Transplantes fecais podem trazer benefícios duradouros no autismo

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Megan Brooks

Em um estudo com crianças com transtorno do espectro do autismo, o transplante de microbiota fecal levou a melhora significativa e duradoura tanto dos sintomas gastrointestinais quanto dos sintomas relacionados ao transtorno em si, informam os pesquisadores.

“Estávamos esperando alguma melhora dos sintomas gastrointestinais, mas ficamos surpresos de ver 80% de melhora”, disse ao Medscape Ann Gregory, uma das principais autoras do estudo e estudante de pós-graduação em microbiologia na Ohio State University.

“Além disso, esperávamos alguma melhora dos sintomas de autismo e ficamos satisfeitos ao observar 25% de melhora em apenas 10 semanas, algo que persistiu após o término do tratamento”, acrescentou.

O estudo foi publicado on-line em 23 de janeiro no periódico Microbiome.

Lei do reequilíbrio

Muitas crianças com autismo têm problemas gastrointestinais crônicos, disse Ann, “e a alteração da flora bacteriana intestinal parece ser um fator importante”. Estudos anteriores avaliando o microbioma intestinal de crianças com autismo demonstraram menor diversidade nas crianças autistas em comparação aos seus pares sem autismo”.

Evidências crescentes sugerem que os sintomas digestivos e comportamentais das crianças com transtorno do espectro do autismo podem ter origem em parte na disbiose intestinal. Existem mais evidências de que o transplante da microbiota fecal possa efetivamente reequilibrar a microbiota intestinal e aliviar alguns sintomas digestivos e do transtorno do espectro do autismo, observam os pesquisadores.

Para investigar, eles trataram 18 pacientes entre sete e 17 anos de idade com transtorno do espectro do autismo e problemas gastrointestinais de moderados a graves, com um protocolo de transplante de microbiota fecal modificado denominado terapia de transferência de microbiota.

O protocolo consistia em 14 dias de terapia com vancomicina oral, seguidos por 12 a 24 horas de jejum (apenas líquidos translúcidos) com lavagem intestinal utilizando MoviPrep. No 16º dia, para repovoar a microbiota intestinal, foi administrada uma dose inicial alta de microbiota intestinal humana padronizada por via oral ou retal durante dois dias, seguida de doses orais mais baixas de manutenção de microbiota intestinal humana padronizada junto com um inibidor de ácido clorídrico durante sete a oito semanas. O inibidor de ácido clorídrico foi usado para aumentar a sobrevivência da microbiota intestinal humana padronizada no estômago. As crianças foram acompanhadas durante oito semanas após o término do tratamento.

A terapia de transferência de microbiota promoveu mudanças importantes nos sintomas gastrointestinais e do transtorno do espectro do autismo, informam os pesquisadores. Os sintomas gastrointestinais, de acordo com a GI Symptom Rating Scale (GSRS), melhoraram significativamente para dor abdominal, indigestão, diarreia e constipação.

A pontuação média da GI Symptom Rating Scale caiu 82% do início ao fim do tratamento. A melhora se manteve oito semanas após o término do tratamento (77% de diminuição desde o início; P < 0,001). Apenas duas de 18 crianças (11%) alcançaram uma redução < 50% da média da GI Symptom Rating Scale, o ponto de corte de melhora, e foram classificadas como não tendo respondido ao tratamento.

Registros diários das fezes mostraram uma redução significativa do número de dias com deposições anormais ou sem deposições (P = 0,002). Esta melhora se manteve após oito semanas sem tratamento.

Os sintomas relacionados com o transtorno do espectro do autismo também melhoraram com a terapia de transferência de microbiota. A verificação Parent Global Impressions-III (PGI-III), que avalia 17 sintomas relacionados com a terapia de transferência de microbiota, revelou melhora significativa durante o tratamento, sem reversão oito semanas após o término dele, relatam os pesquisadores.

É importante notar que houve uma correlação negativa significativa entre as alterações na GI Symptom Rating Scale e na pontuação PGI-III, o que “sugere que os sintomas digestivos pioram diretamente com os comportamentos do transtorno do espectro do autismo, e que podem ser modificados por meio da terapia de transferência de microbiota”, escrevem os autores.

