Declínio cognitivo em mulheres começa na meia-idade

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Pauline Anderson

Para mulheres, a nitidez mental, particularmente a velocidade de processamento, começa a declinar a partir dos 50 anos, mostrou um grande estudo longitudinal.

Diferentemente de pesquisas prévias, o novo estudo controlou para sintomas de menopausa e “efeitos da prática”, que podem ocorrer com a avaliação repetida dos mesmos indivíduos usando os mesmos testes.

Os achados sugerem que os problemas cognitivos apresentados por mulheres de meia-idade são parte normal do processo de envelhecimento, disse o autor principal Dr. Arun S. Karlamangla, professor de medicina, Divisão de Geriatria, David Geffen School of Medicine, University of California, Los Angeles.

Dr. Arun Karlamangla

“Não fique surpreso quando suas pacientes de 50 anos disserem que estão esquecendo onde deixaram as chaves”, disse o Dr. Karlamangla.

“Esse envelhecimento cognitivo é muito comum, muito usual, e é como o envelhecimento dos outros sistemas orgânicos. Não é um prenúncio de demência mais adiante”.

O estudo foi publicado on-line em 3 de janeiro no periódico PLOS ONE.

Dados longitudinais

A maioria dos estudos prévios sobre declínio cognitivo foi conduzida em indivíduos mais velhos ou utilizou comparações transversais, que são tipicamente não muito confiáveis, disse o Dr. Karlamangla. “Muito poucos estudos analisaram o funcionamento cognitivo na meia-idade de forma longitudinal”.

O novo estudo longitudinal incluiu dados de 2124 mulheres do Study of Women’s Health Across the Nation (SWAN), uma análise de base comunitária de mulheres de meia-idade em sete locais nos EUA. Na entrada, participantes do SWAN tinham de 42 a 52 anos, possuíam útero intacto, no mínimo um ovário, não usavam estrogênio, e haviam tido no mínimo um período menstrual nos últimos três meses.

Depois das consultas iniciais em 1996/97, as participantes foram acompanhadas anualmente. As consultas incluíam testes cognitivos. Os resultados do terceiro teste cognitivo foram usados como o basal para a análise atual.

Quase metade da amostra do estudo era branca e cerca de um quarto tinha pós-graduação. A mediana de idade das participantes foi 54 anos, e metade havia tido o último ciclo menstrual há dois anos ou mais.

Iniciar a análise alguns anos após a menopausa ajudou a controlar para sintomas relacionados à menopausa, incluindo depressão, ansiedade e distúrbios vasomotores e do sono, disse o Dr. Karlamangla.

“Queríamos isolar o declínio real relacionado ao envelhecimento após remover esses sintomas da transição da menopausa”, disse ele.

Os pesquisadores criaram uma subamostra de 1224 mulheres para quem a data do último ciclo menstrual era conhecida. Esta amostra foi muito semelhante ao grupo principal de estudo. No início do estudo, metade dessas mulheres havia tido o último ciclo há pelo menos dois anos.

Nas duas amostras o número médio de testes cognitivos para os quais os resultados estavam disponíveis para análise foi 3,4.

Usando o exame cognitivo na terceira consulta como basal os pesquisadores conseguiram minimizar o impacto dos efeitos de prática, que podem mascarar o declínio cognitivo durante a transição da menopausa.

“Efeitos da prática são maiores do primeiro exame para o segundo, menores do segundo para o terceiro teste, e mínimos a partir de então”, disse o Dr. Karlamangla.

Alterações relacionadas à idade

A mediana do tempo de seguimento foi de 6,5 anos para as duas amostras do estudo. Durante este período foram realizadas 7185 avaliações cognitivas.

Os pesquisadores avaliaram quatro domínios cognitivos, incluindo velocidade de processamento cognitivo, memória episódica verbal e memória de trabalho.

Eles aplicaram dois modelos ajustados – um modelo de envelhecimento ovariano, que quantifica a mudança no desempenho do teste cognitivo em relação ao tempo desde o último ciclo, e um modelo de envelhecimento cronológico, que quantifica a mudança no desempenho cognitivo em relação ao tempo decorrido desde o terceiro teste cognitivo (exame basal).

Em cada modelo os pesquisadores avaliaram as diferenças longitudinais entre as pacientes e na mesma paciente nos domínios cognitivos.

No grupo principal, para quem a data exata da menopausa era desconhecida, após controlar para os efeitos da prática, transição da menopausa, e sintomas associados à transição da menopausa, as mulheres mostraram declínios longitudinais em algum desempenho cognitivo.

