vezes mais cariocas do que a pandemia de dengue de 2008, quando 125 mil pessoas tiveram a doença, por causa das altas taxas de ataque registradas pelo vírus, do histórico de crescimento de casos da doença e da suscetibilidade da população.

Durante o evento, o Dr. Alexandre Chieppe, subsecretário da Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro, afirmou que o cenário é muito preocupante, pois aponta para uma dupla onda epidêmica, com manifestações atípicas sendo mais frequentes do que se imaginava, e também com uma taxa de mortalidade inesperadamente alta.

“Dados do Ministério da Saúde de 2016 mostram uma incidência de 106,3 por 100 mil habitantes no Rio de Janeiro. O estado teve a maior taxa da região Sudeste, enquanto o Espírito Santo, que ficou em segundo lugar, teve uma taxa 10 vezes menor (10/100 mil habitantes)”[1], disse.

Leia também: Chikungunya: o que precisamos saber sobre o vírus e manejo da doença

De acordo com o Dr. Chieppe, o aumento dos casos de chikungunya no Rio de Janeiro era esperado, pois o estado viveu a segunda onda de zika ano passado, junto com a Região Nordeste. “Esgotamos a população suscetível à infecção por zika. Dengue, por sua vez, circula desde 2010. O sorotipo DENV-1 se mantém há seis anos com circulação importante. Era de se esperar que tivéssemos um aumento de outra arbovirose”, disse ele, acrescentando que ainda não se sabe explicar por que o Rio de Janeiro é, em geral, a principal porta de entrada de vírus novos na Região Sudeste.

Haviam sido notificados 15.247 casos de chikungunya no estado até 29 de novembro, segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), com a Capital concentrando a maior parte dos eventos. A taxa de incidência acumulada na cidade foi de 211,3/100 mil habitantes, enquanto no Estado do Rio foi de 92,1/100 mil habitantes.

“Mais da metade dos casos de chikungunya registrados em 2016 no Estado do Rio de Janeiro foram em pessoas entre 30 e 59 anos de idade”, disse o Dr. Chieppe, destacando que as mulheres foram as principais vítimas (64%).

Ao comparar os óbitos associados à doença entre os países da América Latina, o Brasil teve taxa de letalidade de 0,34/1000 casos, atrás apenas da Colômbia com 0,73/1000 casos. As informações são da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

“Fatores climáticos, presença de vetor competente, quantidade de vetor competente, características do vetor, do vírus e da população, e fatores demográficos” estão, segundo o subsecretário, entre os fatores que explicam o risco de epidemia de arboviroses no Rio de Janeiro.

Dados do Ministério da Saúde de outubro de 2016 apontavam que a maioria dos municípios tinha um índice classificado como satisfatório. Mas, para o Dr. Chieppe, “1% de vetor em uma população suscetível já é suficiente para sustentar uma epidemia, portanto, um valor satisfatório é zero”.

A previsão para o estado do Rio de Janeiro em 2017 é de que não haja circulação tão intensa do vírus Zika, como houve em 2015 e 2016, em função da diminuição da população suscetível. Segundo o Dr. Chieppe, um cenário semelhante ocorre com o vírus 1 da dengue, que circula atualmente no estado. Por outro lado, “há suscetibilidade para o vírus da chikungunya em grande parte da população do Estado do Rio de Janeiro, em todas as regiões”. Com isso, ele destacou a importância de organizar a rede de saúde para atender aos casos.

A doença na criança

A Dra. Tania Petraglia, presidente do Comitê de Infectologia da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro, lembrou aos presentes na mesa-redonda de que o vírus da chikungunya é um vírus RNA da família Togaviridae, que pode ser transmitido tanto pelo Aedes aegypti como por outra espécie de mosquito, o Aedes albopictus.

“Há um período de incubação de um a 12 dias, viremia de 10 dias e 70% dos pacientes são sintomáticos. A doença se manifesta em três fases: aguda (até 10 dias), subaguda (sintomas articulares até três meses) e crônica (após três meses)”, disse. As formas atípicas que, segundo a médica, ainda são pouco conhecidas, envolvem acometimento neurológico, cardíaco, ocular, renal, e cutâneo, entre outros.

Quanto às manifestações clínicas no paciente pediátrico Tania lembrou que, em neonatos e crianças de até dois anos, pode ocorrer febre ou não, bem como prostração dolorosa ou choro contínuo.

“Em geral, bebês inquietos e com choro contínuo levantavam a suspeita de sífilis. Agora, devemos suspeitar também de chikungunya, mas sem esquecer a primeira, pois sífilis continua sendo um problema importante”, disse. No caso da chikungunya, é vital ainda atentar para “manifestações cutâneas diversas, convulsões e sinais meníngeos, e vínculo epidemiológico com arboviroses”.

Crianças entre dois e 12 anos, por sua vez, podem apresentar “febre por até sete dias, acompanhada de artralgia intensa e/ou mialgia, manifestações cutâneas diversas ou apenas convulsão e sinais de alteração neurológica, acompanhada ou não de febre”.

Quanto à infecção durante a gestação, a médica informou que ela não está relacionada a efeitos teratogênicos e que são raros os relatos de abortamento espontâneo. A transmissão vertical pode ocorrer em até 50% dos casos e não há transmissão pelo aleitamento materno.

“Mesmo quando não temos o diagnóstico definitivo, devemos tratar como se fosse dengue. É preciso hidratar”, orientou, lembrando que é importante também fazer a sensibilização para incentivar a profilaxia. “Temos de lembrar à população de que mesmo um paciente infectado precisa continuar fazendo uso de repelente”, disse.

Já a Dra. Cynthia França, presidente do Comitê de Reumatologia da SOPERJ, disse que a dor é a principal característica clínica da doença. “O significado de chikungunya, em um dialeto africano, é ‘aqueles que se dobram’, justamente em referência ao andar curvado dos pacientes devido à intensa artralgia”, disse.

Segundo a médica, ainda há poucos estudos sobre chikungunya em crianças. A população pediátrica representa cerca de 25% de todos os casos e aqueles entre 10 e 15 anos são os mais acometidos.

Nem sempre a percepção da dor é fácil em pacientes pediátricos, especialmente quando ainda não falam. Assim, a médica explicou aos presentes que a criança pode revelar dor aguda a partir da “expressão facial; do movimento do corpo e da postura corporal; da incapacidade de ser consolado; pelo choro e pelo gemido”. A dor crônica pode ser revelada por “postura anormal; medo de ser movimentado; falta de expressão facial; falta de interesse ao ambiente; tranquilidade indevida; aumento da irritabilidade; mau humor; perturbação do sono; raiva; alterações do apetite e baixo desempenho escolar”.

Segundo a Dra. Cinthia, sempre que possível, o paciente deve ser treinado para utilizar escalas de dor. Além disso, ela afirmou que o médico deve detalhar e caracterizar a dor articular.

“Durante a fase aguda, é importante fazer a terapia de suporte, com repouso absoluto, pois este é um fator protetor. Não se deve usar anti-inflamatório nessa fase, pois isso aumenta o risco de complicações renais e de sangramento, por exemplo”, disse a Dra. Cinthia, informando que, nesse período, é possível usar analgésicos como dipirona e paracetamol, mas o paciente precisa ser revisto.

A médica afirmou ainda que os médicos das unidades básicas de saúde no Rio de Janeiro estão sendo treinados para tratar a dor na fase aguda e subaguda, mas casos na fase crônica devem ser encaminhados a um especialista.

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