Os pesquisadores também descobriram que as pontuações na Childhood Autism Rating Scale (CARS), que avalia os sintomas nucleares do transtorno do espectro do autismo, caíram 22% do início ao fim do tratamento, e 24% (em relação ao início) após oito semanas sem tratamento (P < 0,001).

Primeiros dias

A terapia de transferência de microbiota também foi associada a melhora da capacidade de resposta na Social Responsiveness Scale, que avalia déficits na capacidade de socialização, e do Aberrant Behavior Checklist, que avalia irritabilidade, hiperatividade, letargia, estereotipia e alterações da fala.

Sobre a Vineland Adaptive Behavior Scale II (VABS-II), que avalia os comportamentos adaptativos como comunicação, agilidade cotidiana e socialização, a média de idade de desenvolvimento aumentou 1,4 anos (P 0,001) em todos os subdomínios durante a terapia de transferência de microbiota, embora o equivalente da idade final pela escala VABS-II tenha permanecido abaixo da idade cronológica dos pacientes, informam os pesquisadores.

Não houve diferença significativa de resultados clínicos entre os que receberam a dose inicial de microbiota intestinal humana padronizada por via oral e aqueles que a receberam por via retal.

O protocolo da terapia de transferência de microbiota foi em geral bem tolerado, com efeitos adversos somente temporários (principalmente hiperatividade e acessos de raiva/agressão de leves a moderados) no início do tratamento com vancomicina. Não foram observados efeitos adversos prolongados ou alterações bioquímicas relevantes.

Os pesquisadores também observaram reequilíbrio intestinal após a terapia de transferência de microbiota.

Eles encontraram evidências de “enxerto parcial bem-sucedido da microbiota dos doadores e mudanças benéficas no ambiente intestinal. Especificamente, a diversidade bacteriana total e a abundância de Bifidobacterium, Prevotella e Desulfovibrio, entre outros grupos taxonômicos aumentados após a terapia de transferência de microbiota, e essas mudanças persistiram após o término do tratamento (acompanhado durante oito semanas)”, escreveram os autores.

“O aumento da diversidade da microbiota intestinal após o tratamento demonstra a capacidade das bactérias de colonizar o novo hospedeiro e recrutar novas bactérias benéficas após o tratamento, como a Prevotella, disse Ann.

Os pesquisadores advertem que este foi um estudo pequeno, aberto, sujeito ao efeito placebo, por isso os “resultados devem ser interpretados com cautela e devem ser encarados como preliminares”.

“Estamos planejando agora um estudo maior de fase 2 (randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, multicêntrico) como a próxima etapa para a aprovação da Food and Drug Administration americana. A FDA trata este procedimento como novo medicamento experimental. Mais pesquisas são necessárias antes que isto possa ser utilizado como tratamento”, disse Ann.

Procurado para comentar, o microbiologista Brett Finlay, da University of British Columbia, em Vancouver (Canadá), conhecido por seu trabalho sobre patogenicidade microbiana e microbiota, disse: “Essa é claramente uma área controversa, mas há cada vez mais evidências de que os microbiomas possam desempenhar algum papel no autismo.”

“Já existem vários estudos”, acrescentou o Dr. Finlay, “mostrando que os micróbios são diferentes nas crianças com autismo, mas isso não prova relação causal (essas crianças podem ter diferentes hábitos alimentares, etc.). No entanto, também há vários relatos informais sobre melhora do autismo após o transplante fecal. Portanto, não há nada muito novo neste estudo, mas ele acrescenta mais base ao conceito do papel microbiano. À medida que períodos mais longos são estudados, e mais estudos são realizados, vamos aprender mais sobre o assunto”.

Este estudo foi subsidiado pelo Arizona Board of Regents, pelo Autism Research Institute e pela Fundação Gordon and Betty Moore. Vários autores têm patentes aprovadas ou pendentes relacionados com o uso do transplante de microbiota fecal e/ou de probióticos para vários quadros clínicos, inclusive o autismo; declaram ainda ter recebido financiamento da Crestovo para a pesquisa transplante da microbiota fecal; ou são consultores eventuais para a Crestovo. Dr. Finlay é coautor do livro Let Them Eat Dirt: Saving Your Child From an Oversanitized World (Algonquin Books, United States; Greystone, Canada) sobre o papel desempenhado pelos micróbios no desenvolvimento durante a primeira infância.

Microbiome. Publicado on-line em 23 de janeiro de 2017. Artigo

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