O gramado artificial está colocando a vida dos atletas em perigo?

Postado em

Dr. Bert R. Mandelbaum

 

Benefícios do gramado artificial

As objeções dos jogadores ao relvado artificial ganharam as manchetes internacionais alguns anos atrás quando algumas jogadoras profissionais de futebol iniciaram uma ação judicial para terem o direito de jogar sobre grama natural na Copa do Mundo Feminina de 2015.

Elas finalmente cederam e jogaram nas superfícies sintéticas, mas as perguntas sobre os méritos relativos da grama natural e do relvado artificial continuam em ebulição enquanto as escolas, as cidades e as ligas constroem ou substituem seus campos de futebol.

O perito local, especialmente em cidades pequenas, é frequentemente o médico do esporte. É difícil fazer uma recomendação definitiva, por isso aconselho qualquer médico nessa situação a prover informações sobre o histórico do gramado artificial e uma boa visão geral da pesquisa feita até agora sobre as taxas de lesão para os dois tipos de superfície.

Inventado em 1964, o relvado artificial ficou conhecido nos Estados Unidos em 1966, quando o Houston Astros (equipe da liga principal de beisebol, sediada em Houston, Texas) instalaram a superfície que logo seria chamada de AstroTurf®, no estádio Astrodome. [1] A equipe precisava de um produto sintético porque não havia luz suficiente através da cúpula para manter a grama natural viva.

O relvado artificial não congela nem fica lamacento. Não precisa de irrigação, poda, fertilização ou replantio. Além disso, as travas das chuteiras não fazem buracos nele. Portanto, a manutenção é mais barata quando comparada à da grama natural.

Um obstáculo na performance dos atletas?

No entanto, o gramado artificial pode ser duro sob os pés. Pode causar abrasões nos jogadores que caem ou deslizam sobre ele.[2] Aquece em dias quentes, se desgasta com o tempo, e é mais caro para substituir do que a grama. Além disso, surgiram preocupações de que o enchimento de fragmentos de borracha no relvado artificial pudesse ser cancerígeno.

Algumas destas percepções sobre o gramado artificial podem estar desatualizadas. [2] As primeiras versões eram basicamente carpetes grossos ao ar livre. A segunda geração tornou-se mais semelhante à grama natural, com mais espaço entre as fibras e o uso de materiais mais macios, como o polietileno. Uma camada de areia aproximou mais a qualidade de jogo à da grama natural.

Na terceira geração, os grânulos de borracha espalhados entre as fibras suavizaram ainda mais a sensação. [3,4]

Alguns fabricantes desde então lançaram novos produtos, que podem conter uma camada mista de borracha e areia, marcando um retorno às superfícies sem pedaços de borracha espalhados pelo chão. [2,3] Se estas inovações são significativas o suficiente para serem consideradas como quarta ou quinta geração de gramas artificiais, é um assunto de debate.

Apesar das melhorias, muitos atletas ainda acreditam que eles não joguem tão bem – e sofram mais abrasões e lesões nas articulações – no gramado artificial.

“Quando jogo no campo artificial, minhas pernas podem pulsar e doer por até 24 horas, e pode demorar de três a cinco dias para se recuperarem, enquanto que com a grama, depois de 24 horas, estou pronta para jogar novamente”, disse Alex Morgan, uma das estrelas da seleção de futebol feminino dos EUA, ao USA Today em 2014. [4]

Maior risco de lesões?

Outros atletas queixam-se que o medo da lesão leva a um estilo de jogo mais cauteloso. [5]

Em 2014, em uma pesquisa realizada com os jogadores de futebol da liga americana, publicada noBMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation, mais de 95% dos entrevistados disseram ter experimentado maior dor muscular e articular; 90% disseram que demoravam mais para se recuperar; e 89% consideravam ser mais provável que desenvolvessem lesões crônicas ao jogar no relvado artificial do que na grama natural. [6]

Isto é realidade ou simplesmente percepção?