O declínio médio nas pontuações que refletiam a velocidade cognitiva foi de 0,28 pontos por ano (intervalo de confiança, IC, de 95%, 0,20-0,36) ou 4,9 % em 10 anos. O declínio médio dos escores para a memória episódica verbal tardia foi 0,02 pontos por ano (IC de 95%, 0,00-0,03), ou 2% em 10 anos.

À medida que envelhecem as mulheres experimentam o declínio cognitivo e outras mudanças, como velocidade mais lenta da marcha, massa muscular reduzida e perda de reflexos.

“Achamos que são essencialmente apenas mudanças relacionadas à idade”, disse o Dr. Karlamanga. “À medida que o tempo passa, há alguma degeneração. Não é algo com que as pessoas precisam ficar chocadas ou preocupadas”.

Em coerência com estudos anteriores, os pesquisadores não encontraram declínio longitudinal na memória imediata ou na memória de trabalho. No entanto, “medidas mais sensíveis da memória episódica e de trabalho podem realmente mostrar declínios na meia-idade”, escrevem eles.

Use ou perca

No modelo de envelhecimento ovariano, em que o último ciclo era conhecido, a taxa de declínio na mesma paciente (efeito longitudinal de envelhecimento) na velocidade de processamento (0,28 pontos por ano) foi essencialmente idêntica à diferença média entre as mulheres por idade no momento do último ciclo (0,31 pontos por ano).

“Isto realmente sugere que não há relação com a transição da menopausa, mas simplesmente com o passar do tempo”, disse o Dr. Karlamangla. “Está dizendo que nós fizemos um bom trabalho de remover todos os confusores possíveis”.

Entretanto, no modelo de envelhecimento cronológico as diferenças transversais por idade cronológica no momento do teste foram substancialmente maiores do que os efeitos do envelhecimento longitudinal (0,54 pontos por ano em relação a 0,25 pontos por ano).

“Isso significa que algo está acontecendo, que há algum confusor na comparação transversal que não controlamos”, disse o Dr. Karlamangla.

Ele observou que a única diferença entre o modelo cronológico e o modelo ovariano era que, no segundo, os pesquisadores sabiam a data do último ciclo. Isso, disse ele, sugere que o declínio no estrogênio pode ser um fator não controlado que contribui para o declínio cognitivo.

Uma possível forma de retardar o declínio cognitivo é manter o cérebro ativo – a abordagem “use ou perca”, disse o Dr. Karlamangla.

“Muitos estudos têm demonstrado que quanto mais cognitivamente ativo você é, menor o declínio nos domínios em que você está ativo. Então, se você faz muitas palavras cruzadas, vai continuar conseguindo fazê-las bem, mas isso não significa que se repetirá em outros domínios”.

A atividade física e o controle dos fatores de risco cardiovascular – pressão arterial e níveis de glicose e colesterol no sangue – são outras importantes maneiras de proteger o cérebro.

Uma limitação do estudo foi que ele não incluiu homens. O Dr. Karlamangla, no entanto, destacou um estudo anterior (Whitehall II) que também avaliou o declínio cognitivo longitudinalmente e observou que certos domínios cognitivos declinaram entre funcionários públicos de meia-idade dos dois gêneros.

Estudo incrível

Solicitada a comentar, Pauline Maki, professora de psiquiatria e psicologia da University of Illinois, em Chicago, chamou o estudo de “incrível”.

“De certa forma ele nos diz qual parte do nosso declínio cognitivo, quando envelhecemos, não é causado pelo fato de que passamos pela menopausa e temos esses sintomas”.

Estimar o efeito do envelhecimento cronológico de forma independente do envelhecimento do ovário “é realmente importante”, e a abordagem dos autores para fazer isso “foi realmente a chave”, disse Pauline.

O estudo também lançou luz sobre como é o declínio cognitivo normal em mulheres de meia-idade.

“Nós finalmente temos essa estimativa – de 5% em 10 anos – e isso é bom, porque nos diz o que é normal e nos dá uma referência para entender o que podemos esperar”.

Mas como com toda pesquisa, os resultados devem ser replicados, disse Pauline.

“Precisamos ser muito cautelosos e nos certificar de que estamos usando os exames mais sensíveis que podemos”.

O SWAN foi financiado por doações de National Institutes of Health (NIH), National Institute on Aging, National Institute of Nursing Research, e do NIH Office of Research on Women’s Health. Os autores declararam não possuir conflitos de interesse relevantes.

PLoS One. Publicado on-line em 3 de janeiro de 2017. Artigo

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