Carne grelhada e menor sobrevida no câncer de mama?

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Nick Mulcahy

Um alto consumo de carne de churrasco ou defumada pode aumentar o risco de mortalidade após um diagnóstico de câncer de mama, conclui um novo estudo publicado on-line em 5 de janeiro no Journal of the National Cancer Institute.

Pesquisas anteriores indicaram que consumir carne grelhada/assada e defumada pode aumentar o risco de desenvolver câncer de mama, mas ninguém ainda havia estudado se esses métodos de cozimento podem ser prejudiciais à sobrevivência de pacientes com câncer de mama, observam os autores do estudo, liderados por Humberto Parada, do Lineberger Comprehensive Cancer Center na University of North Carolina, Chapel Hill.

Os pesquisadores usaram dados de 1508 mulheres que participaram no Long Island Breast Cancer Study Project. As mulheres foram entrevistadas após o primeiro diagnóstico de câncer de mama primário invasivo ou in situ em 1996 e 1997, e novamente cerca de cinco anos depois. Parte das avaliações incluiu consumo de carne grelhada/assada e defumada – tanto antes quanto depois do diagnóstico.

Após uma mediana de 17,6 anos de seguimento, houve 597 mortes, incluindo 237 que foram especificamente por câncer da mama.

O consumo elevado de carnes grelhadas/assadas e defumadas antes do diagnóstico foi associado a um risco aumentado em 23% de mortalidade por todas as causas (hazard ratio, HR, 1,23; intervalo de confiança, IC, de 95%, 1,03-1,46).

Além disso, entre as mulheres que mantiveram o alto consumo de carne grelhada/assada e defumada após o diagnóstico, o risco de mortalidade por todas as causas foi elevado em 31% (HR, 1,31; IC de 95%, 0,96-1,78).

O alto consumo foi definido como acima da mediana (44 vezes por ano antes do diagnóstico e 36 vezes por ano após o diagnóstico) e foi comparado com baixo consumo nas análises multivariáveis.

O estudo incluiu quatro tipos de carnes grelhadas/assadas e defumadas, que foram analisadas de forma coletiva e individual: carne bovina, cordeiro e carne suína grelhados/assados; carne bovina, cordeiro e carne suína defumados, como bacon ou presunto; aves e peixes grelhados/assados; e aves e peixes defumados, como peru defumado ou salmão defumado.

Outras associações foram observadas no estudo, mas nenhuma das estimativas foi significativa.

No entanto, a equipe destacou um outro achado: a mortalidade específica por câncer de mama era menor entre as mulheres com qualquer consumo de aves e peixes defumados antes e após o diagnóstico (HR, 0,55; IC de 95%: 0,31-0,97).

Mas, no geral, os autores concluíram que comer grandes quantidades de carne preparada nestas três formas pode não ser aconselhável para mulheres com câncer de mama.

Por que essas carnes são potencialmente problemáticas? Eles são uma fonte “prevalente” de carcinógenos hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAP), observam os autores. Os HAPs são um grupo de mais de 100 produtos químicos diferentes, tipicamente formados quando gordura e sucos de carne grelhada gotejam para o fogo, criando chamas e fumo, explicam os autores. Os HAPs, em seguida, se mantêm na superfície da carne. Eles também são gerados no processo de defumação da carne.

Um especialista não envolvido no estudo concordou.

“Os HAPs são formados quando a carne, incluindo carne bovina, suína, peixe ou aves, é cozida usando métodos de alta temperatura, como fritar ou grelhar diretamente sobre uma chama aberta”, disse Dr. Bhagavatula Moorthy, do Baylor College of Medicine em Houston, Texas, que foi solicitado a comentar o estudo.

O Dr. Moorthy, que fez pesquisas científicas básicas sobre HAPs, disse que em um estudo realizado por ele e seus colaboradores, alterações no DNA mediadas por HAP foram detectadas em tecidos mamários normais adjacentes em 41% das mulheres com câncer de mama e em nenhum dos controles sem câncer (Environ Mutagen 2016;39:193-202).

No entanto, uma clínica que trabalha com câncer de mama, não envolvida no estudo, Dra. Julie Nangia, também do Baylor, disse que os novos resultados não são definitivos. “Os dados são muito interessantes, mas eu não diria a nenhum de meus pacientes para não comer carnes grelhadas, assadas ou defumadas”, disse a Dra. Julie ao MedscapeNews.

“Eu sou do Texas, fazemos churrasco o tempo todo. Eu afirmo a você, não vamos abandonar nosso churrasco com base nesses dados”, disse a Dra. Julie.

Atualmente, a médica aconselha os pacientes a não abusarem do consumo de carne. “Não mais do que três vezes por semana”, disse ela, reconhecendo que não existe evidência de alto nível que permita aos clínicos fazer recomendações específicas. “É o bom-senso, e é basicamente o mesmo conselho que dou sobre o álcool”, disse ela. “É bom consumir essas coisas ocasionalmente, moderadamente”.

As perguntas de pacientes com câncer de mama sobre o consumo de carne são frequentes agora, disse ela, após o decreto de 2015 da Organização Mundial da Saúde de que as carnes processadas, como salsichas e bacon são cancerígenas (International Agency of Cancer Research Group 1).

“Eu digo aos pacientes de que a carne fresca é melhor do que a carne processada”, disse ela.

A literatura sobre a carne vermelha e o risco de desenvolver câncer de mama não é uniforme, acrescentou. “Não foi definitivamente demonstrado que a carne vermelha é um risco para o câncer de mama”.

Em termos de nutrição e bem-estar, a Dra. Julie se diz mais preocupada com o consumo de alimentos de alto teor calórico por suas pacientes com câncer de mama, com os níveis de atividade física e com o problema associado de sobrepeso.

Os autores do estudo observam que as diretrizes conjuntas de sobrevivência ao câncer de mama da American Cancer Society e da American Society of Clinical Oncology recomendam “um padrão alimentar com muitos vegetais, frutas, grãos integrais e leguminosas, e que se limite a ingestão de álcool a não mais de um drinque por dia”.

Eles também observam que não há nenhum comentário nessa orientação sobre carne cozida a alta temperatura, incluindo o consumo de carne grelhada/assada e defumada.

No estudo, os grupos de consumo alto e baixo de carne apresentaram algumas diferenças interessantes.

Mulheres com alto consumo de carne eram mais jovens no diagnóstico (56,7 em relação a 60,9 anos), e uma maior proporção tinha renda anual de US$ 50.000 ou mais (57,0% em relação a 40,4%) em comparação com as mulheres com baixo consumo. Também apresentaram maior probabilidade de serem casadas (77,2% em relação a 60,4%) e de consumirem álcool (51,9% em relação a 43,2%).

O estudo recebeu apoio do National Cancer Institute, National Institute of Environmental Health Sciences e American Institute for Cancer Research.

J Natl Cancer Inst. Publicado on-line em 5 de janeiro de 2017. Resumo

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