Experiências em laboratório sugerem diferenças significativas entre as superfícies dos gramados. Alguns estudos têm mostrado diferentes padrões de movimento, como uma maior força de atrito da superfície do calçado em gramados artificiais. [7]

Um estudo usando manequins, como os de testes de impacto, mostrou que o risco de lesão cerebral traumática leve foi maior que 10% para vários tipos de relvado artificial de terceira geração, quando os jogadores caem de uma altura de 0,77 m. Por outro lado, no gramado natural, não foi possível para alguém caindo no curso normal de um jogo, atingir um risco de 10% para este tipo de lesão. [8]

Porém, quando os pesquisadores analisaram as taxas reais de lesão, os riscos parecem depender do esporte. Vários estudos examinaram essa questão tanto na Federação Internacional de Futebol (FIFA) quanto na Liga Nacional de Futebol Americano (NFL) dos Estados Unidos. [9-11]

Para futebol, as taxas totais de lesão parecem equivalentes. Essa é a conclusão tanto para dados dos clubes de elite europeus quanto para futebol universitário americano, e esses dados têm sido consistentes desde a década de 1990 até o ano passado. [9,10]

Estudos e relatos subjetivos

Em 2011, uma revisão de estudos sobre superfícies de jogo sintéticas encontrou 20 coortes analisadas em 11 artigos. [11] Dentre elas, 16 mostraram diferenças insignificantes nas taxas de lesão. Oito apresentaram maior risco de lesão de tornozelo no gramado artificial. “As inferências relativas à gravidade do ferimento eram inconsistentes, exceto que o relvado artificial apresentou uma probabilidade muito grande de ter efeitos nocivos para lesões menores em treinos de rugby e lesões graves em jovens jogadoras de futebol feminino”, escreveram os pesquisadores.

Estudos sobre futebol americano têm sugerido consistentemente um maior risco de lesões no relvado artificial. Por exemplo, uma revisão de 2014 no American Journal of Sports Medicine encontrou um risco aumentado de lesão do ligamento cruzado anterior no gramado artificial em comparação com o natural. [12] Isto foi verdade tanto na segunda como na terceira geração de gramados artificiais. Os revisores não encontraram nenhum estudo mostrando um risco aumentado para lesões do ligamento cruzado anterior dos jogadores de futebol.

Ainda assim, é difícil tirar conclusões definitivas porque muitos fatores estão envolvidos. A relva natural tem uma variabilidade muito grande, dependendo dos tipos de solo e grama. O gramado artificial muda com a idade e com o desgaste. Os dois tipos de superfície também podem variar em razão do clima e das condições do tempo. O tipo do calçado também pode fazer diferença.

Finalmente, os relatos de lesões dependem tipicamente dos relatos subjetivos dos jogadores, e eles sempre saberão em que superfície estão jogando. Como as condições podem variar de uma superfície para outra, é recomendável que os jogadores pratiquem o máximo possível naquela em que irão jogar. Se jogarão em gramados naturais e artificiais, devem praticar em ambos.

Relação com câncer?

Outros temores relativos ao enchimento com grânulos de borracha surgiram a partir de relatos de uma lista de jogadores de futebol diagnosticados com câncer, a maioria deles goleiros, compilados por um treinador da Washington University. [13]

Um estudo inicial do  California Department of Resources Recycling and Recovery(agência estadual que coordena a coleta de lixo e reciclagem), que analisou a inalação do gás produzido pela borracha, concluiu que “todas as exposições estavam abaixo dos limites de tolerância, sugerindo que os efeitos adversos à saúde eram improváveis em pessoas que utilizavam o gramado artificial.” [14]

No entanto, o departamento continua sua avaliação, com novo foco na ingestão, no contato com a pele e na influência do suor. [14]

Outros também estão examinando a questão, incluindo os centros médicos de excelência da FIFA, onde estamos mantendo um registro de jogadores diagnosticados com câncer. Minha abordagem é ouvir, responder e estudar. É um risco bastante sério, especialmente para as crianças, ao qual precisamos prestar atenção.

Se o enchimento de borracha se mostrar um problema grave, uma solução pode já estar disponível. Alguns fabricantes estão oferecendo fibra de coco como alternativa para o enchimento de borracha. [14]

O resultado final? Temos de continuar pesquisando essas questões. Com milhões de crianças praticando esportes em gramados artificiais todos os dias, há muito em jogo.

 

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